Tem de haver uma intervenção do Estado prática e pragmática, através de reformas nesta situação de exceção que vivemos, “mas não recomendo soluções dogmáticas”, sublinhou Paulo Portas, ex-vice-primeiro ministro de 2013 a 2015, durante a quarta edição da Leadership Summit Portugal que decorre hoje no Estoril, em Cascais.

Até onde é que a intervenção do Estado pode ir no setor privado? A intervenção do Estado nas empresas põe em perigo a economia de mercado? As questões foram colocadas aos participantes de uma mesa redonda em pleno palco do Casino Estoril pela jornalista Rosália Amorim.
Para o ex-dirigente do CDS-PP, partido que liderou de 1998 a 2016, a questão é: a intervenção publica deve ser institucional e permanecer na esfera privada? Na sua opinião, a entrada do Estado na economia nesta fase de crise deve ser transitória, de modo a “proteger”, mas sem se substituir ao empresário e gestor.
“Esta crise é global, mas não é simétrica”, disse o atual consultor e professor que saiu da vida política em 2016. A Europa foi menos caótica na resposta à crise do que os EUA, mas a América de Trump mostrou “flexibilidade económica” ao já ter conseguido reduzir o desemprego de 13.4% para 7.9%, e apenas em cinco meses, exemplifica o também curador da Fundação Champalimaud. “Ninguém come ideologia” – lançou, perante uma plateia de líderes e empresários.
Sobre o plano comunitário de recuperação económica pós crise pandémica, Paulo Portas alerta que temos apenas dois anos, até dezembro de 2022, para apresentar uma proposta. “Não compliquem”, é a sua sugestão em tom paternalista; “apresentem propostas que tenham menos hipóteses de baterem na trave, de serem rejeitadas, quando chegarem à União Europeia.”
Note-se que uma das exigências do plano de recuperação é ter de ser concretizado até 2026, alerta Miguel Pinto Luz, vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais, que, neste contexto de crise, identifica algum “oportunismo ideológico” e “passos irreversíveis” o que, na sua opinião, podem fechar ainda mais a economia de mercado.
Defende que o Estado tem perdido poder perante a União Europeia e que a tendência é de descentralização para as autarquias- estas “têm liderado este processo.” Muito do sucesso da resposta a esta crise, tanto a nível social, de saúde pública como económico, deve-se ao trabalho dos autarcas, destaca o autarca. Em grande parte, devido à capacidade de decisão rápida das autarquias em oposição à demora da decisão a nível do governo central.
Este “otimista militante”, como o próprio se descreve, defendeu ainda a necessidade de velocidade e de gerar impacto através das políticas que são implementadas.
Mais ou menos Estado, quando entra e quando deve sair do privado
Temos Estado a mais ou a menos na economia? Para António Saraiva, presidente da Confederação Empresarial de Portugal, há Estado a mais quando a burocracia nos prejudica- “a reforma da Administração Publica ainda está para ver a luz do dia”- e Estado a menos na situação concreta da pandemia que vivemos e que está prejudicar as empresas que estão com enormes prejuízos, falta de receitas e de encomendas.
Em tempos de crise, e para responder à questão do debate, a intervenção do estado é necessária. Mas igualmente importante é definir em que condições entra no setor privado e em que condições deve sair.
O Estado chegou muito tarde no apoio aos privados e com ajudas insuficientes, mal dimensionadas para aquilo que a situação de crise exigia- começou com um pacote de 100 mil euros que não se revelou suficiente naturalmente para ir progressivamente aumentando ao ponto de hoje já ter chegado aos 13 mil milhões de euros.
Na opinião de António Saraiva isto demonstra a falta de capacidade que o Estado tem tido para antecipar e estar ao lado dos empresários nas suas necessidades reais.
Outro exemplo que o líder da associação patronal deixou foi o número de vezes que foi revisto o lay-off, sistema com que o setor público pretende apoiar os empresários na preservação dos postos de trabalho e do emprego. “O lay-off teve quatro revisões antes de chegar ao terreno”, diz não escondendo a deceção perante a incompetência do Estado. “A ajuda do Estado é útil, mas tem de se saber quando chega, de que forma e quando é hora de sair do setor privado.”
COVID-19: “A maior crise das nossas vidas”
Augusto Mateus, economista, professor e presidente da Augusto Mateus & Associados começou por dizer que sabemos pouco sobre esta crise económica, que, como depois viria a descrever, “é a maior crise das nossas vidas.” Mas sabemos que temos de reduzir o sofrimento das pessoas e preparar a recuperação, para o período após a pandemia.
“Vivemos um choque sistémico global pela primeira vez.” Nesta crise, as empresas não podem gerar riqueza, por um lado, e temos uma crise da procura, por outro lado.
Por isso, temos de ter, “algo que é raro”: uma boa política económica que dê os incentivos corretos e uma boa estratégia empresarial, apostando nos agentes privados, ou seja, nos empreendedores. Mas o Estado não se pode substituir à iniciativa privada dos empreendedores, alerta o professor.
O Estado tem de ter um papel dinâmico e não burocrático, de modo a conseguir transformar a sociedade através da inovação e do empreendedorismo, defendeu, acrescentando que turismo, indústria automóvel e moda são três dos setores mais afetados por esta crise.
Depois do sucesso das edições anteriores, que esgotaram o Salão Preto e Prata do Casino Estoril, a Leadership Summit Portugal voltou este ano ao mesmo local para debater a liderança do futuro, num mundo pós-pandémico.
A 4.ª edição da Leadership Summit Portugal está a decorrer presencialmente no Casino Estoril para uma plateia reduzida. O evento está a ser transmitido em direto no canal de TV Líder – Streaming to Inspire, na posição 165 do MEO, podendo ser acedido mais tarde; e na plataforma digital do evento com acesso através do site Líder.
Trata-se de uma iniciativa da Tema Central, do Lisbon Hub dos Global Shapers do Fórum Económico Mundial e da Câmara Municipal de Cascais, com a parceria institucional da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, International Club of Portugal, APG – Associação Portuguesa de Gestão de Pessoas, e da APESPE RH – Associação Portuguesa das Empresas do Sector Privado de Emprego e de Recursos Humanos.
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