Toquei a campainha e em pouco tempo Herro Mustafa abre a porta, e ela mesma, com os braços abertos, recebe-me em sua casa. Ela é calorosa, suave e elegante. A primeira coisa que percebemos é a sua autoconfiança e a sua atenção aos detalhes enquanto passa de anfitriã perfeita, oferecendo chá e bolo (ela sabe que sendo inglesa esses hábitos estão-me enraizados – e devo dizer que fiquei grata depois do caos do trânsito de Lisboa), a uma profissional diplomata irrepreensível. Eu ouvi Herro falar em público algumas vezes, e também a conheci em privado antes. Fico sempre fascinada pela sua calma sabedoria adquirida ao longo de anos de experiência num ambiente político, altamente competitivo, onde é crucial uma cautela permanente. Atualmente, é uma representante da presidência de Trump em Portugal. Muçulmana e ex-refugiada, mas também é americana.

A conversa flui facilmente entre duas mulheres que passam a vida nas trincheiras e que vivem longe das suas raízes e cultura.
Herro é verdadeiramente inspiradora, uma defensora feroz na paridade de género, apoiando as mulheres no local de trabalho, e no equilíbrio entre trabalho e vida familiar. Mas ela é muito mais que isso. Do Curdistão Iraquiano para um campo de refugiados no Irão e deste país para o serviço diplomático nos EUA, Herro Mustafa é, hoje, uma líder da embaixada dos EUA em Portugal. Mora em Lisboa com o marido e duas filhas, e é, também, vice-chefe da missão dos EUA em Portugal. Foi ela que ficou a dirigir a embaixada americana na transição entre o embaixador Sherman e o atual embaixador George Glass, de janeiro a agosto de 2017. Representou os presidentes George W. Bush e Obama, em diversas ocasiões, e agora representa o presidente Trump. Afinal, a sua lealdade, como a própria diz, é para com a Constituição.
Tem orgulho de ser curda, embora a sua origem, como para a maioria das pessoas, seja um detalhe. É uma diplomata americana e a sua lealdade é sempre para com os EUA. Não se lembra de viajar do Iraque para o Irão. Viajou com a mãe e o irmão recém-nascido, durante três dias e três noites atravessando montanhas para escapar dos perigos e perseguições. O seu pai já estava no Irão à espera da família. Herro tem poucas lembranças de viver no campo de refugiados, mas lembra-se do voo do Irão para os EUA. O destino foi Minot, na Dakota do Norte. Tinham apenas as roupas do corpo, e mesmo estas doadas. Rapidamente, os seus pais dividiram-se entre dois ou três empregos cada um para sustentar a família. Trabalhando dia e noite, eram obrigados a levar as crianças com eles que dormiam ao seu lado enquanto trabalhavam, e de manhã eram enviados para a escola. É fácil ver onde Herro adquire a sua ética de trabalho e a sua crença na educação como solução para o avanço social. Foram tempos difíceis e também solitários para os pais, uma vez que a comunicação com a família no Iraque era extremamente complicada. Perderam casamentos, eventos familiares e a despedida e o luto de vários entes queridos que morreram durante o conflito. Eu só posso imaginar.
Contudo, terem aterrado numa pequena cidade trouxe algumas vantagens. Todos os foram receber. A maioria dos habitantes era originária da Suécia e da Noruega, e era loira enquanto eles tinham cabelo escuro. Onde quer que fossem, todos sabiam quem eram – a família Mustafa.

O seu pai foi o seu exemplo. O primeiro e mais importante pensamento dele foi que as crianças aprendessem inglês e que tivessem uma formação. Os seus pais incentivaram-nos a lutar pelo seu futuro, a estudar muito e a trabalhar duro. Foram premiados com bolsas de estudo para ingressar na universidade e, mais tarde, para continuarem a formação pós-graduada. O seu pai sempre os lembrava que eles eram os sortudos. Rapidamente integraram-se na comunidade. Quando Herro entrou na universidade, toda a família se mudou com ela, e na despedida toda a cidade exibia mensagens nas janelas a dizer “Boa sorte, Família Mustafa, vamos sentir a vossa falta”. Portanto, o título de refugiado não define ninguém eternamente. Herro diz que sabe que é por ter sido refugiada que é a pessoa que é hoje. Ela não esconde o passado e está plenamente consciente da sua jornada. As palavras do seu pai lembram-lhe que teve uma oportunidade e que a teve de aproveitar ao máximo. Ela diz com profunda convicção que a América lhes deu a liberdade.
Herro é profundamente consciente de que o seu passado a moldou e alterou a sua forma de encarar os conflitos e situações difíceis. O seu passado dá-lhe perspetiva: quando algo parece difícil e intransponível ou cheio de obstáculos, ela vê como um quebra-cabeças e começa a descobrir como resolvê-lo. Ela sorri e diz que muitas vezes acha que as pessoas acreditam que a vida diplomática são só cocktails, viagens exóticas, conversas e networking. Longe disso… é a adaptação ao meio ambiente onde está designada, de forma a criar impacto e legado. Foi colocada em zonas de guerra como o Iraque e o Líbano, e trabalhou em questões difíceis de conflito, como as relações entre o Afeganistão e o Paquistão. Onde quer que ela vá, o seu primeiro pensamento é como pode fazer a diferença, seja a nível governamental ou na vida das pessoas. Gosta de se questionar e refletir sobre questões como “quem e como” serão os líderes de amanhã e como poderá apoiar essas pessoas a alcançar os seus objetivos.
Quando pergunto a Herro sobre a sua família e as suas filhas e o que ela quer que aprendam, os seus olhos e todo o seu comportamento suavizam-se e ela enche-se de orgulho. As suas filhas crescem rodeados por quatro idiomas. A embaixada tem uma creche, sendo uma das cinco únicas embaixadas dos EUA em todo o mundo que disponibiliza este apoio aos seus funcionários. Diz que é uma grande ajuda e é ótimo tê-los tão perto e poder usufruir dos seus direitos sempre que necessário.
Perguntei a Herro como conheceu o marido e como ele se está a integrar em Portugal, sendo ela muçulmana e ele hindu. E ela respondeu que se conheceram quando ela trabalhava como diplomata na Índia, onde esteve durante quatro anos. Há, é claro, uma diferença na religião, mas Herro diz que valoriza a espiritualidade e que podemos ser espirituais de várias maneiras. Mais uma vez, ela sorri e diz que mais importante do que escolher uma religião, é que as suas filhas respeitem todas as religiões e sejam tolerantes.
Quer ser um modelo a seguir para as suas filhas e quer que elas tenham referências femininas. Ela acredita que os exemplos a seguir são importantes. Ela e o marido têm o cuidado de não proteger as crianças em demasia. “É importante que deixemos que elas cresçam mantendo e desenvolvendo a sua personalidade. Mas as referências definem exemplos de educação, atitudes, cultura e ética. Para as meninas, é ainda mais importante… é inaceitável estarmos ainda a falar sobre a mutilação genital feminina e a violência doméstica”. O seu foco na educação das filhas é, acima de tudo, ensinar a tolerância. A tolerância é a chave para tudo. Herro aprendeu a importância da tolerância com a sua própria história de vida, mas também a nível político e social pelo mundo inteiro. É importante ensinar a tolerância e o respeito uns pelos outros. Também é importante ensinar as meninas a libertarem-se. Nem Herro nem o marido são conformistas. Viajar expandiu-lhes os horizontes e as mentes – dizendo muito sobre o marido que a seguiu – e proporcionou contacto com outras culturas, percebendo o que é preciso para superar estereótipos e falhas de comunicação e para ativamente participar em debates e partilha de opiniões. Estão a passar isso para as suas filhas. Um mundo de possibilidades e de oportunidades.

