Quem quer reconhecimento?

Uma das expressões mais ouvidas nos últimos anos é “falta de reconhecimento”, e ela invadiu os ambientes, especialmente o profissional. Há pesquisas que mostram através dos seus interessantes gráficos coloridos, a preferência dos colaboradores entre os itens fundamentais: salário, benefícios, comunicação, plano de carreira, aprendizagem, ambiente e relações, por exemplo, e, sem qualquer margem de erro, vê-se no alto do pódio, em primeiríssimo lugar nas prioridades dos pesquisados, adivinhe… exatamente, o desejo de ser reconhecido. Países como Portugal (dados europeus também), Brasil e Estados Unidos possuem os seus espinhos para além da rosa profissional, no jardim das organizações.

Evidentemente, reconhecer e ser reconhecido são comportamentos humanos há tempos difundidos na vida laboral, então não se trata de um requisito original, mas de um aumento de tal necessidade, um botão imaginário que amplifica o desejo psicológico das pessoas e as torna mais sedentas pelo apreço alheio, numa espécie de autenticação de valores que precisa do aval das lideranças, grosso modo, a fim de reequilibrar o estado emocional e a motivação do seu dependente direto. Funciona? Até certo ponto, sim. Mas, percebe-se, virou uma roda viva incessante, como se o reconhecimento tivesse se tornado a corda do relógio – nos moldes clássicos –, e ao menor descuido, o relojoeiro poderá ficar sem o resultado do seu ofício, a exatidão horária.

Programas que visam alcançar os sentimentos dos colaboradores, considerando as suas necessidades pessoais mais íntimas, oferecem fôlego nesta corrida que inclui até a retenção de talentos, mas não conseguem resistir ao deserto da falta de reconhecimento individual, tanto na singularidade enraizada no histórico privado, quanto na modulação dos factos variáveis que margeiam certos momentos particulares da vida.

Assim, uma boa possibilidade de oferecer a doce e tão deliciosa água à sede em questão, pode ser o tipo de treinamento comportamental que sensibilize através de dinâmicas de grupos e apresentações pertinentes, capazes de provocar certa dose de reflexão e que se aproximem do autoconhecimento especializado – qual a necessidade que cada um tem de ser reconhecido (efeito) em razão da expectativa (pode ser exagerada) que cria sobre si (razão), ou melhor, pergunte-se: que autoconceito eu criei, a ponto do mesmo gerar expectativas que possam estar além da satisfação? Uma coisa é inexistir o reconhecimento, outra é ele nunca satisfazer. Não é o caso de ficar alerta? Será que não vivemos a época em que a sociedade estimula e faz projetar autoimagens superestimadas que, naturalmente, exigem apreços à altura, qual já bem o descreveu o filósofo Séneca (4 a.C.-65), à época em que viveu no esplêndido Império Romano?

Por: Armando Correa de Siqueira Neto, psicólogo e mestre em liderança

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