Já tarde na vida, a meio dos cinquenta, esbarrei com esta frase de Dietrich Bonhoeffer, o bispo luterano que morreu num campo de concentração nazi: “O centro vital da ética cristã é o amor”. Compreendi logo como esta visão era inédita e transformadora, como fazia todo o sentido e como não me deixava espaço para perguntar se era assim ou não, mas apenas para tentar perceber como seria assim. Senti-me impelido a estudar como se aplicaria aquela visão da ética ao mundo dos negócios e da gestão empresarial e escrevi o livro O amor como critério de gestão.
O tema parece estranho à inteligência artificial, mas não é. Pode um robô amar? Dito assim, sem filtro nem enquadramento, claro que não, respondemos espontaneamente. A resposta já será diferente se questionarmos se há espaço para o amor num mundo robotizado. Claro que há, o robô substitui o ser humano na execução de múltiplas tarefas, mas não se substitui ao ser humano.
Mas a questão mais interessante é esta: será que a inteligência artificial pode contribuir para um mundo com mais amor, desde logo na atividade económica e empresarial? A resposta é afirmativa e o caminho para essa resposta passa por nos perguntarmos sobre qual é a essência do amor.
Regresso à reflexão que fiz para escrever o meu livro. A nossa matriz cultural judaico-cristã assenta num critério de vida, ele mesmo uma definição da essência do amor: ama o outro como a ti mesmo. A essência do amor está na centralidade do outro em nós, na centralidade do outro nas nossas decisões e ações. As diversas culturas, como o islamismo ou o budismo, dizem o mesmo por linguagens diversas: trata o outro como gostarias de ser tratado se estivesses no lugar dele, não faças ao outro o que não gostarias que te fizessem.
O amor assim entendido é o verdadeiro amor. Antes de ser um mero sentimento, é um critério de discernimento, é uma inteligência sobre os próprios sentimentos, uma racionalidade sobre a medida do próprio amor, de modo a que se torne pleno.
Entendido assim, como escreveu Dietrich Bonhoeffer, o amor é o centro vital da ética, é o centro vital do dever ser humano. Tratar o outro como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no lugar dele é independente de se gostar ou não do outro, de o desejar, de se estar apaixonado, sequer de o conhecer. É um critério, é uma inteligência sobre o amor. O amor tem, em si, um código de conduta.
É aqui que a inteligência artificial pode ter um papel fascinante. Será difícil programar o amor platónico, ou o amor erótico numa máquina. Talvez mesmo seja problemático programar o amor fraternal numa máquina. Mas já não parece interdito à programação de um robô dotá-lo de um discernimento amoroso, isto é, de programar a máquina para que responda ou atue segundo o que um ser humano colocado no seu lugar, no lugar da máquina, faria se considerasse o que gostaria que fosse a sua decisão caso o destinatário dessa decisão fosse esse mesmo ser humano.
O robô poderá não amar como o ser humano, mas poderá agir e interagir como se amasse plenamente: programando-o para decidir em função da centralidade do outro.
Não me choca imaginar um “robô ético”. Uma máquina programada para responder ou agir segundo o critério de um ser humano que não fará aos outros o que não gostaria que lhe fizessem. Não me choca imaginar um robô numa empresa, participando num conselho de administração, discernindo eticamente. Um robô programado para discernir em função do respeito pela dignidade humana, ou mesmo segundo um padrão médio de um homem e decisor generoso.
Na minha área científica, o Direito, há milhares e milhares de páginas escritas sobre conceitos muito úteis para programar uma máquina capaz de discernir segundo um padrão de decisão inspirada pelo amor e para discernir segundo a expectativa razoável de um destinatário das nossas decisões: o bom pai de família, o homem médio, o declaratário normal colocado na posição do real declaratário, o princípio da boa fé, por exemplo.
Na área da Gestão, a moderna literatura sobre as organizações virtuosas ou sobre inteligência emocional, que se multiplicou desde o início do século, pode também dar contributos preciosos para a programação de um “robô ético”.
Não é preciso o sentimento do amor para se discernir amorosamente, é preciso o critério de discernimento do amor. Sempre me ensinaram que amar é diferente de gostar e que não é preciso gostar para se amar. Mais, ensinaram-me que o mérito estava em amar aqueles de quem não gostamos. O sentimento perde relevância neste contexto, ao pensarmos o amor assim.
A máquina não tem de gostar, nem de estar programada para amar sentimentalmente. A máquina tem de ter a inteligência do amor, o código de conduta do amor, a informação e o critério de discernimento do amor, e isso é possível programar.

Por: António Pinto Leite, advogado e sócio da Morais Leitão
