Gandhi é mais um reflexo paradigmático de como a liderança carismática emerge da confluência entre três elementos essenciais: (1) um líder dotado de qualidades “excecionais” que corporiza uma visão radical (2) para lidar com uma situação crítica, (3) desse modo mobilizando as energias dos seguidores atraídos por uma tal visão. Sem um destes elementos, Gandhi não teria desenvolvido a aura carismática que conquistou – e que foi reforçada após o seu assassinato.
A sua vida foi mais complexa do que a aura de santidade que lhe foi atribuída, sobretudo após ter sido assassinado. Há quem lhe aponte alguma desconsideração pelos direitos dos africanos negros, pelo menos nos primeiros tempos da sua vida na África do Sul. Tendo recrutado soldados indianos para combater ao lado dos britânicos na I Guerra Mundial, foi-lhe imputada inconsistência entre essa conduta e os valores da não-violência que apregoou e usou como lema na luta pela independência. Segundo alguns críticos, o modo como se relacionou com a esposa não terá sido consistente com a sua inclinação pela emancipação das mulheres. Terá testado a sua “pureza” (abstinência) sexual de modos que hoje nos chocariam. Todavia, não podemos analisar Gandhi à luz dos valores dos nossos dias – sob pena de sermos hipócritas. Recorde-se que Kant e Hume seriam hoje considerados racistas e Aristóteles misógino. Isso não nos deve impedir de admirar o que neles há de admirável. Importa, pois, que nos preparemos para que valores hoje dados como sagrados venham a ser abominados por gerações vindouras.
Gandhi suscitou ódios e amores profundos. O mesmo ocorre com líderes carismáticos atuando em contextos empresariais e sociais.
A dedicação extrema a uma causa e os sacrifícios pessoais a que Gandhi se entregou em prol da mesma continuam a inspirar pessoas em todo o mundo. Gandhi deu corpo à ideia de que a liderança orientada por um propósito nobre pode ser um fator de regeneração e progresso. A ideia é válida não apenas no meio político, mas também no mundo empresarial. Naturalmente, nem todos os propósitos alegadamente “nobres” o são. Veja-se o que ocorre, nos dias de hoje, com lideranças carismáticas de movimentos extremistas em várias partes do mundo. É por essa razão que a aura de santidade, atribuída de modo acrítico, pode ser perigosa. Não precisamos de santos para mudar positivamente o mundo.

Por: Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School
