É hoje inquestionável a relação direta entre o sucesso de uma organização ou de uma nação e a qualidade das respetivas lideranças. Dada a situação lamentável vigente em Portugal, seria de esperar que tivéssemos na forja uma nova geração de novos e melhores líderes no nosso país. Essa geração estaria a ser moldada, hoje, por uma classe profissional empenhada e motivada na sua missão, não apenas de educar, mas também de formar cidadãos – os professores.
Os constrangimentos
Para tal precisaríamos de ter professores líderes! Teriam de seguir esta carreira profissional os melhores alunos saídos das universidades, os mais motivados e os que tivessem o perfil personalístico/comportamental mais adequado.
Adicionalmente, seria obrigatório serem sujeitos, de modo contínuo, a programas de formação exigentes no domínio pedagógico, didático e comportamental, para além das temáticas próprias da sua atividade docente.
Qual o quadro atual de exercício de um professor?
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- Insegurança e instabilidade de colocação;
- Carreira mal delineada e pouco atrativa;
- Animosidade expressa da sociedade contra esta profissão, com ênfase no comportamento do Estado e das famílias;
- Indisciplina e desrespeito por parte dos alunos;
- Sistema de avaliação profissional inconsequente, sem fundamento real no mérito individual;
- Clima interno nas escolas caracterizado por falta de um verdadeiro espírito de corpo entre docentes e entre estes e as direções escolares;
- Inexistência de qualquer processo seletivo dos novos professores assente em variáveis personalísticas e comportamentais;
- Carga administrativa e burocrática brutal e inconsequente;
- Pressão exercida sobre os professores para a passagem administrativa dos alunos, independentemente do mérito destes.
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As responsabilidades do Estado
A Escola tem perdido a sua verdadeira dimensão societária, devido a erradas políticas dos sucessivos governos. Mudam aqueles e mudam as políticas, sem se definir e acordar um fio condutor, uma estratégia para a educação no país.
Às escolas é atribuída muito pouco ou nenhuma autonomia e muitos diretores escolares não evidenciam perfil para o lugar, “esquecendo-se mesmo de frequentar a sala de professores”. O seu papel acaba por focar-se nas atribuições “políticas”, legais, logísticas e administrativas.
Tem-se descurado uma gestão escolar repartida entre um diretor pedagógico e um gestor operacional. O primeiro, responsável pelo estabelecimento do modelo de ensino da sua escola, e o segundo pela gestão profissional da estrutura.
Tem-se menorizado a importância do envelhecimento da classe docente e as inevitáveis consequências que tal provoca em termos de produtividade e eficácia.
Em consequência, não tem havido a necessária renovação do quadro de professores e não se tem aproveitado a experiência dos mais velhos e experientes para funções de mentoring interno.
As responsabilidades da Escola
As escolas, em geral, vivem numa lógica out-in e in-in, fechadas sobre si mesmo e sem consciência do seu papel dinamizador da comunidade envolvente. A atual e fundamentada desmotivação generalizada dos professores dificulta o seu papel na formação dos alunos e mais ainda na criação de um novo tipo de cidadão.
As escolas, os seus diretores e os seus professores têm de, proativamente, atrair mais a comunidade exterior (lógica in-out) e escutarem com mais atenção as propostas que esta comunidade possa ter.
A abertura às opiniões e sugestões de outros profissionais, também com responsabilidades funcionais de intervenção e formação noutro tipo de organizações, pode trazer bons contributos para o funcionamento das escolas e otimização dos seus resultados.
As responsabilidades dos alunos e das famílias
Não pode haver educação e formação sem rigor, exigência, disciplina, regras e obtenção de resultados. O percurso escolar é uma antecâmara de um mundo do trabalho cada vez mais exigente e onde a capacidade de sofrimento e de improvisação (resiliência, iniciativa e inovação) são cada vez mais exigíveis para se sobreviver.
Os alunos e as famílias têm de interiorizar que a Escola é para se trabalhar e que só os que mostram resultados podem e devem seguir em frente. Aos alunos exige-se respeito pela estrutura hierárquica da Escola, tal como terão de o fazer futuramente numa empresa e na vida em geral.
Ambientes de conflito entre a Escola e os seus clientes (alunos e famílias) não contribui para o bem de nenhuma das partes envolvidas, sendo os alunos os mais prejudicados.
Dez sugestões de melhoria
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- Employer branding – implementação de uma política de comunicação institucional/pública de valorização da profissão do professor, numa ótica de atração de talento para a escola (novos e bons candidatos para a função);
- Rigorosa e isenta/imparcial seleção de candidatos à função, com aplicação das mais eficazes e atuais ferramentas de seleção, levadas a cabo por profissionais de reconhecida competência e experiência no mercado, externos às escolas;
- Criação de um exigente programa de formação em pedagogia e didática para os novos professores, antes de iniciarem as suas funções, também a cargo de entidades e profissionais externos e imparciais;
- Estabelecimento de uma política salarial minimamente atrativa e progressiva, não em função da antiguidade, mas com base no mérito, acrescido de subsídios dignos de alojamento, transporte e alimentação quando exigíveis;
- Programa de avaliação de desempenho dos professores devidamente fundamentado em critérios de pedagogia e de satisfação dos clientes finais, com tradução em prémio monetário de desempenho e progressão na carreira;
- Substituição da atual figura do diretor de escola/agrupamento por um diretor pedagógico e um gestor escolar (administrativo/logístico/financeiro);
- Criação da figura do mentor interno, orientado para o apoio aos professores, alunos e famílias, com um determinado e equilibrado número de “clientes” (professores, alunos e famílias) sob a sua responsabilidade, correspondendo tal função a uma progressão qualitativa na carreira docente, tendo em conta as variáveis “antiguidade” e “mérito” (perfil para…);
- Envolvimento dos alunos na realização de atividades e eventos de todo o tipo em que a escola se abra à comunidade – não apenas à comunidade familiar, mas à comunidade mais alargada geograficamente envolvente da escola, para que se torne verdadeiramente visível e relevante para a população a existência da mesma;
- Exigir aos professores a elaboração e/ou implementação anual de um trabalho/programa que tenha como objetivo formar os alunos numa perspetiva não apenas educativa, mas também política, social, cultural e cívica;
- Divulgação, proativa e alargada, por parte da escola, junto da comunidade envolvente, do balanço da sua atividade anual (relatório sintético das atividades, dos objetivos e resultados atingidos) e solicitação e tratamento de ideias/sugestões.
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Conclusão
Os professores têm uma muito elevada responsabilidade, pelo que devem ser respeitados e dignificados no seu papel. O Estado tem, de uma vez por todas, adotar uma postura de valorização dos professores e, simultaneamente, de exigência face ao seu trabalho. Os professores servem para ensinar e formar e não para exercerem tarefas burocráticas. É premente que se (re)crie um verdadeiro espírito de corpo intraescola.
Os professores que deveriam ter sido, nestas últimas quatro, cinco décadas, os líderes de que o país tanto teria sentido necessidade, criadores de novos e bons líderes que inundassem a nossa sociedade e que criassem uma nova dinâmica empresarial e societária, foram (e são), assim, “líderes” de uma oportunidade perdida!

Por: José Coelho Martins, manager/consultant da Human Bridge
