Depois da paragem abrupta dos últimos meses, o mundo está agora em rápida aceleração para retomar o nível de atividade antes do confinamento. O reconhecido professor de Economia na London School of Economics, e um dos mais conceituados economistas mundiais da atualidade, Ricardo Reis, discorre uma série de cenários e põe-nos a pensar. A pensar da perspetiva da liderança e da perspetiva da Economia, que é só uma: a saúde.
Ricardo Reis tem escrito recentemente na imprensa portuguesa sobre os efeitos económicos da pandemia. O que o tem surpreendido mais é a ligação clara entre os desafios atuais e os desafios que Portugal enfrentou ainda há dez anos, na véspera de chamar o FMI.
São tantos os pontos em comum, que entendeu que a única forma de os realçar seria através do seu mais recente livro Do FMI à Pandemia: Portugal entre Duas Crises, que reúne artigos destas diferentes alturas.
Algumas perguntas como: Por que é que os bancos são empresas tão especiais, e porque é que os Estados estão tão envolvidos na resolução dos seus problemas? O que determina as taxas de juro da dívida pública, os spreads e os ratings, numa altura em que estamos a pedir emprestados milhares de milhões a um ritmo alucinante?
Se vamos ter de cortar na despesa pública, como deve ser estruturada essa austeridade? Podemos olhar para outros países para perceber os custos e benefícios de outras opções de política económica? São os eurobonds, agora, ou em qualquer outra altura, uma boa ideia ou antes uma fantasia que corrói por dentro o espírito europeu e bloqueia qualquer verdadeira solução? O livro deslinda os pontos comuns entre as crises que dão respostas mais sólidas a estas perguntas.
Numa conversa, via remota como os tempos o exigem, tece críticas a algum (des)governo em Portugal. Explica como podemos encontrar o equilíbrio certo entre acelerar o processo de tentativa e erro na transição, sem esquecer que seguido de qualquer recessão vem uma recuperação mais lenta.
Como reerguer a confiança, a economia e uma nova ordem mundial num mundo pós-apocalítico?
Há uma enorme incerteza acerca do que serão as condições de saúde no futuro. Talvez daqui a seis meses exista uma vacina contra o vírus; talvez nunca surja a vacina mas o mundo seja capaz de controlar o contágio e a morbilidade com boas máscaras, melhores ventiladores ou outras soluções que permitam uma vida normal, ou talvez antes este vírus e as suas mutações fiquem connosco durante muito tempo e o mundo seja “pós-apocalítico” (nas suas palavras) com severas limitações à forma como interagimos em grupo.
Da perspetiva da liderança, neste momento, mais importante do que adivinhar se vem aí uma nova ordem mundial (nas suas palavras) ou antes um regresso ao habitual, é lidar com esta grande incerteza.
A confiança, quando a incerteza é elevada, vem com transparência e responsabilidade por parte dos líderes. A transparência reduz a incerteza com informação. A responsabilidade permite confiar que o melhor possível será feito com os novos desafios.
No meu livro, passo várias páginas em dois tópicos que foram importantes na última década em Portugal. Primeiro, o comportamento errático do Tribunal Constitucional durante o governo de Passos Coelho. Segundo, as oscilações da política europeia no que diz respeito aos eurobonds. Ambas são bons
exemplos do que não inspira confiança, e das consequências negativas que isso traz.
Que prioridades deve assumir, este necessário renascer, na perspetiva da Economia?
O milagre do crescimento económico dos últimos dois séculos deveu-se em grande parte à especialização e à inovação, que precisam do comércio entre pessoas e regiões para existirem. As grandes prioridades para o renascer, seja ele na forma que tomar (incluindo voltar ao anterior), seriam reabrir as fronteiras e permitir que as pessoas possam voltar a trabalhar e interagir umas com as outras
da forma mais livre possível. Ambas dependem acima de tudo de políticas públicas e de saúde que tornem a vida em sociedade segura. Por isso, da perspetiva da Economia, a prioridade é a saúde.
Como vamos poder voltar a olhar para o Homem enquanto projeto de desenvolvimento civilizacional?
Com a riqueza e o bem-estar veio uma maior procura por saúde, e maior aversão ao risco da morte. As pessoas não querem ter mais frigoríficos ou mais carros, mas querem hoje ter cuidados médicos que afastem a dor, a doença, e a morte, e estão dispostas a usar uma fatia cada vez maior da sua prosperidade material para alcançá-los. A nossa reação extrema a este vírus, em que estivemos dispostos a sacrificar muito bem-estar para poder controlá-lo, confirmou essa tendência. O homem como projeto civilizacional hoje está centrado na sua saúde e na sua segurança. Se isto está certo ou não, se é moral ou responsável, são perguntas filosóficas muito importantes.
Como retomar a velocidade num mundo em abrandamento?
Depois da paragem abrupta dos últimos meses, o mundo está agora em rápida aceleração para retomar o nível de atividade antes do confinamento. No meu livro faço uma distinção que penso ser muito importante, entre o ressalto na atividade que vamos ter nos próximos meses, e depois a recuperação mais lenta que vem seguido de qualquer recessão, e que pode ser particularmente custosa porque o choque foi tão grande desta vez. No ressalto, a aceleração será muito heterogénea: diferentes setores, atividades ou empresas, conseguirão recomeçar mais depressa do que outras. O grande desafio é inspirar confiança nas pessoas para que elas se sintam seguras em voltar a interagir com outros. Os líderes que forem capazes de inspirar essa confiança vão ser capazes de sair na frente.
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