Carlos Barbosa acha que a liderança é uma partilha: “Liderar pessoas é partilhar com elas, é saber delegar e, sobretudo no aspeto social, poder estar com essas pessoas com quem se trabalha diariamente”. Durante esta conversa no carro, ficou claro que dá uma importância tremenda às pessoas e à humildade. Considera que gerir empresas sem olhar pelas pessoas é uma ideia que está morta.
É presidente do ACP – Automóvel Clube de Portugal onde se orgulha de implementar práticas de liderança inovadoras, com destaque evidente para a questão da comunicação: “A comunicação para mim é importantíssima, acabei com os papéis na empresa. Não há papéis, é tudo informático, portanto, as pessoas comunicam mais facilmente, mais rapidamente, com respostas muito mais rápidas”. Também gosta que o critiquem porque considera que só assim é possível mudar e evoluir.
Que projeto de liderança mais o entusiasmou até agora?
Carlos Barbosa (CB): O projeto que mais me entusiasmou foram as rádios. Quando era dono das rádios tinha uma equipa de pessoas muito profissionais, e que hoje em dia estão espalhadas por todas as rádios nacionais e são as grandes estrelas da rádio. O projeto do Correio da Manhã também foi um projeto onde tive a sorte de ter como mentor Vítor Direito, que me ensinou muito e me levou a que os dois conseguíssemos fazer uma grande dupla. Hoje em dia, o Automóvel Clube de Portugal que transformámos numa grande empresa e que deve ser a maior empresa de serviços do país.
Falou-me de ter aprendido muito com o seu mentor. Considera importante que o líder tenha essa capacidade de aprender com os outros?
CB: Aprender é fundamental. Ler muito sobre os outros também o é. Estou a ler agora o livro de Elon Musk, porque me interessa saber como é que a Tesla é financiada e qual é o seu futuro. Já li também o livro de Steve Jobs que adorei, já era uma pessoa que admirava imenso, e considero-o um dos grandes líderes dos anos mais recentes. Gosto muito de partilhar a minha liderança e perceber como é que os outros lideram.
Falou na Tesla. Estamos a caminhar para uma transformação totalmente digital no setor automóvel?
CB: Eu acho que no futuro os carros vão ser os híbridos plug-in, acho que não vão ser os elétricos. Para se ter uma ideia, em 2040 vamos ter dois biliões de carros a circular no mundo inteiro e apenas 12% serão elétricos, e destes 12% grande parte é porque a China está numa grande revolução tecnológica em relação ao ambiente e, portanto, tem de ter efetivamente a eletrificação dos seus carros. São números que as pessoas não sabem ou que não calculam. No ano passado, em Portugal, venderam-se duzentos mil carros e na China venderam-se vinte e três milhões! Vinte e três milhões a poluir é assustador! Obviamente que a China tem de caminhar muito rápido para o elétrico. Mas o futuro é o híbrido, o que no fundo significa um meio termo, se quiser pode fazer sessenta ou setenta quilómetros na cidade em elétrico e, depois, pode ir para o Porto, com combustível.
E os carros autónomos?
CB: Quanto aos carros autónomos, foi feito agora um estudo na América, em que se identificaram as pessoas que queriam os carros autónomos. Então essas pessoas ou eram deficientes ou pessoas com mais de setenta anos. O que acontece é que no fundo todas as pessoas gostam de conduzir. Esse inquérito diz que 90 % das pessoas querem conduzir, querem ter a possibilidade de poder conduzir. Por isso, penso que estamos ainda muito longe dos carros autónomos. Há certamente empresas tecnológicas que estão interessadas em que haja carros autónomos, mas eu estou convencido de que os carros autónomos serão uma minoria.
Voltando ao ACP, o clube que preside, quais são os segredos para o sucesso?
CB: O ACP é já uma marca de referência – pela sua seriedade e pelo bom serviço que presta. É como se fosse um anjo da guarda dos portugueses, quer no país, quer no estrangeiro. É importante que as pessoas saibam que sendo sócios do ACP, e pagando uma quantia de apenas €9 por mês, têm acesso a muitos serviços que valorizam as suas vidas.
Quem são os seus líderes de referência?
CB: A nível internacional, Bill Gates e Steve Jobs são para mim duas referências muito importantes: como começaram, como fizeram, como se desenvolveram. A nível nacional, Carlos Tavares, da PSA, que conseguiu tirar a empresa da linha vermelha, e, hoje em dia, ganha dinheiro. António Coimbra, que foi quem fez a Telecel e a Vodafone, e que hoje em dia é presidente da Vodafone Espanha. São pessoas em que me revejo, que conheço e com quem discuto. Não são emproados, não estão em bicos de pés, não têm a mania que são presidentes, não têm a mania que são administradores – normalmente, os que são muito vaidosos são os piores!
CB: A humildade é importante?
A humildade é muito importante, porque se as pessoas veem alguém em bicos dos pés todo o tempo, desconfiam…
Entrevista extraída do livro “How Fast Can We Go”, de Anabela Chastre
