
A brasileira Leyla Nascimento foi eleita presidente da World Federation of People Management Associations (WFPMA) em junho de 2018, durante a realização do Congresso Mundial de Recursos Humanos, que a World Federation promoveu em Chicago, nos Estados Unidos da América, em simultâneo com a SHRM 2018 – Annual Conference & Exposition, promovida pela Society for Human Resource Management.
Leyla, que percurso fez profissionalmente?
Leyla Nascimento (LN): Trabalhei em empresas de referência no Brasil e ocupei diferentes cargos executivos, e por 18 anos fui a principal executiva de uma organização não governamental e de ações sociais voltadas para jovens estudantes brasileiros. Há 13 anos fundei uma empresa, o Grupo Capacitare, que trabalha com implantação de programas de estágios e trainees para colocação de jovens talentos em empresas de grande porte. Atuamos em todo o Brasil e temos o orgulho de ter como clientes quase 200 empresas de grande porte, de diferentes segmentos produtivos do nosso país, que são referências em estratégias de Recursos Humanos no desenvolvimento das novas gerações de profissionais.
O que a atraiu (e continua a atrair) para a área dos Recursos Humanos e da Gestão de Pessoas?
LN: Formei-me em Pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, fiz uma pós-graduação em Educação e Desenvolvimento de Recursos Humanos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e, com os cargos executivos que passei a exercer, fiz o mestrado executivo pela Fundação Getulio Vargas. Com essa trajetória académica, fui atraída a trabalhar com políticas e estratégias de Recursos Humanos, por entender que o mundo corporativo necessita de profissionais preparados e qualificados para conseguir atingir a sua perenidade num mercado volátil e competitivo. Essa volatilidade traz às empresas o desafio de rever a forma como atrai, gere e desenvolve pessoas. Nesse contexto, tenho um olhar atento, também, para as novas gerações de profissionais, os Millennials, que necessitam de mais apoio e de melhor orientação em profissões que estão a refazer o seu modo de atuar, ou que vão desaparecer em função das mudanças tecnológicas.
O mercado de trabalho continua ainda muito debilitado no que toca à igualdade e paridade, seja de género, raça, orientação sexual, religião…?
LN: Sim, ainda estamos numa trajetória de mudança cultural e de reconhecimento que a sociedade e o mundo corporativo urgem por tratamento igualitário, e que a discriminação já não tem espaço nos valores humanos, tão importantes na atualidade. Já não somos uma ilha e “donos” do saber. O pensamento diverso e as competências complementares vão proporcionar resultados sustentáveis num planeta que urge por melhores relações humanas. Não reconhecer a real competência e capacidade de um ser humano, por discriminação de qualquer espécie, é estar na contramão de um tempo de convergência. As empresas precisam de clientes e de profissionais que façam a diferença em cenários tão revoltos. Discriminar é perder profissionais qualificados que poderiam gerar potencialidade em negócios que exigem competitividade.
Sendo muitas vezes a única mulher nos cargos executivos que ocupou, que preconceitos e obstáculos teve de enfrentar?
LN: Diria que vivi situações difíceis na aceitação da minha capacidade profissional por ser mulher. Quando comecei a minha carreira executiva, as empresas estavam impregnadas de modelos de gestão onde os homens eram as referências nas funções de liderança. Confesso que convivia com frases como: “Cuidado com o que se expressa nas reuniões, porque vai estar a ser observada”; ou “Quero falar com o seu gestor”, e eu dizia: “Sou eu mesma”. Como também: “Muito cuidado, em negócios não se pode decidir com emoção” e “Mulheres não sabem tomar decisões”. Precisei de transpor esses preconceitos estudando muito e mostrando todos os dias a minha competência de liderar. Não deixava que essas frases prontas internalizassem em mim alguma insegurança. Trago comigo a frase da minha querida mãe, que dizia: “Filha, porque não?”. E assim, segui em frente levando em conta a minha sensibilidade feminina, a crença nos meus valores e a capacidade de me renovar. O que é isso? Para enfrentar qualquer discriminação, temos de ter a capacidade de renovar, para ganhar força e seguir adiante. Vivi a época em que a discriminação contra a mulher era tão forte, que me via como aquela cena do filme Philadelphia, quando um homem que sofria o preconceito de ser homossexual, dizia que sentia a “morte social” antes da “morte física”. Em alguns momentos, como mulher, sentia-me marcada pela diferença nos ambientes corporativos. Hoje, posso dizer que a minha trajetória profissional e de liderança é reconhecida e que não parece que vivi aqueles árduos tempos. Ao ter a graça de ser avó de duas netas, vejo como, ainda crianças, são abertas para acolher a todos. Os seus olhos não têm filtros. Todos são iguais para elas e acho isso lindo nas novas gerações. A minha neta diz que “lápis cor da pele”, pode ser o preto, o castanho, o rosa ou o vermelho. Acho isso de uma humanidade linda e verdadeira. Algo pelo qual a minha geração sofreu, lutou, e ainda luta, para tornar o mundo mais igualitário.
Que experiências ou momentos profissionais mais marcaram a sua carreira?
