Março de 2020 fica como um marco na minha experiência enquanto gestora de equipas tecnológicas. As minhas tarefas diárias e de gestão de equipas foram, obrigatoriamente, alteradas de um dia para o outro e sem que eu conseguisse antecipar-me às mudanças.
Foi tudo muito rápido: o aumento de casos provocados pela disseminação do novo coronavírus fez com que a empresa onde trabalho (Opensoft) passasse a operar em teletrabalho e, como consequência, no dia seguinte todos estávamos a trabalhar à distância.
Deparei-me em casa, a 100% em regime de teletrabalho e por tempo indeterminado, a ter de executar as tarefas dos projetos onde estava envolvida e a gerir o trabalho das minhas equipas. Tudo isto coordenado com o apoio à família (que também estava em casa em período escolar), preocupada com a possibilidade dos meus familiares e amigos serem afetados pela COVID-19 e com as restrições sugeridas de isolamento social.
Não fui a única, claro. Para grande parte dos líderes de organizações e gestores de projeto, o mês de março de 2020 foi o início de uma experiência em teletrabalho, sendo que 77% nunca tinham gerido uma equipa totalmente em teletrabalho (relatório Liderança em teletrabalho, Terminal, 2020).
Rapidamente percebi que a gestão de equipas à distância, sobretudo neste contexto de pandemia, apresenta alguns desafios que nas condições anteriores não existiam ou seriam facilmente ultrapassados. O primeiro e mais óbvio, é a distância física e os diferentes contextos em que os elementos de uma equipa possam estar inseridos: durante este período houve quem ficasse a viver sozinho, quem mudasse temporariamente de morada e quem tivesse de partilhar o seu espaço de trabalho com outras pessoas em teletrabalho, familiares ou não, e crianças em período escolar. A par disto, todo o medo e a incerteza sentida, foi e ainda é, um caldeirão propício para que todos nós deixemos de estar tão focados no trabalho e/ou nos sentirmos com menos entusiasmo e energia.
A forma como a equipa comunica foi outra grande alteração. O teletrabalho não permite a comunicação cara-a-cara nem a comunicação espontânea. Deixou de haver o espaço físico onde todos estávamos e onde naturalmente falávamos das nossas dificuldades, dúvidas, ou sucessos. A comunicação passou a ser intencional e feita exclusivamente através de canais digitais.
Para além destes desafios, enquanto gestora tive dúvidas se iria conseguir cuidar da minha relação com as minhas pessoas. Presencialmente é possível um contacto espontâneo que não é só verbal, mas também visual. Até então, nunca tinha precisado marcar uma videochamada para poder sentir o estado anímico da equipa.
A exigência da gestão de equipas em teletrabalho fez-me tomar algumas medidas para manter as rotinas da equipa e garantir que os seus métodos de trabalho fossem o mais semelhantes possíveis em relação ao trabalho presencial e não comprometesse os prazos acordados com os clientes.
Na Opensoft usamos ferramentas e repositórios de informação que podem ser acedidas a partir de qualquer local, o que permitiu que todos os elementos conseguissem executar as suas tarefas sem constrangimentos.
Estas ferramentas foram igualmente úteis para desempenhar as tarefas de gestão, especialmente para monitorizar a progressão das tarefas à distância. Além disso, procurei estar mais presente e fornecer feedback ainda mais frequente sobre o seu trabalho.
Uma das alterações mais importantes para a gestão da equipa foi permitir que os elementos adaptassem o horário de forma a estarem mais focados nas tarefas que tinham de desempenhar. Por parte da Opensoft, houve abertura para a realização de um horário mais flexível de acordo com o contexto familiar, por exemplo. Além disso, proporcionei momentos de partilha, nomeadamente acerca do contexto pandémico em que vivemos e nunca desvalorizei a importância do gozo de alguns dias de férias e descanso.
O que aprendi com 2020? Imenso! Ficou para mim ainda mais claro que a melhor abordagem à Gestão de Pessoas é procurar compreender o que os satisfaz, qual a ambição profissional e quais as prioridades da vida de cada um, mas também reconhecer os medos e ansiedades, seja os que a pandemia provoca, sejam outros inerentes a cada um. Ao mesmo tempo, tenho de ser um elemento inclusivo, cuidador, valorizando os pontos fortes de cada elemento e criando um sentimento de confiança de que as dificuldades são ultrapassadas quando trabalhamos em conjunto.

Por Elizabete Santos, Gestora de Projetos na Opensoft
