Apoio das chefias leva mulheres à gestão de topo. Mas há mais fatores

Uma tese de mestrado em Gestão da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, em que se entrevistaram nove mulheres CEO e inquiriram 229 mulheres em cargos de Gestão em Portugal, veio revelar que as mulheres que chegam a cargos de topo no nosso país têm caminhos de vida e carreira semelhantes. E que fatores como a cultura organizacional, a personalidade das executivas, e o contexto da infância foram críticos para a sua ascensão à gestão de topo.

Segundo 66% das mulheres ouvidas nesta investigação académica, o apoio e valorização que receberam dos seus superiores hierárquicos foi determinante para o seu progresso na carreira, na medida em que lhes deu confiança e promoveu a autoestima.

A investigação sobre mulheres na gestão de topo da aluna Maria João Barbosa começou em 2018, um ano depois de ter acabado Gestão na Universidade do Minho. O projeto partiu da proposta de Maria do Rosário Moreira, professora interessada nos temas das mulheres em cargos de liderança, e contou com o apoio do professor Paulo Sousa, também da Universidade do Porto.

«Tudo se parecia alinhar, e era impossível não abraçar este tema, ainda mais num País em que as mulheres representam metade dos alunos licenciados e da população empregada, mas apenas cincos ocupavam, em 2018, cargos de liderança nas 100 maiores empresas portuguesas», explicou a aluna à Líder.

Maria João Barbosa ouviu mulheres CEO ou C-level de grandes empresas portuguesas de diferentes setores e fez um questionário a mais de duas centenas de mulheres em cargos de Gestão em Portugal para desenvolver um caminho-padrão da carreira destas mulheres e detetar quais teriam sido os fatores críticos para o seu sucesso.

3 Fases no percurso das mulheres

Os resultados revelam que o percurso das mulheres é semelhante e pode ser dividido em três fases: vivências iniciais; início de carreira; e maturação de carreira. O início de vida é marcado por um forte apoio educacional familiar, num contexto socioeconómico favorável, que permitiu desenvolver traços de personalidade fundamentais, como a ambição, resiliência e autoestima.

Estes traços correlacionam-se com o avanço para cargos de topo, e vêm explicar em 28% o estilo de liderança mais transformacional das mulheres, focado em motivar e desenvolver as equipas na obtenção de um objetivo comum.

O apoio educacional é também refletido através da prática de atividades extracurriculares como desporto e línguas. Dois terços das mulheres entrevistadas praticou uma atividade extracurricular na infância e reconhece o seu valor na formação de competências fundamentais para a vida profissional, como a comunicação e a abertura à diversidade.

O foco na carreira é mais uma característica das líderes em Portugal, destacando-se desde cedo no período académico. O trabalho torna-se parte integrante da identificação pessoal destas mulheres levando-as a aproveitar oportunidades de evolução de carreira, como a mobilidade internacional ou entre empresas.

O apoio dos superiores hierárquicos é apontado por 66% das entrevistadas como o principal aliado no progresso da sua carreira profissional, fazendo-as sentir confiantes e valorizadas pelo seu trabalho. Contudo, o grande destaque vai para a cultura organizacional que é o fator com maior impacto no avanço da carreira das mulheres portuguesas.

Fruto do seu percurso até então, as mulheres que chegam a cargos de topo atingem uma fase de estabilidade na carreira onde o seu trabalho é reconhecido, permitindo-lhes focar num novo papel social: a maternidade. Todas as executivas entrevistadas e 77,7% das mulheres questionadas são mães.

Esta fase é marcada por uma maior necessidade de balanço entre a vida pessoal e profissional, que é atingida com o apoio da família direta (cônjuge e filhos); alguns ajustes profissionais, como maior flexibilidade horária; e com a definição de prioridades, como a rejeição do papel de “dona de casa”, contratando ajuda doméstica.

Formas de levar mais mulheres ao poder

O que fazer para que existam mais mulheres em cargos de chefia? Para começar, é fundamental que os pais fomentem uma educação não discriminatória e sejam uma fonte de apoio nas decisões académicas e profissionais das suas filhas.

Depois, as mulheres que ambicionem cargos de topo devem focar-se na sua carreira, estabelecendo prioridades na forma como gerem a vida pessoal e profissional. Será também importante desenvolver, desde cedo, características como a ambição, resiliência e a autoestima.

Da parte das empresas, é necessário que potenciem uma cultura transparente e de apoio às mulheres, de modo a capitalizar a diversidade e o estilo de liderança que estas têm para oferecer.

Por fim, conclui a tese, cabe às escolas e universidades promoverem a conjugação de um currículo académico teórico com a prática de atividades extracurriculares, e criar gabinetes de apoio à carreira onde os estudantes possam, desde cedo, discutir o seu percurso profissional.

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