O século XIX foi marcado pelas primeiras pandemias, originadas pelo aumento das viagens e do comércio a nível mundial.
Quando a cólera chegou à Europa nos anos trinta do século XIX, vinda da Índia e passando pela Rússia, encontrou populações debilitadas por doenças endémicas que afetavam todas as fases da curta vida que as esperava. Com uma alimentação deficiente e total falta de higiene privada e pública, era difícil sobreviver às doenças infantis e ainda ultrapassar as sempre presentes tuberculose, sífilis, varíola, raiva, entre outras, e as recorrentes febre amarela e peste negra, que dizimou os europeus desde o século XIV.
Diretamente relacionadas com a sujidade das águas, a febre tifoide e a malária enfraqueciam e matavam povoações inteiras. Beber água era um perigo ou consumir alimentos frescos mal lavados. E todos eram afetados, como foi o caso do Rei D. Pedro V e dos seus irmãos, que faleceram em 1861 após uma caçada em Vila Viçosa, durante a qual consumiram água de um poço. A autópsia realizada pelos mais conceituados médicos da época, sob a direção do Dr. Bernardino António Gomes, foi conclusiva: febre tifoide, o que afastou a suspeita de homicídio. E a malária, transmitida por mosquitos que se reproduziam em águas paradas, provocava as sezões ou febres altas, que acabavam por matar as suas vítimas.
A importação de escravos africanos no século XVI para trabalharem nos arrozais do Sado justificou-se pela maior resistência que estas populações apresentavam à doença, por serem portadores do gene da anemia falciforme.
Porém a cólera foi uma novidade que gerou o pânico e alterou por completo a forma como os Estados encaravam a saúde pública. Logo em 1832 faleceram 6500 pessoas em Londres e 20 000 em Paris.
Rapidamente se disseminou para o continente americano. Em 1833, quando chegou ao Porto, a bordo do vapor com soldados belgas vindos para ajudar os Liberais na Guerra Civil, acabou por causar mais de 40 000 mortos, um número mais elevado do que o da própria guerra.
Desde os trabalhos de Robert Koch, que identificou a bactéria Vibrio cholerae em 1883, sabemos que a sua transmissão se faz pela ingestão de águas ou alimentos contaminados. Os primeiros sintomas são fortes diarreias, seguidas de desidratação, febres altas, vómitos, dores abdominais, queda de temperatura corporal e morte.
Perante este cenário, naquelas primeiras vagas e com conhecimentos muito limitados sobre o seu contágio e tratamento, a epidemia espalhou o terror. A partir de 1851 as potências europeias começaram a organizar conferências sanitárias internacionais, onde os maiores especialistas da época discutiram os aspetos científicos da doença e estabeleceram medidas profiláticas que incluíam o estabelecimento de cordões sanitários e isolamento de cidades inteiras, quarentenas, interrupção do comércio internacional e declarações obrigatórias dos estados de salubridade de cada região. Se havia discordância entre os países do sul e do norte sobre alguns destes temas, um deles reuniu consenso desde o início: a cólera estava associada a falta de higiene, a maus cheiros (os chamados miasmas) e a comportamentos desviantes. A partir de então a higiene passou a fazer parte das preocupações das autoridades de saúde e dos governos. Foi um conhecimento adquirido, especialmente a partir da experiência do médico John Snow, que em 1854 isolou o chafariz de Broad Street em Londres e estabeleceu a relação direta entre a água contaminada e as mortes por cólera.
Apesar desta experiência ter demorado décadas e ser divulgada, a consciência da responsabilidade dos Estados no tratamento das águas e nas obras de saneamento foi um resultado direto da epidemia de cólera. Infelizmente as ações concretas tardaram em ser postas em prática. Ao longo do século XX o Estado Novo realizou obras de vulto nesse sentido, mas ainda em 1974 houve casos de cólera no Algarve e em Lisboa.