LN: Com certeza, trabalhar com jovens tem sido a minha maior aprendizagem e realização. As novas gerações estão providas de transparência do que consideram bom ou não para as suas vidas. Entendem que o trabalho é um bem-estar da vida e não se resume nisso. Valorizam o tempo útil como algo importante. O trabalho precisa de ser prazeroso e complementar ao que entendem como bem-estar. Ser reconhecida por entidades representativas no meu país pelos trabalhos que desenvolvi em Recursos Humanos também foi muito marcante para a minha carreira. Tenho medalhas honrosas da Marinha, do Exército Brasileiro, da Câmara de Vereadores do Estado do Rio de Janeiro, e fui, por mais de uma vez, premiada como “Profissional do Ano” por entidades de classes. Outros momentos foram: ter sido escolhida para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Administração; ter sido a primeira mulher do Rotary Club da minha cidade, quando o Rotary abriu para as mulheres em 1989; ser nomeada presidente da Associação de Recursos Humanos do Estado do Rio de Janeiro e do Brasil, depois de 40 anos lideradas por homens; ter tido ações inovadoras nas empresas onde trabalhei, estabelecendo um trabalho em equipa quando isso não era valorizado.
Em relação à sua vida associativa, como foi a trajetória até hoje?
LN: Tenho um exemplo de casa. O meu pai foi líder de sindicatos de profissionais da sua época. Ele era da área de engenharia elétrica e trabalhava numa grande empresa de energia no Brasil. Atuava de forma voluntária pela sua área profissional e a sua liderança era muito reconhecida. Em 2000, fui convidada para integrar a diretoria da Associação de Recursos Humanos do Rio de Janeiro e, em 2004, assumi a sua presidência. Em 2010, fui eleita presidente da ABRH Brasil, que congrega 22 unidades nos principais estados do país, tendo sido, mais tarde, reeleita e fiquei seis anos na gestão. Depois, em 2015, fui eleita como presidente da FIDAGH – Federação Interamericana das Associações de Gestão Humana, que integra 15 países da América Latina. Finalmente, em 2018, fui indicada para presidir a WFPMA – World Federation of People Management Associations, que possui cinco Federações Continentais afiliadas, que por sua vez reúnem 93 países. Para atingir a presidência dessas Associações, exerci outros cargos anteriores como diretora, vice-presidente e secretária-geral, como foi o cargo que ocupei na WFPMA antes de assumir como presidente. O mais importante nesta trajetória foi o quanto aprendi com o voluntariado e como, junto com outros colegas, desenvolvemos ações de valorização dos profissionais de Recursos Humanos, contribuindo para solucionar os desafios que enfrentam nas suas organizações. Conhecer a realidade de cada país, acompanhar as principais tendências e contribuir para disseminar conhecimento e boas práticas corporativas, tem sido uma ótima experiência neste voluntariado.
O que representa ser a primeira mulher a assumir a liderança da Federação Mundial de Recursos Humanos?
LN: Tenho dito que este fato de “primeira mulher” me tem acompanhado ao longo da minha vida profissional. Eu diria que é ter a responsabilidade e o desejo de deixar um legado, a que possa ser dada continuidade por outras gestões que me sucederão. Temos no board da WFPMA uma equipa de grandes líderes, que estão sempre prontos para dar o seu melhor na nossa Federação. É rica a experiência de juntos agirmos com o olhar de outras culturas. Somos cinco continentes com a sua cultura e com ricas experiências para compartilhar. Isso torna o nosso voluntariado desafiador e, por isso, ficamos imbuídos de dar o nosso melhor. Também não posso deixar de registar que represento a FIDAGH, todos os latinos dos nossos países afiliados e, muito especialmente, as mulheres latinas. E isso orgulha-me muito.
Agora que está à frente da WFPMA, quais são os principais objetivos a atingir?
LN: Temos um plano estratégico para a gestão e eu poderia simplificar em cinco pontos:
- Compartilhar estudos, pesquisas e práticas das Associações dos 93 países, cujas Associações Nacionais fazem parte da nossa Federação. Há uma riqueza nessas Associações na produção de trabalhos, conteúdos e pesquisas para o desenvolvimento da nossa área, que gostaríamos de compartilhar;
- Maior suporte aos países do Continente Africano, que também produzem excelentes trabalhos com alta qualidade nas suas Associações Nacionais e, por isso, gostaríamos de os partilhar com as demais Associações;
- Estarmos próximos e participar em entidades e fóruns representativos que tratem de Recursos Humanos, organizações, carreiras e trabalho;
- Transformação Digital e a importância de fornecer à nossa sociedade uma plataforma de interatividade, dados, tendências globais, pesquisas, estudos e conhecimento sobre gestão de pessoas;
- Amplo estudo sobre as carreiras do futuro e as novas gerações, que têm sido temas recorrentes devido à sua importância, pois precisamos de compreender para onde caminham as profissões, as gerações do futuro, e como nos podemos preparar para atender as demandas que estão por vir.
Tendo em vista as recentes mudanças no mundo do trabalho – sejam elas digitais, tecnológicas, económicas ou humanas –, para onde caminha a gestão de Recursos Humanos?
LN: A gestão de Recursos Humanos caminha para um processo de revisão da sua forma de atuar. Os seus sistemas operacionais precisam de ser revistos. A sua estratégia de suporte às organizações, ao dotá-las do que há de melhor em talento humano, traz o componente das mudanças pelas quais os modelos de gestão estão a passar. A Inteligência Artificial (IA) traz lógica e emoção. Os algoritmos trazem a fundamentação para as tomadas de decisões com mais assertividade, porém, sem perdermos o essencial do humano, que é a capacidade de interpretar e estabelecer as ações e as estratégias. Temas como “engajamento”, “empowerment”, “performance” serão melhor trabalhados com a IA. A capacidade de corresponder a um mundo corporativo em mutação, sairá das áreas de Recursos Humanos. Os modelos dos negócios exigem rapidez na sobrevivência nesse mercado. E os Recursos Humanos vão precisar de corresponder a um ambiente e pensamento diversos, tendo a IA como suporte para atingir melhores resultados com pessoas. Mesmo com a tecnologia, o mundo é de plena humanização, e esta é a vocação das áreas de Recursos Humanos.
