Philippine Linn: «Liderança pelo amor será o novo paradigma dentro de cinco anos»

A coach certificada em liderança Philippine Linn acredita que os desafios da sustentabilidade são o resultado da relação que temos connosco próprios – ou da falta dela. Sugere que os líderes comecem a funcionar de um lugar de amor e bondade através do saber ouvir os outros, algo fundamental para a co-fundadora da consultora em liderança Diamond Leadership Academy e membro do Leading from Love, um grupo de facilitadores de várias nacionalidades que oferece cursos em liderança pelo amor.

A palestrante do Planetiers, evento de inovação sustentável que decorreu em Lisboa, acaba de lançar um programa de cinco semanas online que ajuda os líderes a refazerem a integridade das suas relações consigo próprios. Através de metodologias e ferramentas específicas, o curso pressupõe uma autorreflexão e trabalho em pares ou em pequenos grupos.

«Desde que fiquem perto da sua essência, a que chamo amor – e que é algo que existe dentro de todas as pessoas – os líderes conseguem ver de que forma podem contribuir para o que está à sua volta», defendeu numa entrevista exclusiva à Líder.

 

Enquanto coach na área da liderança, qual é o principal desafio da sustentabilidade que o mundo enfrenta atualmente?
Os desafios do desenvolvimento sustentável estão interligados, por isso não interessa por onde se começa. Não sei qual é o pior, sei que é preciso começar. O que é importante é o ponto de partida e ter consciência de que os desafios do ambiente, por exemplo, resultam do facto do ser humano ter perdido a ligação a si próprio. O problema parte do indivíduo que não está em contacto com a sua essência.

Perdemos a ligação a nós próprios de várias formas. Os desafios da sustentabilidade são o resultado da relação que temos connosco próprios: temos vindo a funcionar de um lugar de escassez e medo. Quando mudarmos essa mentalidade e os líderes das empresas, pessoas com poder, compreenderem que é a mentalidade que determina tudo o que criam, então poderemos começar a mudar.


O que entende por relação connosco próprios?
Trata-se de um mecanismo que tem origem no medo e na ansiedade de termos falta de algo, seja de comida, dinheiro ou trabalho. Sem a conexão com o seu interior, as pessoas perdem, por exemplo, a noção de que alimentos são melhores para o seu bem-estar. Perdemos a noção daquilo que queremos da vida. Ao restabelecermos a conexão connosco próprios, poderemos restabelecer a relação com os outros, no seio da equipa e da empresa.

Quero que as pessoas comecem a notar o que está dentro de si e à sua volta, que sintam os problemas que acontecem à sua volta -pessoas a morrer de fome ou a sofrer com a pandemia, por exemplo – e tomar consciência de como se sentem sobre esses problemas – que emoções despertam em si? Porque, se não tiver essa consciência, não sente e por isso não age.

Como podemos resolver o problema da falta de relação com a nossa pessoa?
Há 20 anos comecei a minha carreira em coaching, o que implica muito trabalho em torno do indivíduo e em que se pergunta: quais são os maiores sonhos? O que pretende fazer? E como pensa que as suas ações podem vir a ter um impacto positivo?

Enquanto coach vi que os líderes de grandes organizações podem produzir um grande impacto porque se sentem perto dos seus meios e recursos. Descobri também que dentro das pessoas só há bondade. As pessoas nascem boas e querem ter um impacto positivo no mundo. Desde que fiquem perto da sua essência, a que chamo amor – e que é algo que existe dentro de todas as pessoas – os líderes conseguem ver de que forma podem contribuir para o que está à sua volta.

Os grandes líderes, aqueles que produziram impactos importantes na sociedade, como Nelson Mandela, líder do movimento anti-apartheid na África do Sul, por exemplo, estão geralmente muitos próximos da sua essência.

Se olharmos para a vida destas pessoas, que genuinamente querem contribuir, vemos que têm uma serie de rituais para se manterem ligadas a elas próprios, como uma rotina específica ao acordar, meditação, ou alguma forma de estarem ligados à natureza.

Quando o líder se conecta com o seu interior, começa a amar-se a si próprio. Algumas pessoas não gostam delas próprias, têm diálogos internos horríveis, do tipo “és tão estúpido por fazer isso”; ou “nunca fazes as coisas certas.” A ideia é mudar este diálogo interno.

Como?
A pessoa deve começar o dia a tomar consciência daquilo que diz a si própria. Quando acorda, tome consciência e substitua um diálogo interno destrutivo por algo positivo. Se observarmos a mente vemos que o que geralmente produz é um discurso assente naquilo que está em falta, há sempre algo que falta para a nossa mente: “não fiz tudo o que devia”; não estou com os meus filhos o tempo que devia”; ou “não ganho dinheiro suficiente.”

