Making of da capa da Líder com assinatura FCB Lisbon

André Nassar, consultor criativo da FCB Lisbon, assina a criatividade das três últimas capas da Líder. Na edição de dezembro com o tema “New Leaders, New Workers, New Life” explica-nos o exercício de construção criativa.


«Quais as características que tornam um líder adequado para este novo mundo que está a surgir? Vou arriscar um palpite baseado na minha experiência, intuição e perceção. Acredito que as novas lideranças, para serem bem-sucedidas, têm de ter necessariamente uma visão clara, capaz de influenciar e transformar os seus colaboradores, para que surja uma comunidade com objetivos comuns e geradora de desenvolvimento. Propósito, inovação, eficiência, harmonia, sustentabilidade e benefícios partilhados não são mais desejos. A era da liderança voltada para o bem-estar apenas da liderança parece-me ter chegado ao fim.

O mundo está aberto, acessível, conectado e as oportunidades de trabalho e opções de aprendizagem são infinitas. Basta olhar para fora da janela. Um líder que acredita que manterá a saúde da sua instituição com ambiente e práticas ultrapassadas vai continuar a diminuir-se até ser substituído ou em último caso, até a sua instituição ser declarada obsoleta, pois inovação, seja qual for a sua forma, é o que mantém empresas e ideias vivas. E não há como negar isso. Veja o caso da Kodak, Blockbuster, Blackberry, MySpace, Yahoo! Só para nomear alguns poucos exemplos. Essas marcas valiosíssimas desapareceram pela falta de visão a longo prazo dos seus líderes, pela comodidade e resistência às mudanças. Só que, com o avanço da tecnologia essa depuração está a ser cada vez mais rápida. Processos de mudança que antes levavam anos, agora acontecem em meses. O que não é necessariamente mau para líderes sensíveis ao momento atual. Um exemplo disso é o que foi noticiado no dia 21 de outubro de 2020. Pela primeira vez na História, um Papa defendeu publicamente a união civil entre homossexuais.


Uma declaração histórica, humana e acima de tudo corajosa. Foi a inspiração que precisava para ilustrar a edição de novembro da revista Líder, que fala sobre novos líderes, novos trabalhadores, nova vida. Como uma forma de expressão dessa atitude histórica, decidimos ter a mesma coragem. Retratar na nossa capa a imagem do maior líder global da atualidade, no balcão do terceiro andar do Palácio Apostólico do Vaticano, mas ao invés da tradicional bandeira púrpura pousada na janela que carrega o mote “MISERANDO ATQVE ELIGENDO” (COM MISERICÓRDIA O ELEGEU), colocámos a bandeira com as cores do arco-íris, que representa o movimento LGBT. Uma feliz coincidência gráfica, já que a comunidade LGBT e os seus simpatizantes usam a bandeira da mesma forma à janela ao redor do mundo como forma de orgulho e aceitação.

O Papa Francisco tem vindo a conduzir a maior reforma da igreja católica nos últimos séculos e tem desempenhado um papel importante também na tentativa de resolução de conflitos entre a sociedade e os países.

Além disso, coloca holofotes nas antigas feridas da igreja católica e em questões que não ganharam a devida atenção da igreja, como o desperdício de alimentos e a fome no mundo, a proteção do meio ambiente e o culto da riqueza nas nossas sociedades.


Imagino que para um líder com um bilião e trezentos mil seguidores não deva ser uma posição confortável. Francisco tem enfrentado críticas cada vez mais abertas, particularmente de conservadores da igreja. Mas Francisco dá-nos uma grande lição. Um líder não tem de ter só visão, mas a coragem de colocá-la em prática. Mesmo que desagrade a uma parcela significativa da sua congregação.

Ao mesmo tempo, arrisco dizer, que o faz ser admirado pela maioria dos seguidores da religião católica, por quem não a segue e até por ateus. Basta que as suas ideias tenham caído em ouvidos com um pouco de bom senso e generosidade. Particularmente, acredito que o exemplo de simplicidade, sensibilidade, compaixão e acolhimento da Igreja de Francisco vai torná-la cada vez mais forte e com uma possibilidade mais real de salvar vidas, aproximando-se do caminho original da própria doutrina».

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