Uma conversa sobre Deus e o Mercado


Valha-nos Deus, mas não fiemos na virgem e corramos! Corramos! Se Deus nos pode salvar ou não, se esta crise se resolve com a ajuda da religião, se o dinheiro nos salva ou nos mata, se as economias nos ultrapassam e confundem o sentido da nossa existência, se devemos tirar aos ricos para dar aos pobres, se e mais se.

É numa crise que estamos, numa crise económica, sanitária, de valores e existencial, também religiosa. Hoje, mais do que nunca, é importante ouvirmos todos, escutarmos com aquela atenção de quem recebe do outro a novidade e a esperança para o futuro.


O outro não pode ser o estranho, o estrangeiro, a sua voz deve fazer eco em nós, deve despertar em nós a nossa vocação de ser coletivo. Foi um livro que nos trouxe até ao Professor João César das Neves e ao Padre Vítor Melícias, uma obra que nos coloca perante a vida de uma forma que tem tanto de pragmático como de enigmático. Deus e o Mercado é o livro que inspira esta entrevista.

Mas Deus tem alguma coisa que ver com o mercado? Que ligações se podem estabelecer?
João César das Neves (JCN):
Deus tem que ver com tudo, como Criador. E Ele não é um criador distante, mas uma presença sustentadora e renovadora a cada momento. Em especial, isso é verdade nas obras do ser humano, criado à Sua imagem e semelhança. Por isso Deus está bem presente no mercado.
Vítor Melícias (VM): Embora o mercado seja de criação e gestão humana, a relação entre ele e Deus, na infinda diversidade de conteúdos e de formas que nas diferentes religiões se vão historicamente sucedendo e modelando, tem sempre um papel essencial e imprescindível, uma vez que ambos visam e interferem na felicidade do Homem e na harmonia do seu relacionamento com as demais criaturas. É claro que Deus, que tudo criou in fieri, ou seja, tudo fez de modo que todas as coisas se fossem fazendo e acontecendo no maior respeito pela liberdade humana e pela dinâmica do universo criado e criador, não tem de intervir diretamente em cada ato de criação ou opção das criaturas. Por isso, o mercado, enquanto solução dos homens para os homens, mantendo as suas autonomias, não pode deixar de tentar conjugar os seus desígnios e os resultados que provoca, com aquilo que na sua dimensão religiosa entenda serem os desígnios de Deus e os valores e princípios nos quais tais desígnios se possam realizar. Seguramente, nenhuma religião, seja ela qual for, admitirá que seja Deus o criador e gestor de um instrumento que tantas injustiças e desigualdades, e mesmo agressões humanas e ecológicas provoca. E, por isso, o mercado deve, em quaisquer das suas formas e dimensões, estar permanentemente atento aos desígnios e aos valores, que lhe deram origem e sentido.

Este é um livro de conversas onde o consenso nem sempre é uma constante, aliás, muitas vezes estão em desacordo. Pergunto, o que mais vos separa? Quais os pontos de cisão?
JCN: Une-nos a doutrina cristã, que ambos seguimos com fervor. A diferença central está na interpretação do capitalismo, que o padre Vítor Melícias considera intrinsecamente mau e eu avalio de forma ambivalente, como os outros sistemas.
VM: Cisões? Nem pensar. O que há são diferentes maneiras de abordar o mesmo tema. Se bem percebi, o nosso Professor, como bom Economista que é, valoriza nesta análise sobretudo o crescimento económico que, através da acumulação e investimento de recursos, o capitalismo permite ou favorece. Diversamente, eu, que nem sequer economista sou, salientando bem que crescimento não é sinónimo de desenvolvimento, na minha definição e análise do sistema económico vigente, valorizo e desaprovo, particularmente no modelo capitalista e nas suas modalidades de capitalismo financeiro e neoliberal, a desproporcional proteção e remuneração do capital com relação aos demais fatores de produção, incluindo o conhecimento como fator de produção, os quais assim se tornam dependentes do poder do capital e por ele condicionados. 

Por isso mesmo, há uma grande parte da obra onde se debate fortemente o capitalismo apontando-se muitas críticas ao chamado capitalismo financista neoliberal. Quais são os grandes erros do capitalismo?
JCN: O capitalismo tem grandes méritos na promoção do crescimento e bem-estar da sociedade. Mas ele nasce de uma separação entre o capital e o trabalho, com o primeiro a contratar o segundo. Essa clivagem, se não for compensada, pode criar grandes injustiças. Daí a necessidade de um forte quadro moral e legal, que permita equilibrar e controlar a situação.
VM: Além daquela desproporção de estatuto e de poder concedido ao capital, menorizando o trabalho e os outros fatores produtivos, o capitalismo consegue concentrar nos seus objetivos de lucro exclusivo praticamente todo o poder de decisão sobre o que se produz, como e em favor de quem se distribui, provocando injustiças e inadmissíveis desigualdades entre pessoas e povos inteiros no acesso ao que deveria ser de bem comum. É que, como sempre defendeu a Escola Franciscana, no seguimento de Pedro de João Olivi, seu inspirador, apenas se pode considerar “capital”, termo por ele introduzido na linguagem da Economia, aquele conjunto de recursos, financeiros ou outros, que expressa e voluntariamente são investidos em favor do bem comum equitativo e fraterno, tanto em relação aos homens como à natureza. A aplicação desses recursos com outras finalidades ou intenções, designadamente do ganho e do lucro por parte de pessoas ou entidades, não era por eles considerada nem chamada capital, mas usura. Um pouco como aquela que hoje o capitalismo financeiro promove nos empréstimos de altíssimo juro da banca internacional e dos países ricos aos países pobres eternamente estrangulados pelas famosas dívidas de capitais financeiros. Tendo desvirtuado aquele sentido original e genuíno do termo capital, o modelo de capitalismo hoje dominante, mesmo que enquanto sistema e teoria económica pudesse em si ser tolerável e porventura mais eficaz, enquanto modelo e em função dos males que promove ou pelo menos permite, o capitalismo carece, sobretudo na sua modalidade de capitalismo financeiro, de uma profunda mudança. Mudança não apenas no seu mau uso ou práticas inaceitáveis, mas na própria estrutura e funcionamento. Este capitalismo, gerador de exclusão e dependência de pessoas e povos, deve, no mínimo, ser transformado num capitalismo de inclusão, tanto a nível global quanto a nível local, ou seja, de modo “glocalizado”.

É nesta parte do capitalismo financista que as vossas posições mais divergem. Quais as vossas principais divergências?
JCN: A diferença talvez seja que eu vejo um quadro ambíguo no capitalismo, com vantagens e inconvenientes, enquanto o Padre Melícias é mais severo.
VM: Uma vez mais, penso que a diferença, não necessariamente divergência, está em que um salienta a eficácia e aquilo que considera benefícios do sistema e o outro, ou seja eu, considera os malefícios e distorções que este modelo provoca nos poderes de decisão em matéria de economia e na desequilibrada fruição dos bens que integram o bem comum dentro da casa, a todos comum.

Por Catarina G. Barosa
Fotos Tema Central

Leia a entrevista na íntegra na edição de dezembro da revista Líder.

Assista à talk com João César das Neves na “Leading People – International HR Conference”:

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