Depois da Tempestade Covid-19, como imagino o novo mundo

A atual, e necessária, paragem parcial ou total das empresas mostra-nos como apesar dos sistemas sociais, políticos e económicos aplicados, e em pleno funcionamento, temos enquanto sociedade uma enorme capacidade de adaptação. A realidade pós-pandemia será tão novidade como o momento que vivemos, e não considero que seja ainda possível afirmar ao certo as suas implicações no futuro a nível global. No entanto, acredito que existirão mudanças várias que serão, acima de tudo, acompanhadas por essa mesma predisposição para a reinvenção.

Importa contextualizar que estou convicto de que só esta paragem, no momento que vivemos, poderá criar condições para que retomemos a rotina em segurança, garantindo a nossa saúde e bem-estar e, como resultado, também as empresas e a economia retomem a atividade, até aqui, dita normal. Contudo, continuará a ser necessária, quando for reestabelecida a rotina, uma atenção detalhada por parte do mundo empresarial às alterações comportamentais individuais e sociais, no sentido de ser possível um ajuste rápido e eficaz dos modelos de negócio à nova realidade.

Todas as projeções apontam para que a maioria das economias entrem em recessão já no 2.º semestre de 2020, estimando-se um decréscimo significativo  do PIB português. E conhecendo os modelos económicos e termos vivido a mais recente crise económica dos mercados financeiros, de 2008, entendemos que a tendência é para uma relação causa-efeito, em que quanto maior a recessão económica, maior será também a instabilidade política e social.

Do acontecimento que experienciamos surgem questões de grande alcance relativas, por exemplo, à Globalização, que só por si se mostra sempre tão ambígua. Neste caso, e considerando a realidade de pandemia mundial, a dependência económica do Ocidente face à hegemónica China fez-se surgir e instalar. Questiono-me até, se não resultará numa positiva recuperação de capacidade de produção própria, a médio-longo prazo, como afirmação do reconhecimento de aptidão endógena que tanto tem sido afirmado.

Outro tópico de dúbia perceção tem sido a tecnologia e a sua utilização, cujos limites se perceberam, apesar da sua acelerada implementação em atividades laborais, escolares e até culturais. Muitas foram as empresas que apressaram processos digitais que estavam em planeamento, sem tempo para testes-piloto ou oportunidade de aplicação moderada. A escola online obrigou muitos pais, e até profissionais da educação, a uma literacia digital aprendida na prática, e a telescola voltou. Museus e galerias mostraram-se no digital, dando-nos a possibilidade de uma, diferente, experiência imersiva.

Percebemos que também neste cenário se fomentou a criatividade no desenvolvimento dos negócios, se percebeu a capacidade de adaptação rápida e a necessidade de digitalização. Ainda mais, questionaram-se os próprios modelos de relacionamento pessoal e a sua adaptabilidade.

As crises potenciam a revisão de valores e a mudança de hábitos, e muitos são aqueles que perspetivam drásticas alterações nas práticas de consumo, na própria circulação e nas viagens, ou até no consumo cultural e nas relações interpessoais. Mais do que uma afirmação concreta de qualquer uma destas, acredito que a cooperação e empatia continuarão a imperar, que a criatividade e capacidade de adaptação empresarial não se vão esgotar e que serão trazidas para a realidade, neste mundo reinventado.


Por António Valério, CEO da Multipessoal

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