Depois da pandemia, a crise de paradoxos

A nossa capacidade de ver a realidade está sempre comprometida pela nossa capacidade de ver com exatidão o que é de ordem macro e o nano. Talvez o telescópio e o microscópio tenham sido as maiores descobertas da história que nos permitiram, de uma vez por todas, entender que o nosso campo de visão é muito limitado e que não podemos enxergar muita da realidade de que fazemos parte sem ajuda telescópica e também não podemos ver vírus ou bactérias sem ajuda de microscópios. As nossas capacidades são obviamente limitadas e mesmo conseguindo, com recurso a instrumentos, ampliar a nossa visão, temos sérias dificuldades em conseguir entender o que é infinitamente grande e o que é infinitamente pequeno. Por isso, não chega ampliar ou aproximar porque há contingências outras, do entendimento humano, que nos impedem de ter certezas.


Esta crise põe a nu estas limitações. Ivan Krastev, é búlgaro, politólogo e investigador do Instituto de Ciências Humanas de Viena, no seu último livro O Futuro Por Contar, ele procura fazer um exercício de análise sobre o futuro depois desta pandemia e depara-se com sete paradoxos que só o tempo e a história permitirão resolver.

Ele identifica-os da seguinte forma: o primeiro, resulta desta pandemia ter exposto o lado negro da globalização e, ao mesmo tempo, ter sido agente dessa mesma globalização. Todos percebemos que a facilidade com que as pessoas se movimentam no planeta fez com que a propagação do vírus se desse de forma rápida e total, também percebemos que estamos dependentes de países e economias que nos podem deixar sem saídas, e, por outro lado, foi quase consensual que precisamos de um entendimento global para parar a pandemia, a OMS foi apelando a este entendimento entre nações para debelar o vírus; o segundo paradoxo, identificado por Krastev, foi a aceleração da desglobalização (que começou com a crise de 2008-09) expondo, em simultâneo, os limites da renacionalização, ou seja, não podemos depender tanto uns dos outros, e tal como afirma Gideon Rachman, jornalista britânico, “é difícil imaginar que os grandes países desenvolvidos continuarão a aceitar ter de importar a maioria dos produtos médicos mais vitais”. Contudo, apesar de ser necessária esta capacidade de autossubsistência, também não podemos cair nos pecados nacionalistas.

O terceiro paradoxo desta pandemia resulta do medo que a COVID-19 gerou e de este ter incentivado uma união nacional como já não se via há muito na história, contudo essa união e esse olhar para dentro veio acentuar as divergências sociopolíticas, podendo a pandemia assumir-se mesmo como linha divisória. É bem possível que depois de tudo isto passar se faça o ajuste de contas. Os países onde o vírus foi melhor contido talvez tenha uma opinião pública que critique os confinamentos impostos.

O quarto paradoxo assenta numa democracia em pausa como resultado de estados de emergência onde direitos e liberdades civis foram congelados, o que levará as pessoas a rejeitarem autoritarismos ao invés de os aceitarem em situações de emergência; Falamos de um desastre sanitário que passou a económico seguindo-se-lhe o político com consequências que são difíceis de prever; o quinto paradoxo é o da União Europeia, a pandemia talvez tenha sido o acontecimento histórico que mais abalou a Europa e o projeto europeu nunca foi tão crítico como hoje em dia e, ao mesmo tempo, nunca se correu tanto o risco de desagregação territorial (o Brexit pode vir a tornar a UE quase irrelevante); O sexto tem que ver com o fantasma das três últimas crises que abalaram a Europa nos últimos 20 anos: o terrorismo, os refugiados e a crise financeira; estas crises trouxeram consigo a relutância de mutualizar a dívida e de aliviar as restrições aos orçamentos nacionais; no combate ao terrorismo, os europeus, ao contrário dos americanos, não abdicaram da sua privacidade em prole da segurança e, finalmente, em relação à crise dos refugiados, o consenso que existia de que encerrar as fronteiras internas seria impossível e se isso acontecesse quem perderia seriam os países de leste, com esta crise as coisas mudaram de figura e, afinal, as fronteiras podem ser fechadas temporariamente e a europa ocidental também perde com isso, veja-se, segundo diz Krastev, “os voos fretados no auge da pandemia para transportar trabalhadores sazonais do leste para França, Alemanha e Reino Unido alteraram dramaticamente a natureza do debate.” Isto obriga-nos a pensar de forma muito diferente do que acontecia há um ano, antes da pandemia.

E o derradeiro e sétimo paradoxo, aquele que nos coloca, como europeus que viam a europa como um baluarte de abertura e interdependência, a pensar também que a pressão da globalização pode levar a que sejam adotadas políticas comuns, por exemplo na área da saúde, que obriguem a entregar algum poder, em casos de emergência, a Bruxelas. Na verdade, os paradoxos da globalização podem ter começado com Emmanuel Kant, filósofo, que sem nunca ter saído da sua cidade, Konigsberg, era na verdade o maior cosmopolita à face da Terra.

É tudo uma questão de visão, de perspetiva, e de sabermos que apesar de termos telescópios e microscópios para nos ajudarem a ver o que de outro modo era impossível, eles não são suficientes para entendermos aquilo que só o tempo e a imaginação podem resolver.

 

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