A emergência da inteligência artificial coloca novas possibilidades e desafios às organizações. Estamos a começar a conviver com máquinas artificialmente inteligentes, que simulam o pensamento e são capazes de desempenhar múltiplas tarefas mais rapidamente do que os humanos. Pensam em tempo real, aprendem com o exemplo e com a experiência, e respondem a variações no meio envolvente.
A inteligência artificial e as tecnologias relacionadas têm um desempenho cada vez melhor, e não existem dúvidas que vão evoluir significativamente até 2030. Mas será que as máquinas podem ousar mais do que a dimensão instrumental da inteligência e evoluir para outros patamares de consciência? O que é que significa ser humano, quando as retóricas da globalização e dos avanços tecnológicos desafiam perceções existentes? Acredito que por muito inteligentes que os robôs sejam, dificilmente vão adquirir uma alma e um corpo emocional.
O ser humano é fundamentalmente um ser com uma vida interior, animada por uma consciência e ideais. Criamos memórias e idealizamos o futuro. A consciência de sermos mortais é algo que nos define e que uma máquina não consegue imitar. Assim como o sentimento de amor acompanhado da possibilidade de perda. Somos buscadores e colecionadores de experiências, capazes de apreciar a beleza contida em cada instante. Somos capazes de chorar perante uma obra de arte. Em tudo isso está alojado o coração da nossa humanidade.
As mentes e as emoções humanas, devido à sua natureza social, são demasiado complexas para serem replicadas pelas máquinas. Embora estas já consigam ler emoções com precisão, não buscam a conexão profunda e a intimidade.
A intimidade não pode ser fabricada. Dimensões como a vulnerabilidade e a intimidade estão, por enquanto, fora do alcance da inteligência artificial.
As máquinas não conseguem irradiar paixão ou mostrar empatia, pois não têm imaginação. Podemos criar inteligência artificial que imita a empatia, mas falta-lhe a energia gerada pela conexão humana. Uma coisa é uma máquina fingir que é um humano, outra é ter consciência de que é uma máquina.
A espiritualidade é uma experiência interior subjetiva que nos impulsiona a procurar perceber o significado do que nos rodeia, num processo orgânico de atualização permanente, que resulta da dança entre individualidade e espírito. Um dos fatores que nos distingue enquanto seres humanos, é a capacidade de entendimento. O entendimento não é algo mecânico. É a consciência da experiência vivida, que se traduz em sabedoria. A sabedoria, por sua vez, está vários patamares acima do conhecimento. Nós, seres humanos, podemos estar a dizer as mesmas coisas (informação e conhecimento) mas a dar-lhes um significado diferente pelo entendimento que fazemos da realidade, o qual pode assumir formas múltiplas e inesperadas. Por exemplo, os humanos usam a imaginação para construir o futuro, socorrendo-se da inteligência moral, da emoção e do instinto.
No plano empresarial, a inteligência artificial está a mudar a forma como as empresas operam e a forçar um processo de agilização e descentralização, o que por si só coloca desafios tremendos à liderança.
Há medida que os humanos e as máquinas colaboram cada vez mais de perto, os processos de trabalho vão-se tornando mais fluidos e adaptativos. Algumas qualidades de liderança valorizadas no passado, como o expertise, a autoridade e o processamento da informação com tradução em regras e processos rígidos, estão a perder relevância face ao surgimento da inteligência artificial.
A nova ordem, por natureza paradoxal e ambígua, pede que as regras em excesso sejam substituídas pelos valores da agilidade e pela liberdade com responsabilidade, que está intimamente ligada ao crescimento espiritual. Um desafio, se pensarmos que ao longo dos últimos anos as palavras chave foram “eficiência” e “certeza”. Grande parte dos desenhos organizacionais foram concebidos para funcionar como máquinas destinadas a minimizar a incerteza, um campo onde a inteligência artificial nos ultrapassa. A criatividade e o questionamento foram praticamente eliminados do desenvolvimento profissional, e gradualmente fomo-nos mecanizando e desligando da nossa humanidade.
Precisamos agora de evoluir para organizações mais orgânicas, que espelham a natureza humana, capazes de responder rapidamente a desafios complexos e ambíguos. Afinal, ser humano é o que pode assegurar a resiliência na era da inteligência artificial. Precisamos, por isso, de líderes humanos, que acolham a vulnerabilidade e promovam a criatividade, a conexão e a proximidade.
Em primeiro lugar, é urgente investir na cultura do “propósito”, assente na razão de ser do negócio. Este desejo de olhar ao redor e pensar onde podemos fazer a diferença não pode ser replicado pelas máquinas. Em segundo lugar, é necessário reorganizar estruturas e processos em torno do elemento humano.
É igualmente crítico investir nas qualidades humanas que sustentam uma organização orgânica, tais como o questionamento e a criatividade. Em simultâneo, é necessário desenvolver qualidades de carácter como a resiliência, a curiosidade, a imaginação, a intuição, a humildade e a vulnerabilidade.
Talvez não seja por acaso que o crescimento da inteligência artificial acontece em paralelo com a popularidade de práticas como o mindfulness e a inteligência espiritual. E esta tendência é algo que tenho vindo a constatar nos inúmeros programas e retiros que tenho conduzido em empresas dos mais variados setores, nomeadamente Ceiia, Accenture, Ageas, Vieira de Almeida e muitas outras. São programas que trabalham estas dimensões e competências, integrando conceitos de gestão com conhecimentos de neurociência, de sabedoria filosófica e do mundo das artes, pois acreditamos que os artistas têm já desenvolvidas muitas das competências que os líderes têm de aprender.
O sucesso na criação da inteligência artificial pode ser o maior evento da história humana. Infelizmente, também pode ser o último. Já temos máquinas que tomam conta de crianças, que recrutam pessoas, combatem em missões perigosas de guerra, conduzem sozinhas e até um robô que tem cidadania. A questão não é o que vai acontecer, mas sim o que vamos escolher fazer com estes avanços tecnológicos.
Vamos escolher estandardizar e eliminar a serendipidade e a ambiguidade das nossas interações, ignorando que a ambiguidade e a complexidade são a essência de ser humano? Vamos alterar os nossos sistemas económicos priorizando o elemento humano, ou tornar o elemento humano irrelevante perante a inteligência artificial, favorecendo a eficiência? Utopia ou realidade, os clássicos da ficção científica foram-nos deixando alguns alertas.
Nas palavras da diretora executiva da Meeco, “as experiências da vida são moldadas pelos nossos valores e ética, portanto, é fundamental que saibamos regular a inteligência artificial com base nos nossos valores pessoais e fazer valer os preceitos éticos que reforcem a nossa humanidade”.
Entusiasma-me constatar que alguns dos nossos clientes promovem estes debates na equipa e contratam filósofos e antropólogos para as suas equipas de gestão.
Existe um limite ao progresso que pode ser alcançado pelo perfecionismo das técnicas científicas, desligado dos objetivos espirituais e dos valores morais. Se formos movidos pelos valores incorretos, arriscamos ficar prisioneiros de processos eficientes, desenhados pelas próprias máquinas de inteligência artificial e privados de relações sociais autênticas. Seremos pós-humanos que habitam um universo de psicopatas.
Precisamos de líderes com uma consciência cultural e ética, que fazem uso do compasso moral para lidar com dilemas éticos e morais. Pelo menos, o interesse crescente no método e no tema deixa-me otimista quanto ao futuro da humanidade.

Por: Sofia Costa Quintas, executive director na Egor Alchemy
