No início da quarta revolução industrial, a Humanidade pode estar à porta de um futuro que começou a ser imaginado no cinema há quase cem anos, com Metropolis de Fritz Lang (1927), e mais recentemente com Blade Runner (1987, 2017), numa adaptação da ficção de Philip K. Dick, nas quais máquinas e humanos são praticamente idênticos. Se para uns estas imagens são de oportunidade, para outros são de apreensão e desconfiança.
Muitos preveem que nas próximas décadas as máquinas irão ultrapassar os humanos em cada vez mais tarefas. Kurzweil vai mais longe, prevendo que em 2045 enfrentaremos o que ele chama de singularity moment, no qual distinções não biológicas deixarão de existir. Apesar disso, não se duvida que muito queremos deixar em mãos humanas, mas urge pensar qual o nosso papel nesse novo mundo.
A criação e a sustentabilidade do futuro são, muitas vezes, melhor imaginadas pela arte, em particular quando se trata das relações entre humanos e cyborgs que ainda não existem. Com os filmes Blade Runner somos transportados para um futuro distópico onde essas relações estão extremadas. No ecrã, os cyborgs são virtualmente idênticos a nós. No mundo real, alguns humanos tratam ou são tratados como robôs-escravos, enquanto outros são encorajados a expressar e explorar a sua natureza. Esta tensão, que está na base da narrativa, é talvez uma representação da contínua procura da nossa verdadeira natureza humana e uma forma de fazer sentido da disputa entre produtividade e criatividade, conveniência e profundidade, que é muitas vezes refletida na batalha pela sustentabilidade a curto e longo prazo. Mais que nunca, esta batalha é importante para a gestão.
Este assunto, a experiência humana no trabalho, interessou Abraham Maslow nos anos sessenta. Nessa altura, Maslow, agora famoso devida à sua Hierarquia de Necessidades (1-Fisiológicas; 2-Segurança; 3-Afeto; 4-Estima; 5-Auto-atualização), imaginou os requerimentos e consequências de um mundo utópico onde todos os trabalhadores fossem auto-atualizantes, chamando-lhe Eupsychia. Para Maslow, nesse mundo, “indivíduos altamente desenvolvidos, assimilariam o trabalho na sua identidade, isto é, o seu trabalho tornar-se-ia parte do seu ser, faria parte da sua definição de si mesmo”. Nesse mundo, os gestores, seriam facilitadores e praticantes de um novo estilo de gestão.
Usando esta lente nos filmes Blade Runner, podemos ver os cyborgs no caminho de desenvolvimento pessoal de Maslow, a caminho de Eupsychia, que é de certa maneira análogo ao caminho que os cyborgs fazem quando, dando-se conta da sua natureza e da sua insuportável posição de escravidão, se libertam das suas algemas robóticas. Isto acontece porque primeiro fazem sentido da sua realidade e depois porque conseguem utilizar a sua criatividade para buscar um futuro sustentável, que no seu caso é simplesmente um em que são livres de buscar a sua natureza.
Para Karl Weick, um dos maiores pensadores dos micro-processos na gestão, não são as decisões que nos permitem fazer sentido do mundo, mas episódios cosmológicos nos quais “as pessoas sentem que o universo deixa de ser racional e ordenado”. É através da criação desses episódios que podemos alcançar o que chamamos de Eupsychian Disruption, penetrando profundamente no que somos.
Para esse fim, propomos que os gestores forneçam aos seus colaboradores informações ou criem situações capazes de gerar espanto e estupefação, passando a mensagem que inconformidade, divergência ou mudança deles são esperados, e que só assim os perigos do autoritarismo, ao qual estamos habituados a utilizar em situações de tensão, não acabarão inevitavelmente por fazer de nós robôs.

Por: Pedro Sena-Dias, aluno de doutoramento em Gestão na Nova SBE
