Mário Ceitil: “Precisamos de soft skills para tomar decisões complexas”

A nossa realidade é ambígua e muda constantemente. Para tomarmos uma decisão cujas variáveis são complexas, precisamos de competências também complexas. Hoje, num contexto em que os líderes têm de se ajustar e adaptar o tempo todo, são as soft skills, as competências comportamentais, que fazem a diferença; e estas são ainda mais importantes do que as hard skills, as competências técnicas.


As ideias são de Mário Ceitil, presidente da Associação Portuguesa de Gestão das Pessoas e foram partilhadas durante um debate com José Carlos Lourenço, CEO do Grupo Zap, operador de televisão por satélite em Angola com uma dependência em Moçambique e operações em Portugal.

A conversa, moderada por Hermínia Samuel, directora-geral da Quality Contact Centers, teve lugar no segundo dia da Cimeira Lusófona de Liderança, que começou esta semana através da plataforma Zoom.

Mas, afinal de que estamos a falar? A inteligência emocional é um exemplo de soft skills que não pode faltar na resolução de problemas e tomada de decisão nas empresas. Este tipo de competências são ainda os pilares das hard skills porque alimentavam o hardware, para usar a analogia de Mário Ceitil com as competências técnicas. “Para funcionarem, as competências técnicas deverão ter o suporte das comportamentais que lhes são complementares”, sublinha Ceitil, que também coordena o executive master em Gestão Estratégica de Pessoas e Liderança na escola de formação de executivos do ISCTE, em Lisboa. “São as soft skills que ajudam os líderes a saberem adaptar-se ao contexto.”

José Carlos Lourenço destacou a importância das competências comportamentais, life skills ou metacompetências, que define como “a bagagem que a pessoa vai transportando ao longo da vida e que, mesmo sem consciência, vem ao de cima em determinados momentos.” Na sua opinião, “da mesma maneira que as pessoas mudam as organizações, as organizações também têm a capacidade de influenciar a tal bagagem que as pessoas carregam ao longo da vida.”

Ao longo de 26 anos de carreira – passou pela Arthur Andersen, Tibbett & Britten, Vasp, Impresa e Global Media-, que pôde confirmar a importância de competências como flexibilidade, capacidade de adaptação, inovação, bem como estar embebido na cultura do cliente para responder às suas necessidades. “Não há bem nem mal. Há um conjunto de circunstâncias e de objetivos face ao qual as competências se devem adaptar.”

Humildade versus carisma


Há uma frase chavão que sai frequentemente da boca dos líderes de pessoas e que muitas vezes não passa de palavras: “a grande esperança das organizações está nas pessoas”. Mário Ceitil recusa que seja um chavão- “é mesmo assim”, enfatiza. Para isso, “necessitamos de líderes que sejam autênticos e profundamente humanos, não que tenham apenas uma orientação humanizante, mas verdadeiros líderes que evoquem o melhor das pessoas.”

O líder associativo e especialista em formação de pessoas escreveu num artigo recente: “o que as empresas e estruturas de formação de executivos deverão privilegiar é criar dispositivos de aprendizagem que permitam desenvolver um novo tipo de gestores que não se limitem a agir pontualmente como líderes; gestores que sejam líderes de corpo inteiro e a tempo inteiro e que, mais do que quererem ser eles próprios as “best people”, se centrem nessa missão muito mais nobre e extremamente necessária que é fazer suscitar o “best in people” nas pessoas e equipas que lideram.”

A Cimeira Lusófona de Liderança, que decorreu ao longo de três dias, 16, 17 e 18 de setembro, reuniu virtualmente mais de 20 líderes organizacionais e da sociedade civil para abordar aspetos importantes da liderança nos seus países e no espaço lusófono. O evento contou com a parceria da Associação Portuguesa de Gestão de Pessoas e da Associação Brasileira de Recursos Humanos.

Texto Maria João Alexandre

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