A COVID-19 afetou-nos a todos de diferentes maneiras. Sofro de asma e vivendo em Londres – sou particularmente vulnerável – e, por isso, passei por crises pessoais, mas tenho-me protegido.
No começo, não saí de casa durante quase três meses. Recebi notícias de amigos e colegas que ficaram doentes e conheço pessoalmente pessoas que morreram – na verdade, nos últimos meses, participei em dois funerais virtuais.
Todos temos a nossa própria história sobre como esta pandemia afetou as nossas vidas pessoais e profissionais, e também as organizações. Diferentes tipos de recursos que consideramos naturais, de repente, esgotaram-se. Na sua organização pode ter perdido – recursos físicos – fechado por um período, afetando a sua faturação e os seus recursos financeiros. Também os seus recursos humanos. O que a teoria da conservação de recursos nos diz é que quando perdemos qualquer recurso individual este, geralmente, é acompanhado pela perda de um grupo de outros recursos; quando experienciamos uma perda de recursos, experienciamos também, provavelmente, stress, ansiedade e medo. Em crise, procuramos proteger e repor os recursos perdidos. Olhamos para a liderança como fator de construção de sentido e garantia e, por isso, olhamos, naturalmente, para os líderes para cuidar com compaixão e para usarem as suas skills em gestão de crises. Infelizmente, a teoria da liderança é bastante fraca sobre este tema.
À medida que a pandemia COVID-19 se desenrolava, eu e outros colegas, olhámos em redor para identificar exemplares vivos e apaixonados na área de gestão de crises que pudéssemos estudar para destilar alguma sabedoria essencial de liderança. O exemplar que escolhemos estudar foi o da Primeira-Ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern. Desde a sua eleição para Primeira-Ministra da Nova Zelândia em 2017, Jacinda Ardern tem sido extremamente valorizada pela sua liderança através da compaixão, em três crises: em março de 2019 – massacre numa igreja – 51 pessoas assassinadas; em dezembro de 2019 – erupção de um vulcão; e no início de 2019 – a OMS declarou a COVID-19 uma pandemia mundial. O que é de imediato fascinante em relação à sua liderança é o facto de ser descrita pela imprensa em termos muito paradoxais.

A revista The Financial Times refere-se a ela como “santa” (Clark, 2020) e descreve a sua resposta à crise como uma combinação de “ferro e fogo” (Smythe, 2019). A revista Vogue expandiu a metáfora do “ferro e fogo” explicando que Ardern é “profundamente empática, mas tem nervos de aço – e pode liderar em tempos de caos e tragédia” (Wickstead, 2019). A revista Forbes refletiu sobre como Ardern “empatizou com as vítimas, embora permanecesse uma líder forte, como ela se importava e liderava ao mesmo tempo” (Jamet, 2019). France 24 elogiou a sua “compaixão, coragem”, sustentando um “estilo de liderança com compaixão, mas duro” (Mougin, 2019). A Time Magazine comentou sobre a sua abordagem como “uma forma de liderança que incorpora força e sanidade, ao mesmo tempo que promove uma agenda de compaixão e comunidade – ou, como ela diria, “idealismo pragmático” (Luscombe, 2020). Estas descrições rapidamente desarmam a suposição de que a compaixão é uma fraqueza. Preferem apresentar a liderança com compaixão como um paradoxo tanto de empatia como de força. Quando analisamos o comentário sobre a liderança de Ardern, de uma forma mais abrangente, identificamos quatro palavras: Idealismo, Inclusão, Realismo e Pragmatismo. Detalhadamente: Idealismo – “julgamentos sobre se a atividade é “a coisa certa a fazer” e “se a atividade efetivamente promove o bem-estar social, conforme definido pelo sistema de valores socialmente construído do público” (Suchman, 1995, p. 579) (sobre valores, política, visão e autenticidade); Inclusão – “tentativas por parte dos líderes de incluir outras pessoas nas discussões e decisões nas quais as suas vozes e perspetivas poderiam estar ausentes” (empatia, colaboração, comunicação, modelo e parceria); Realismo-racional – um plano baseado na realidade (ciência relacionada, sistemas e estado de direito, responsabilidade); Pragmatismo – “eficiência, utilidade e eficácia” (Tosts’s, 2011, p. 693) (envolvendo determinação e força, negociação e improvisação).
A liderança com compaixão de Ardern é específica à sua personalidade e estilo, mas os princípios são generalizáveis. Como implementar?
(…)
Pode ler o artigo na íntegra na edição de dezembro da revista Líder.

Por Ace Simpson, Professor em Comportamento Organizacional e HRM na London Brunel University
