Previsões no mercado global de eventos

Mesmo em tempos normais, prever o futuro pode ser algo muito complicado. Mas nestes tempos sem precedentes, e sem fim para esta crise à vista, qualquer previsão deve ser, na melhor das hipóteses, um palpite educado.

O que se segue são as minhas próprias previsões provisórias de alguns dos impactos mais prováveis do Coronavirus no mercado global de eventos, com base nos meus próprios julgamentos combinados com um elemento de pura especulação sobre o futuro da nossa indústria.

No meu papel de cronista de tendências no mercado de eventos de negócios, estou habituado  a relatar mudanças na procura global por reuniões, conferências e viagens de incentivo. Mas, é claro, o que é único sobre a situação atual é que estamos a enfrentar a evaporação quase completa da procura por eventos corporativos face-to-face em todo o mundo – não apenas por uma questão de semanas, como no caso de algumas crises anteriores, mas por um período indeterminado que se irá estender por, pelo menos, muitos meses. A duração desta crise irá ser determinada pela rapidez dos nossos cientistas a encontrar uma solução que colocará um fim ao terrível ataque deste vírus.

Até que esse momento chegue, viajar e eventos face-to-face serão percebidos como situações de alto risco, consequentemente a maioria dos nossos aviões continuará em terra e a maioria dos nossos hotéis e venues permanecerão vazios – a menos que tenham sido requisitados na batalha contra este vírus. Até lá, nenhuma empresa ou associação pensará em levar os seus funcionários em grandes números ou incentivá-los a viajar para fins relacionados com o trabalho.

Em vez disso, veremos um número crescente de organizações, desde PME até parlamentos nacionais e agências internacionais, adotar o uso de reuniões virtuais, começar a utilizar tecnologias de audiovisuais e comunicação por computador. Muitas destas organizações usarão essa tecnologia pela primeira vez e, parece-me ser razoável prever que, depois da crise, haverá um grau limitado de substituição permanente de reuniões virtuais para certas categorias de eventos face-to-face, visto as companhias apreciarem a poupança em tempo e dinheiro, assim como os benefícios ambientais de evitar algumas viagens. Pequenas reuniões até 20 participantes, onde a maioria dos participantes já se conhecem, serão particularmente vulneráveis a ser permanentemente substituídas por videoconferência.

Numa nota mais positiva para o mercado de reuniões corporativas, podemos prever com alguma confiança que quando as rodas da economia global lentamente voltarem a girar, num mundo pós-Covid, a força de trabalho das empresas terá de ser reconstruída e revigorada depois de muitos meses de trabalho virtual e, consequentemente, criar um crescimento na procura no segmento de eventos de negócios. O recrutamento de novos colaboradores, os seus programas de treino, assim como eventos de team building, criarão uma fonte inicial de negócio para recintos (venues) e organizadores de eventos.

Mas é claro que estes primeiros passos provisórios para um regresso à prática do uso de eventos para comunicação corporativa, motivação e celebração irão acontecer primeiro a nível local, em locais próximos às instalações das empresas, com poucas – se algumas – viagens. Teremos que esperar mais, talvez muito mais tempo, antes de vermos um regresso a níveis significativos de viagens nacionais e internacionais com o propósito de participar em conferências e outros eventos, e isto irá depender de quão convicentemente os destinos erradicaram a ameaça de infeção viral para as suas próprias populações, bem como para os visitantes. Os países que emergirem primeiro da crise devido à oferta aos seus cidadãos de programas de prevenção mais eficazes durante a pandemia, podem eventualmente ter uma vantagem competitiva como destinos MICE.

Mas, na minha opinião, a nossa indústria irá regressar a algo aproximado com a realidade quando o medo de uma segunda vaga do vírus for eliminado ou uma vacina universal for encontrada. Pois, até que as viagens internacionais sejam novamente percebidas como uma experiência totalmente segura, que empresa sequer contemplaria oferecer aos seus colaboradores um prémio de incentivo de uma viagem a um destino exótico ou incentivar os seus funcionários a embarcar em aviões ou comboios para viagens relacionadas com o trabalho?

Mesmo que separemos a questão da segurança, parece cada vez mais provável que a nossa indústria terá que passar por algumas transformações extremamente fundamentais, como resultado da crise atual. Certamente que, temos demonstrado que somos um setor versátil e ágil da economia, adaptando-se bem às tendências de mercado, incluindo mudanças tecnológicas e demográficas e crises económicas. Mas essas mudanças foram incrementais ou de pouca duração. A gravidade e a extensão das atuais turbulências na economia global tornam tudo menos impossível prever a que tipo de mundo a indústria de eventos empresariais terá que se adaptar, no futuro. Por exemplo, um cenário possível é que possa haver um aumento no interesse pela cooperação internacional e investimentos significativos em agências transnacionais, o que alimentaria a procura futura por conferências internacionais de todos os tipos. Por outro lado, os países poderiam ter uma visão mais para o interior e auto-isoladora, o que reduziria a procura por reuniões internacionais – assim como os pedidos ou exigências de qualquer governo para que as reuniões sejam realizadas internamente como forma de reiniciar a economia nacional. Mas, deixando de lado o futuro incerto da geopolítica, o que parece extremamente provável é que a confiança dos negócios e do consumidor, já a mais baixa de todos os tempos, irá precisar de recuperar significativamente antes que as empresas se sintam prontas para investir amplamente em eventos corporativos e os indivíduos se sintam prontos novamente para pagar as viagens de conferência por si mesmos.

Estes são os primeiros dias deste capítulo da história do mundo, e estes pensamentos não são mais do que isso – uma especulação sobre o nosso futuro. Mas espero que, no entanto, eles forneçam algum alimento para o pensamento, quer concorde com eles ou não.


Por
Rob Davidson, managing director da MICE Knowledge

É uma das 25 figuras mais importantes no setor de eventos na Europa.  Rob Davidson vai realizar uma palestra online sobre “The Impact of the Meetings Industry & Bidding for Events”, no dia 24 de abril, no âmbito da pós-graduação de Gestão de Eventos, da Universidade Lusófona. As incrições podem ser feitas aqui.

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