Não é uma revista sobre liderança, mas é uma revista que traz líderes na capa, o que a Líder fomenta. É leve o suficiente para apetecer ler no verão e aproveitou esse facto para falar de mulheres que são “forças para a mudança” no seu número mais vendido. Teve como editora convidada do número a duquesa de Sussex, Meghan Markle que, com o seu enorme poder de convocatória, fez um Q&A com a, tchanan!, Michele Obama!
O príncipe Harry também contribuiu conversando com a mítica Jane Goodall acerca de ambiente, responsabilidade social e alterações climáticas.
Mas as ditas forças são 15 mulheres, fotografadas pelo Peter Lindbergh, com impacto nas suas profissões e representantes de mundos e causas diferentes, da política à moda, do meio ambiente às artes. Falam da sua experiência e do que virá a seguir. São sinónimos de empoderamento, ativismo e compromisso. Usam o seu poder para liderar causas. Parte da sociedade e das características que hoje se pedem a um líder.
Assim, da Jacinda Ardern, primeira ministra da Nova Zelândia, fotografada a partir de um vídeo, à atriz Yara Shahidi, fundadora do Eighteen x 18 que tem como objetivo fazer com que que os jovens se interessem por política; da Jane Fonda à Salma Hayek, atriz e produtora de sucesso que preside a uma associação que trabalha na defesa dos direitos das mulheres em todo o mundo; da Greta Thunberg a falar da sua cruzada no combate às alterações climáticas, à Christy Turlington que foi uma supermodelo e hoje está empenhada na luta contra as mortes derivadas à gravidez e ao parto; a escritora Chimamanda Ngozi Adichie; a Adut Akech, modelo sudanesa e ex-refugiada; a boxeadora Ramla Ali; a Laverne Cox, ativista transgénero e atriz famosa pelo seu papel na série Orange is the new black; e a Francesca Hayward, nascida no Quénia e hoje bailarina principal do Royal Ballet, rosto do novo Cats: todas aceitaram participar no número de setembro da revista. Num artigo anterior falei da importância que as jazzwomen davam ao exemplo, de ser mais fácil querer fazer ou ser alguma coisa se temos modelos.
A indústria da moda vale biliões pelo mundo inteiro, emprega milhões de pessoas nas indústrias do core business e em indústrias relacionadas, significou muitas vezes para a sua face mais visível, a das modelos, o mesmo que o futebol para os homens: sair da miséria. Em agosto, com a revista na mão e contemplando esse lado super profissional, não foi dele que decidi falar. Ou foi. Segundo o fotógrafo, o Peter Lindbergh, a única condição da editora convidada foi ter uma capa com mulheres diversas, o que calhava bem com a nova estratégia da British Vogue e do seu editor Edward Enninful, ele próprio uma escolha feita para agradar a uma audiência mais alargada, diversificada e progressista, dando à moda uma cara mais acessível e representativa. A estratégia tem tido resultados positivos numa Condé Nast que diz estar a viver um período transformacional e bem precisa deles. É também indicativa de como evoluíram as preocupações de uma parte da sociedade e das características que hoje se pedem a um líder. Foi do seu lado lúdico e luxuriante, ele próprio um output de bons profissionais, no prazer que dá folhear e ler uma revista que usa inteligentemente o poder e o fascínio de uma indústria para discutir assuntos importantes e alargar o espectro dos protagonistas. O que a torna interessantíssima. E uma força para a mudança.

Por: Sandra Clemente, jurista
