David Simas é filho de dois emigrantes portugueses que partiram rumo aos Estados Unidos da América nos anos 60. Conheceram-se em Lourenço Marques, Moçambique, o pai fazia parte da força aérea portuguesa e a mãe trabalhava numa biblioteca, casaram-se no Alentejo e mudaram-se para Massachusetts, nos EUA.
Partiram em busca do “sonho americano”, com a missão de proporcionarem melhores condições de vida aos filhos. «Eu sou o produto dessa esperança, dessa “fantástica audácia de esperança”, como diria Barack Obama», conta David Simas, CEO da Fundação Obama, na abertura da Leadership Summit Portugal. Chega-nos através de um vídeo pré-gravado: «Fui desafiado a falar sobre liderança», contextualiza, «especialmente neste momento de medo, e não me refiro apenas à pandemia. Nos EUA há uma pandemia de raças, uma pandemia económica e francamente uma pandemia na liderança».

Para David Simas, o que se passa nos EUA, mas também na Europa, em África e em todo o Planeta é um «tribalismo, onde a ordem global está a criar grupos. Está a acontecer algo pernicioso. Estamos a começar a ver as pessoas diferentes de nós como o inimigo, como “o outro”, uma tribo contra outra tribo, sou eu contra ti, não é apenas “os outros” terem outras ideias, é pior, acredita-se que as suas ideias não são válidas, que não temos nada em comum, e entramos numa lógica de que eu ganho e tu perdes. E numa democracia pluralista, como a dos EUA, isto é o início de uma ameaça existencialista à democracia e à legitimidade da democracia».
E conta que os líderes, em momentos de medo, lideram de duas formas. Existem os que colocam as pessoas umas contra as outras e os que as incluem no mesmo lado. Estes, sabem que as pessoas são muito mais do as suas raças ou religiões, são todos parte da mesma família humana, são esses os líderes que encontram aspirações combinadas. Enquanto que no primeiro caso, lideram pela raiva, pelo medo, acreditam que para terem sucesso têm de marginalizar as outras pessoas, neste exemplo lidera-se de uma forma corrosivo, criando uma fábrica social, onde o que os sustenta enquanto comunidade é destruído, alerta.
O papel da Fundação Obama
David Simas explica o que tem aprendido através da liderança de Barack Obama e o que tem sido feito na Fundação Obama. Começou a sua jornada ao lado de Obama em 2009, «um momento de orgulho entrar todos os dias na Casa Branca e fazer parte do staff sénior do presidente dos EUA.
Quando nos sentamos naquela posição, na Casa Branca, um dos lugares mais poderosos do mundo, se não formos cuidadosos começamos a desenvolver uma espécie de ego, vaidade e orgulho, de certa forma começamos a acreditar que estamos sempre certos e que a nossa visão é sempre a mais correta. Todos os dias o presidente dos EUA recebia cartas dos americanos. Essas cartas abriam-nos a perspetiva, mostravam-nos outras realidades, mantinham-nos ancoradas e conscientes que estávamos ali para servir, e que para liderar de forma a combater o medo tínhamos de ouvir e de nos mantermos abertos às pessoas, só assim construiríamos confiança».
Segundo o CEO da Fundação Obama a forma como se deve pensar a liderança nestes tempos de medo passa por encontrar a próxima geração de líderes no mundo, líderes unificados por valores e isto consiste em acreditar que todos têm dignidade e voz, mesmo aqueles com quem estamos em desacordo. «Temos de nos ver como líderes ao serviço», diz.

David Simas deixa mesmo alguns ingredientes para nos tornarmos líderes ao serviço dos outros, como a empatia e a compaixão. «Temos de fazer uso de uma grande quantidade de empatia e assim as pessoas sentem-se ouvidas e vistas e continuam a querer construir uma relação de confiança. Empatia é sentir o que cada um sente, compaixão vai além, quer resolver o sofrimento. Quando fazemos isso a nossa liderança não é sobre nós, mas mais importante sobre a comunidade», refere, enquanto prossegue que isso é o cerne do que está a ser construído na Fundação Obama: líderes com mindset de serviço.
«Temos de ser nós, líderes, a mudar este paradigma e perceber que a liderança não é top down, não tem a ver com ganhar, ou apenas com dizer o que deve ser feito, mas sim com aquele momento que constrói confiança. Assim que construirmos confiança e mostrarmos às pessoas que as nossas acções não são em benefício próprio, mas de todos, e não apenas dos que concordam connosco, faremos a diferença», chama a atenção.
E conclui, deixando-nos com uma frase que repetia, todos os dias, quando entrava e saía da Casa Branca: «Lembrem-se quem são e o que representam, o facto de estarem a liderar não é por causa do vosso brilhantismo, nem qualidades transcendentais, não é também pela forma árdua com que trabalharam, nem pela vossa posição, nem título. Lembrem-se dos vossos valores, da vossa estrela Norte e o que vos faz querer liderar e depois lembrem-se do que representam. O facto de estarem a liderar é por causa de uma série de pessoas, da família, amigos, colegas, professores, todos os que fizeram parte da vossa história. Em última análise, a liderança é um exercício de tensão, especialmente em momentos de medo, entre confiança e humildade. Fazemos parte de uma comunidade e um grupo de pessoas pelos quais somos responsáveis por servi-los.
Este é um momento de grande turbulência e de medo, mas também um momento de esperança. Vamos transformar este momento num futuro de esperança e vamos criar um novo estilo: a liderança ao serviço».
Texto TitiAna Amorim Barroso, na Leadership Summit Portugal
