O humor não se consegue entender com a religião. O humor retira peso às coisas e alivia, também lida com o desespero e não tanto com a esperança. É preciso ser prudente quando falamos de humor como ferramenta de intervenção social, o tal humor que apesar de não derrubar Mona Lisa pode fazer-lhe um bigodinho. E mais, o humor também tem os seus terrenos sensíveis, rir de tudo pode ser quase uma agressão. Ricardo Araújo Pereira talvez saiba rir do desespero e tenha esperança num contrato tácito para o futuro, onde os humoristas fazem piadas com o que lhes apetecer e as pessoas têm o direito de se ofender. Nesta entrevista à Líder, deixa claro que a solidão forçada ou voluntária do humorista lhe dá aquela capacidade de observar as relações sociais a partir do lado de fora, e é também com esse mesmo olhar que olha para si.

A ideia de salvação pode ter uma conotação religiosa. Humor e religião entendem-se?
Acho que não. A própria natureza do humor parece ser incompatível com o espírito religioso. De um lado, o gosto pelo absurdo, um pendor para a desordem, a transgressão e o excesso; do outro, a busca de sentido, uma ideia de contenção, de submissão às regras, e de controlo. De um lado, a evidente relação do riso com o corpo e o prazer; do outro, a vontade de reprimir certas inclinações naturais e abdicar dos prazeres terrenos. O sagrado é sério e solene; o humor aponta precisamente à gravidade e à reverência. Como diz o bibliotecário cego no livro de Umberto Eco, “A lei impõe-se através do medo, cujo verdadeiro nome é temor de Deus.” E como lembra o humorista americano Stephen Colbert, “não é possível sentir medo enquanto estamos a rir”.
Há uma possibilidade de salvação através do humor na medida em que este, ao tornar o mundo mais leve e risível atenua a dor e permite alimentar uma certa esperança. Será assim? Concordo que o humor consiste numa operação de subtração de peso às coisas – à realidade. Talvez isso proporcione mais alívio (que talvez não seja assim tão grande nem duradouro…) do que propriamente esperança.
Que esperança pode o humor ajudar a alimentar?
O humor lida mais com o contrário da esperança: o desespero. Parece que há um provérbio austríaco que diz: “A situação é desesperada, mas não é séria.” A frase, que é ela própria humorística, parece condensar o modo como o humor funciona: não disfarça que a situação é desesperada. Mas insiste em não conceder que seja séria.
E a dor, ela é real e apesar de nos podermos rir dela não podemos anulá-la, só mesmo a ciência aqui para nos ajudar. Concorda? Sim. Quem diz que rir é o melhor remédio, claramente, não conhece os analgésicos e os antibióticos.

Muitos humoristas descobrem o seu talento porque precisam de resolver alguns dos seus problemas pessoais através do humor. Há no início uma espécie de função terapêutica que evolui até ao ponto onde ele, o humor, já tem uma função mais ambivalente, social até. Será sempre assim?
É possível. Apesar de os humoristas terem origens e disposições muito diferentes, talvez haja um ponto em comum a todos. Uma espécie de solidão, forçada ou voluntária, a que eles reagem do seguinte modo: dedicam- -se a assistir às relações sociais a partir do lado de fora, ou seja, de um ponto de vista invulgar, e submetem-se a si próprios a esse olhar, como se se destacassem de si próprios. É um mecanismo de defesa em relação à dureza do mundo. As pessoas normais optam por outras estratégias. Repare que sentir-se sozinho, evidentemente, não é exclusivo dos humoristas. É a reação a isso que os distingue.
O humor pode ser terapia, mas é muito mais do que isso, é também intervenção social e grito de ajuda. Como o vê nesta sua vertente?
Acho que o papel do humor como meio de “intervenção social” é muito sobrevalorizado. Há vários estudos que recomendam alguma prudência quando se trata de avaliar esse poder do humor. Só para dar alguns exemplos, o trabalho de Robin L. Nabi, Emily Moyer-Gusé e Sahara Byrne formula o conceito de “discounting cue”, que basicamente significa que, por mais persuasivo que o discurso humorístico seja, o público dá, por assim dizer, um desconto à sua credibilidade, e não lhe atribui o mesmo peso que atribuiria ao discurso “sério”. Além dos estudos que lembram que a audiência destes programas já está potencialmente identificada com as ideias dos autores, o que quer dizer que o humorista estará a fazer aquilo a que se chama “pregar para convertidos”.
O humor só faz bem ou também pode fazer mal?
Se o bem e o mal são partes integrantes do todo, então talvez consigamos identificar o mal que o humor pode fazer? Claro. No Museu do Holocausto, em Telavive, vi bastantes cartoons satíricos nazis sobre judeus. Quando se diz que o humor é uma arma, é importante não esquecer que não são só os heróis que as usam, os vilões também.

Morrer a rir é uma possibilidade física (para cardíacos ou pessoas com outras patologias, vá, mais vulneráveis), mas o humor lato senso, o que pode matar?
Falando literalmente, não mata nada, felizmente. Mesmo metaforicamente, como já referi, penso que não será assim tão arrasador. No outro dia o Nuno Artur Silva dizia ao Expresso que o humorista não derruba a Mona Lisa mas desenha-lhe um bigodinho. É isso, mas é importante manter presente que desenhar um bigodinho não é um ato assim tão subversivo. Repare que, quando o Hitler se torna uma figura conhecida já Chaplin era uma figura mundialmente famosa. Os ingleses tinham uma canção sobre o Hitler chamada “Quem é este homem que parece Charlie Chaplin?”. O facto de aquele bigodinho já estar fortemente associado a uma certa ideia de ridículo não foi suficiente para o convencer a rapá-lo.
Há temas com os quais não é fácil brincar, ou apoucar, e mesmo usando as palavras certas o risco é muito elevado. Quais são os terrenos mais sensíveis? Sente especial predileção por algum?
Por Catarina G. Barosa
Fotos Tema Central
Leia a entrevista na íntegra na edição de dezembro da revista Líder.
