Quanto custam as mentiras?

Uma espécie da Guerra dos Mundos, mas ao contrário. Orson Wells adaptou-a para teatro radiofónico, a rádio emitiu “noticiando” uma invasão de marcianos e lançou o pânico geral. O regime soviético, já dirigido por Gorbatchov, perante o acidente na central nuclear de Chernobil, a 26 de abril de 1986, lançou uma ação de propaganda a desvalorizar o incidente para tranquilizar a população e o mundo, deixando que a primeira vivesse como se nada tivesse acontecido enquanto respirava a morte. “Quanto custam as mentiras? Não é que vamos confundi-las com verdades, o perigo é ouvir tantas que já não reconheçamos a verdade”. É uma pergunta feita na série Chernobyl da HBO sobre o pior acidente nuclear da história. E o que escolheram os líderes soviéticos fazer?

Negar primeiro, culpar os americanos depois, ir noticiando a conta gotas, minimizar até ao fim. Gorbatchov falou, pela primeira vez, 18 dias depois. Em 2006, disse que Chernobyl tinha acelerado o colapso da União Soviética. A primeira notícia foi a emissão de um comunicado oficial no telejornal da noite, a 28 de abril, depois de os países nórdicos terem noticiado níveis anormais de radioatividade nos seus próprios territórios: “Estamos a tomar medidas para eliminar as consequências da avaria (note-se a displicência). As vítimas estão a receber ajuda. Foi criada uma comissão governamental”. No fim de abril, o governo soviético negou os milhares de mortos. Em maio, declararam ter desaparecido o perigo de alguma tragédia. Negaram o número de mortos, adiaram as evacuações das zonas afetadas, o alcance das radiações, proibiram durante anos a palavra radiação nos boletins das consultas médicas, dispararam os casos de cancro. O número oficial de mortes decretado em 1987 é de 31. Estima-se que tenham sido entre 4 mil a 93 mil. Milhares de soviéticos foram enviados para o local do acidente para o combater. Em junho(!), o Pravda admitiu níveis altos de contaminação para além dos 30 km à volta da central de Chernobil alargando a zona de exclusão da Ucrânia até à Bielorrússia e obrigando, só então, à evacuação de milhares de pessoas que vieram a ser das mais afetadas. Por uma ocultação semelhante, o regime tinha rasgado, literalmente, folhas de documentos que davam nota de acidentes nucleares anteriores menos graves que teriam ajudado a prevenir o acidente. Mas o regime era perfeito e, bem se vê, na perfeição não há falhas. Para a garantir havia um sistema de mentiras e uma burocracia oficiais para ocultar a verdade. Um sistema que garantia que “no final de tudo teremos os nossos vilões, o nosso herói e a nossa verdade”.

Arrepiante é ver, logo no primeiro episódio, o comité do partido de Pripyat (cidade ucraniana construída para os trabalhadores da central nuclear) reunido decidindo que nada se passou, nenhum habitante sai da cidade, nenhum acidente é reportado, nada aconteceu ali, não se darão armas aos inimigos do regime soviético, que é Grande! e há que manter a imagem de grandeza da pátria. Apesar dos milhares de mortos, má formações, contaminações de gerações futuras, campos, culturas, água, animais, radiações sentidas a milhares de km e crianças proibidas de brincar na rua em cidades alemãs enquanto as locais brincavam cá fora… O medo fez o resto: ninguém se atrevia a reportar um erro para não acabar com uma bala na cabeça.

A série é avassaladora, inquietante, atual e ficamos a pensar que temos de ter sorte nos líderes que escolhemos, porque as decisões deles, têm, de facto, impacto nas nossas vidas.

Por isso, em 2019, no Commencement speech de Harvard, Angela Merkel que cresceu numa ditadura e sabe do que fala, apelou aos alunos para que vissem o mundo através dos olhos dos outros e nunca dissessem que as mentiras eram verdades e as verdades, mentiras. Que deitassem abaixo os muros da ignorância e o pensamento castrador porque nada tem de ser como sempre foi; que se perguntem se estão a fazer as coisas porque estão certas ou simplesmente porque são possíveis; e que se lembrassem que a abertura envolve riscos, mas que deixar cair o velho faz parte de deixar acontecer o novo. Por alguma coisa, há quem lhe chame hoje a líder do mundo livre.

Por: Sandra Clemente, jurista

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