A pandemia COVID-19 anda no centro das atenções, afogando tudo o mais. Hoje é habitual ouvir análises dos efeitos que terá nas coisas mais variadas, das grandiosas às triviais. Por que não refletir acerca dos seus efeitos na liderança?
Para que esse esforço seja útil, é importante começar por eliminar atitudes extremistas. Enquanto alguns rejeitam a própria realidade da infeção, assumindo que tudo não passa de um embuste, outros falam de um mundo novo, seja para o exaltar ou repudiar. Ambas as posições serão infirmadas pela realidade: o mundo em que vivemos é o mesmo de sempre, e não é uma doença, aliás bastante menos virulenta que outras recentes, que o mudará. No entanto este episódio vai deixar marcas, cicatrizes e mudanças, a que teremos de nos habituar.
O primeiro efeito sobre a liderança é evidentemente, um drástico aumento da sua necessidade. Quem tem o dom de comandar, traço raro mas precioso, é especialmente imprescindível em momentos de rutura, sofrimento, incerteza. E a pandemia COVID-19 trouxe muito disso. A todos os níveis, da família e empresa ao Estado e planeta, sente-se carência acrescida de quem decida, congregue, motive, oriente, coordene. Precisamente porque as certezas anteriores são postas em causa, necessita-se da afirmação de uma identidade e um rumo.
A essa exigência, que se sente em todas as crises, acrescenta-se neste caso um elemento adicional, pois a peste constitui uma situação clássica de conflito entre bem privado e bem público, exigindo a intervenção da autoridade. O facto de o infetado sofrer muito com o confinamento, indispensável para proteger a comunidade, gera uma situação paradigmática de quebra da “mão invisível”. Aliás a imposição de “cordões sanitários” esteve na origem de muitas das instituições públicas contemporâneas, das polícias locais a estruturas regulamentares, pilares da construção do Estado moderno. É esta situação que leva tantos hoje a bramar contra a ditadura das autoridades de saúde, esquecendo o fatal desajustamento entre interesse individual e comunitário. Havendo um vírus à solta não se pode confiar na decisão pessoal para conter a infeção.
Tudo isto terá impactos importantes no equilíbrio institucional básico, algo que se sentirá a todos os níveis da sociedade. Qualquer organização, seja uma família, um clube ou uma democracia, funciona bem se conseguir balancear duas dinâmicas fundamentais: a liderança e a participação. É preciso que alguém mande, para evitar a confusão libertária, mas é preciso também que todos tragam o seu contributo à decisão, para evitar a tacanhez tirânica. Ora após um choque deste tipo, o equilíbrio normal será certamente desafiado.
Reforçando-se temporariamente o papel da liderança, inevitavelmente à custa da participação, surgirá a tentação de manter esse reforço, mesmo quando já não é necessário, ficando difícil retomar a regularidade. Se os chefes têm de avançar e impor limitações a todos para seu bem, é provável que, ao acabar a provação, seja difícil regressar a um quadro aberto, interativo, colaborativo. Vamos demorar algum tempo até voltarmos à normalidade e, em alguns locais podemos mesmo cair no nacionalismo, ditadura e protecionismo. Este é forçosamente o risco mais importante a ter em atenção no período pós-pandemia.
Estes dois primeiros aspetos, o aumento do papel da liderança e os desafios que isso levanta a todos os níveis, vão conviver com um terceiro elemento que se torna especialmente paradoxal neste enquadramento: a perda de controle. Um dos maiores choques que esta pandemia trouxe é precisamente a constatação da nossa impotência perante a natureza que julgávamos dominada. Após todas as vitórias tecnológicas, bastou um ser microscópico para fazer desabar muito do que tínhamos construído. Os líderes de que tanto precisamos nesta circunstância têm de começar por admitir a sua inanidade. Esta situação motiva uma reflexão interessante acerca da relação entre liderança e controle.
Um dirigente precisa naturalmente de ter poder sobre aquilo que chefia. Mais ainda, grande parte da sua ascendência perante os subordinados advém precisamente dessa suposição de domínio. Assim, a admissão de incapacidade conduz normalmente ao insucesso e à revolta. No entanto liderança e controle são coisas muito diferentes, podendo existir uma sem o outro e vice-versa, não sendo nenhum deles mutuamente indispensável.
A referida possibilidade de revolta nasce nos casos de falha de liderança. Quando um responsável perde o domínio por sua incompetência, é normal que os lapsos lhe sejam assacados e os inferiores percam o respeito. Mas se a inaptidão se deve a motivos de força maior, a reduzida influência até aumenta a autoridade. No meio de uma tempestade é precisamente quando o bom piloto é mais incapaz, mas também mais necessário. Claro que se exige que ele mantenha o controle formal, segurando com força o leme, mas realmente ele não dirige o navio, sujeito a poderes superiores. Talvez surpreendentemente para os mais distraídos, é precisamente quando o seu vigor se mostra mais frívolo que o seu prestígio se exalta.
Esta elaboração conduz-nos a uma das virtudes mais necessárias a um bom líder e das mais ausentes num mau, a humildade. A autoridade anda muitas vezes ligada à soberba, mas esta inevitavelmente mina aquela. Este problema, que sempre existiu, agravou-se muito nestes tempos céticos. Ao longo de milénios, e hoje ainda em muitas situações, os líderes sabem que o são “debaixo de Deus”. A evidência de um poder supremo e sublime tem várias vantagens, não apenas para os súbditos, que podem recorrer a uma autoridade superior, mas também para o soberano, que se sabe também súbdito da Suprema Justiça. É verdade que muitas vezes se caiu na «divinização dos imperadores» ou no «direito divino dos reis», que permitia aos poderosos macaquearem o Altíssimo. Mas em geral a fé religiosa constitui um forte regulador do poder. Prova disso é precisamente que hoje, quando tantos vivem como se Deus não existisse, assistimos aos casos mais extremos de totalitarismo, naturalmente debaixo de ideologias ateias.
Esta elaboração serve apenas para manifestar o papel decisivo que a humildade tem na liderança. Esta virtude, que não passa de um elemento de realismo e verdade face ao poder, está na base de uma saudável atitude de comando. A perplexidade que sentimos diante da devastação imparável de uma pandemia mostra bem como são frágeis as nossas possibilidades e como devemos repudiar arrogância e altivez. Libertando-se dessa carga espúria, resta um papel essencial à liderança, o de identificar, reunir, motivar e dirigir os esforços que são indispensáveis, precisamente por causa da emergência.
Como o bom piloto na tempestade, precisamos hoje muito de líderes que estejam à altura das nossas necessidades. Mas é importante também que eles não caiam nas tentações de rejeitar a participação e a humildade, esteios indispensáveis de uma liderança saudável.

Por João César das Neves, professor catedrático da Universidade Católica Portuguesa (UCP). Assessor económico do Primeiro Ministro (1991/95), autor de vários livros e colaborador da imprensa.