E mais uma vez falamos da América. Herro diz que a América deu-lhe a vida. É um país de oportunidades. Ela realmente acredita que é uma honra representar o governo. Mas valoriza o facto de que ser mulher não a impediu de chegar à posição em que está agora. Não é fácil, mas é possível. Quando perguntada sobre como vê Portugal, rapidamente diz que em Portugal encontrou pessoas altamente qualificadas e educadas. Pessoas engenhosas e graciosas. Dão-se bem com todos. Às vezes funciona, às vezes não, mas é uma alegria ver. Acredita que Portugal precisa de desenvolver e investir mais na divulgação das suas conquistas e exponenciar a sua promoção. Poderiam ter um impacto tão maior e crescer muito mais se o marketing fosse melhor. Quando chegou a Portugal, há apenas dois anos, apenas 400 mil americanos viajavam para Portugal e hoje são mais de um milhão de visitantes americanos. Sim, há uma dose de sorte, mas também há um bom trabalho promocional. Imagine se isso acontecesse em todas as outras áreas. O crescimento empresarial iria disparar, ela acredita.
Inevitavelmente, falámos sobre a paridade de género e sobre as mulheres em Portugal e a sua experiência como observadora da nossa sociedade. Percebe que as mulheres portuguesas não são grandes networkers. Elas não o valorizam tanto quanto as mulheres profissionais de outros países, que o networking não é tão forte e poderoso quanto poderia ser e usado como uma ferramenta estratégica. Ela acredita que as mulheres podem conseguir o que quer que decidam, mas as mulheres mais bem-sucedidas têm de se rodeiar de grupos de mulheres poderosas. As mulheres apoiar-se-ão porque se entendem. Ela também acredita que o apoio familiar, educação e valores culturais são a chave para a mudança e pretende apoiar as mulheres em Portugal. Os EUA incentivam a educação das mulheres nas empresas e as instituições estatais desempenham um papel crucial na promoção da diversidade e inclusão das mulheres. A postura do governo é extremamente importante, mas as mulheres também precisam de desempenhar o seu papel. Têm de se promover, procurar motivarem-se umas às outras, denunciar injustiças e comportamentos inaceitáveis. Herro acredita que as mulheres precisam de se juntar e divulgar a mensagem e garantir que as pessoas a ouçam. Os exemplos são cruciais e os meios de comunicação e a sociedade devem destacá-los com a maior frequência possível. As mulheres devem esforçar-se para mudar as perspetivas sociais, todos os dias.
Pergunto a Herro como é que o seu passado a ajudou a encontrar a sua voz e que conselho daria hoje à jovem que ela era. Responde espontaneamente que lhe diria para nunca desistir: “Para continuar a lutar sempre pelo que acredita e que tenha um objetivo. Definir metas e não permitir que ninguém lhe diga que não as pode alcançar”.
Então, eu perguntei-lhe qual o seu desejo para o futuro em relação às mulheres e a resposta foi imediata: “Eu quero menos ênfase na aparência. A pressão sobre as meninas é inacreditável. A sociedade deve mudar a sua avaliação das mulheres. Como alguém é fisicamente não pode definir quem somos. Nunca deve ser um fator e a fasquia é ainda maior para as mulheres. Vamos ensinar as nossas filhas a amar as pessoas, a serem tolerantes e a aceitar as pessoas como são, pelo seu valor. Não há o suficiente disso no mundo”.

Por: Linda Pereira, diretora executiva da CPL Events