Muitas vezes há uma grande distância entre o ponto onde a pessoa acha que está e o ponto onde quer chegar – e tudo isto gera aquele tipo de diálogo interno. De que precisa, de quanto precisa, pergunte-se. Quanto mais próximos ficarmos de nós e estabelecermos uma linda relação connosco mais facilmente podemos ser bondosos com as outras pessoas, com os colegas de equipa e com o planeta.

Na prática, em que consta o seu trabalho?
Faço sessões de coaching individuais e facilito sessões de team building e desenvolvimento da liderança em que treino os líderes em competência de coaching. Nas sessões em grupo, o que acontece é que as pessoas acabam por inspirarem-se entre si ao explorarem os seus medos. A magia é essa. Eu faço muito pouco na verdade, apenas lanço questões desafiadoras e garanto que todos estão a ouvir ativamente.

A escuta ativa é uma competência importante para os líderes…
As pessoas devem aprender a ouvir atentamente e a falar intencionalmente. É tudo o que é preciso. Coaching é uma competência e um ato de amor. Quem está apaixonado por alguém ou sente amor dentro de si e pela vida vê o mundo com lentes cor de rosa. É esse estado positivo que pretendo para os meus clientes.

É possível levar o amor ao local de trabalho?
O meu espírito de pioneirismo leva-me a dizer que sim. Consigo ver a tendência: daqui a cinco anos as pessoas vão falar de amor no local de trabalho – essa será mais a norma do que a exceção, ao contrário de hoje. Neste momento a confiança é a palavra que está na agenda, um conceito estranho às empresas há alguns anos. Estamos mais próximas de um novo paradigma, que é o amor, e de onde iremos operar no futuro.

Quais as competências de um líder orientado pelo amor?
São as mesmas competências que um coach enquanto profissional deve ter. Estas dão-nos todas as ferramentas de que precisamos para atuar de um lugar de amor a que todos temos acesso. Por exemplo, conseguir parar o pensamento enquanto ouve os outros – só isso pesa 90% em todo o trabalho. Se todos fizéssemos isso teríamos um mundo completamente diferente. É ainda importante ter coragem e não precisar de sentir que está me controlo.

Quais as maiores dificuldades que sente nas suas sessões?
É mais fácil do que pode parecer. Parece que funcionar com base no amor é a forma natural das pessoas serem e verifico que não é preciso muito tempo. Estamos secretamente desejosos de estrar nesse espaço, falar desde o coração, onde não há certo nem errado.

Por exemplo, num dos programas de liderança numa grande empresa, um dos membros do board veio ter comigo para me dizer que tinha 10 minutos para me dizer que não precisava e não tinha interesse na minha ajuda enquanto coach e que preferia convidar-me para ir ao bowling. Eu aceitei e pude ver como começou a descontrair e a abrir-se à medida e eu usava a escuta ativa. Chegou a perder a noção do tempo enquanto conversávamos.

A partir daí mantivemos uma boa relação de coaching e ele passou de líder com um estilo diretivo a um líder preocupado e aberto. Esta história mostra que as pessoas não hesitam logo que haja uma oportunidade para se abrirem, tendo como ponto de partida o amor; a porta começa a abrir-se e elas põem imediatamente o pé para não a deixarem fechar.

Pode partilhar outro caso de transformação?
Quando fizemos um programa de três dias para desenvolver a capacidade de liderança de líderes em África, em Moçambique, uma das participantes que no primeiro dia chegou de motorista com uma grande mala e queria ser tratada como rainha, depressa aprendeu a não julgar os outros e a funcionar com base no amor. No final ficou amiga de todos e até ofereceu trabalho a alguns no seu projeto ambiental.

A pandemia veio de certa forma acelerar esta tendência?
A pandemia obrigou-nos a olhar para dentro e ao mesmo tempo para como podemos, coletivamente, avançar em conjunto. O mundo está pronto para esse novo paradigma.

Hoje, os relacionamentos à distância podem ser uma limitação à liderança pelo amor?
Penso que não. Acredito que a conexão e inter-relação são possíveis online. Toda a minha vida orientei sessões de coaching pelo telefone. Noto que ao telefone a interação funciona tão bem com se estivéssemos presencialmente. Na verdade, o ouvir acontece pela voz. Os olhos retiram muita energia ao cérebro – os materiais visuais das videoconferências, por exemplo, retiram 85% à nossa capacidade cerebral.

E a linguagem não verbal, afinal não é importante?
A nossa perceção da pessoa com quem estamos a interagir faz-se a um nível onde a visão não é necessária. Os sinais não verbais são só um dos elementos. Os olhos ajudam, mas esse é apenas um dos seis sentidos.

Estudos revelam que 90% das pessoas dizem sentir-se mais ligadas a outro ser humano quando não o veem. Quando faço exercícios em sala com duas pessoas, a maioria diz que consegue melhores interações quando estão de costas voltadas uns para os outros. A imagem só distrai do que é importante. Uma voz emocional é suficiente, não precisamos de ver a pessoa a chorar para sabermos que está comovida. A audição diz-nos muitas coisas sobre o outro.

Por Maria João Alexandre

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