Resiliência: Chave para a superação na adversidade

O conceito de resiliência não é consensual, mas será inequívoco aceitar que a adversidade tenha um papel central e indispensável no seu estudo. Partilhamos duas visões: do ponto de vista das pessoas e organizacional.

The ultimate measure of a man is not where he stands in moments of comfort and convenience, but where he stands at times of challenge and controversy”. Martin Luther King, Jr., Strength to Love (1963)

Resiliência — do ponto de vista das pessoas

Pode definir-se resiliência, de forma resumida, como a capacidade de o indivíduo fazer face às adversidades, transformando-se e superando-as (adaptação positiva).

A psicologia teve de abordar o estudo da resiliência (também) partindo da premissa diametralmente oposta à anterior; além do foco exclusivo na doença, passou a ter de se centrar na dimensão do indivíduo e das suas capacidades e competências positivas de adaptação às adversidades — individualmente ou em grupo —, no sentido de as ultrapassar.

Poder-se-à também entender a resiliência de duas perspetivas distintas: enquanto “resultado”, ou seja, resposta adaptativa à adversidade; ou enquanto “recurso”, portanto, fator de proteção relativamente ao stresse, pela ativação de respostas adaptativas.

A resiliência terá de ser entendida também enquanto conjunto de fatores protetores que potenciam desfechos favoráveis, apesar dos riscos de depressão. Além das suas competências individuais, existe todo um contexto sociofamiliar de apoio que o indivíduo tem ao seu dispor. Numa perspetiva mais preditiva, poderá entender-se a resiliência como consubstanciação de um conjunto relativamente estável de traços de personalidade e competências, que permitem ao indivíduo superar as contrariedades e lidar positivamente com situações stressantes, de acordo com as expectativas sociais que nele recaem.

Os autores que têm estudado estas matérias (neste contexto, opto por não os citar para tornar a leitura mais desimpedida) atribuem diversas competências e capacidades aos indivíduos ditos resilientes, nomeadamente: sentido de humor e de perspetiva, criatividade, otimismo, coragem, fé (não necessariamente religiosa), proatividade, autoconfiança, adaptabilidade, autorregulação, elevada autoestima, sentido de responsabilidade, gosto pela mudança, QI superior, forte inteligência emocional, grande consciência da envolvente e da sua autoeficácia, entre outras.

Este é, porém, um constructo pluridimensional: além dos fatores individuais, há ainda a família, a comunidade, a escola, a sociedade, etc., que desempenham um papel nesse equilíbrio (muitas vezes ténue) entre os fatores de risco e os fatores de proteção. A resiliência pode ser entendida enquanto traço, mas também enquanto processo dinâmico e evolutivo de superação e de adaptação. Também será resistência ao stresse, mas essencialmente recuperação. Poderá ser inato, até certa medida, mas, independentemente da carga genética que cada indivíduo traga consigo, é a experiência de confronto e superação das adversidades que o torna mais robusto e capaz de recuperar dos abalos sofridos — superando adversidades futuras, tornando-se mais resistente, evoluindo com a experiência.

Engane-se quem pensa que o indivíduo dito resiliente é imune à adversidade; será atingido por ocorrências adversas, que o afetarão de forma mais ou menos violenta, deixando, muitas vezes, sequelas. No entanto, esse indivíduo revelar-se-à mais apto e flexível para lidar com tais ocorrências, mostrando-se saudável no decurso da sua trajetória de vida. Poder-se-à, portanto, concluir que será menos afetado pelos traumas, recuperará melhor e mais rapidamente e, também, será mais capaz de se adaptar positivamente, mesmo em contingências desestruturantes.

Resiliência organizacional

Não são raros na história os exemplos de grandes líderes (casos de Nelson Mandela, Winston Churchill e Abraham Lincoln) que se destacaram pelas suas caraterísticas resilientes, de quem continuou o seu trajeto apesar das tremendas adversidades e das parcas probabilidades de êxito — acabando por triunfar contra todas as expectativas. Estes líderes deixaram um legado, um exemplo a seguir na gestão e liderança de pessoas.

Vive-se hoje um contexto organizacional cada vez mais competitivo, que muda a uma velocidade vertiginosa, pouco claro no que diz respeito aos valores e aos padrões de comportamento ético. Para os que respondem através de situações de coping passivo e/ou de adaptação reativa, este novo paradigma será hostil e stressante, até disfuncional; não apenas para o indivíduo, mas também para a sua organização.

As organizações modernas procuram profissionais de alto desempenho, que prosperem na ambiguidade e no caos, que aprendam proativamente e que vejam a adversidade como motor para o desenvolvimento e para o sucesso, muitas vezes por via do improviso. Por este prisma, será razoável afirmar que a adversidade ajuda também a dar significado à vida e a estabelecer objetivos e prioridades. Os indivíduos e as organizações resilientes revelam uma inequívoca aceitação dos factos, têm a forte convicção de que a vida tem um propósito e demonstram uma capacidade natural para o improviso.

Só recentemente começaram a surgir, na literatura de gestão, estudos sobre resiliência organizacional, particularmente enquanto capacidade de comportamento organizacional positivo, preditora de resultados, podendo ser pensada, desenvolvida e gerida em contexto organizacional.

Num mundo VUCA (volatile, volátil; uncertain, incerto; complex, complexo; ambiguous, ambíguo) cada vez mais rápido e imprevisível, cada vez mais global — onde somos confrontados com novos mercados e novos consumidores — as organizações têm, inevitavelmente, de se adaptar. As decisões baseadas em big data têm de ser tomadas cada vez mais cedo, mas, ainda assim, com informação insuficiente (o que poderá ser altamente stressante). Estas organizações terão de possuir estruturas horizontalizadas — para serem rápidas, flexíveis e capazes de redirecionarem ou mesmo inverterem a grande velocidade os seus processos.

Estas organizações resilientes são compostas por profissionais também resilientes, capazes de lidar positivamente com estes fatores stressantes, que gostam do desafio e de tomar decisões arriscadas a cada dia — sem sucumbir à pressão e à adversidade. Em tempos idos, a aversão ao risco, a prudência e o planeamento a longo prazo eram a garantia de sucesso no mundo organizacional; atualmente passou a ser: 1) a rapidez na tomada de decisão, 2) a flexibilidade para responder em qualquer direção, 3) a ousadia e a coragem para, de improviso, se lançar verticalmente no desconhecido.

A resiliência é, portanto, de extrema importância e necessária em contexto organizacional, na medida em que interfere diretamente com o desempenho e corresponde a um fator crítico para o sucesso das organizações — em particular numa conjuntura hostil e num clima de absoluta incerteza.


Por
Pedro Branco, business director da HeaderTM | Top Executive Hunters

 

 

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