Também relacionada com a falta de higiene, especialmente no que diz respeito a parasitas do corpo, neste caso as pulgas dos ratos, chegou de novo a peste negra ou peste bubónica ao Porto em 1899. Os primeiros casos foram identificados por Ricardo Jorge, na altura médico municipal e diretor do posto de desinfeção pública do Porto, além de professor de Higiene e de Medicina Legal da Escola Médico-Cirúrgica, em estivadores que tinham descarregado navios oriundos de várias procedências, incluindo a Índia e a China. Chamado em visita sanitária à Rua da Fonte Taurina, Ricardo Jorge mandou desinfetar os prédios e deu instruções à direção clínica do Hospital Geral de Santo António para isolar os enfermos no mesmo hospital. Mas a doença já se tinha espalhado aos prédios vizinhos. O seu diagnóstico foi confirmado em reunião da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Porto e deu origem a uma vaga de turismo científico que levou à cidade os mais conceituados médicos estrangeiros da época nas áreas da bacteriologia e higiene, representantes de quase todos os países da Europa e também dos Estados Unidos da América.
Como delegados dos respetivos governos ou de instituições científicas, estes observadores internacionais participaram nos trabalhos de diagnóstico e nos tratamentos. As visitas de estudo que estes médicos realizaram serviram também para o reconhecimento internacional de algumas instituições científicas portuguesas, as quais eles descreveram como bem organizadas e dirigidas, inovadoras e notáveis.
Para uma opinião pública que não acreditava na epidemia, os médicos estrangeiros também tiveram a função de validar o diagnóstico e as medidas higiénicas colocadas em prática. Mais uma vez, e tal como nas epidemias de cólera, o Porto foi isolado por um cordão sanitário cercado por guarnições militares.
Imediatamente a cidade foi dividida em oito zonas de saúde; destinou-se um hospital apenas para os doentes de peste e os clínicos foram obrigados a participar os casos; foi reduzido o número de comboios entre Lisboa e o Porto e estabeleceu-se a obrigatoriedade de inspeção médica dos passageiros por via terrestre ou marítima; foi proibido o trânsito de mercadorias sem que fossem previamente desinfetadas e as visitas sanitárias por parte dos delegados de saúde acompanhados pela polícia foram intensificadas, o que implicou, em muitos casos, a remoção de famílias inteiras das suas residências e a incineração de todos os seus pertences e por vezes das próprias casas. Foram proibidos os comboios de recreio, as romarias, feiras e outros ajuntamentos e foram distribuídos desinfetantes. À chegada ao destino, todos os passageiros dos caminhos de ferro e os empregados dos comboios tinham de cumprir uma quarentena de nove dias.
A imprensa cumpriu a sua missão de divulgar as informações sobre a doença e difundir os conselhos à população. Num artigo do Diário de Notícias em 1899 podemos ler: “Este bubão é uma violenta inflamação dos gânglios linfáticos, que pode terminar pela supuração ou pela gangrena. (…) uma quarentena será eficaz quando, depois de uma duração de oito dias, os viajantes e as suas roupas de toda a espécie tenham sido sujeitas a uma séria desinfeção.
Com boa alimentação e muita limpeza não há receio da peste; o que entre nós se devia evitar era o apertar a mão a toda a gente, e os fumistas absterem-se de pedir lume uns aos outros, devendo todos nós lavar as mãos amiudadas vezes com desinfetantes enérgicos”. Aconselhavam, assim, “o máximo asseio geral do corpo, vestuário e habitação; evitar comunicação íntima ou demorada com pessoas ou coisas, sobretudo roupas não desinfetadas; lavar amiudadas vezes as mãos e também a cara e sempre antes das comidas, evitando levar as mãos à cara e sobretudo à boca. Obtém-se uma boa lavagem com água, sabão e escova para as unhas, podendo completar-se pelo álcool ou aguardente forte. Arejamento rigoroso das casas para melhoria da sua atmosfera. Todos os pavimentos, mormente térreos, que estiverem em mau estado, e bem assim canalizações rotas, podendo dar lugar a passagem de ratos, devem ser desde já consertados ou renovados, podendo os inquilinos dirigir-se às autoridades administrativas para obrigar os proprietários às necessárias obras”.
Por Maria Antónia Pires de Almeida, PhD, investigadora do CIES, ISCTE-IUL.
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