Respondendo ao desafio lançado pelo Papa Francisco, e com o seu patrocínio, o Conselho para o Capitalismo Inclusivo acaba de ser criado. É um movimento, à escala global, englobando empresas, investidores, líderes, sindicatos e fundações. A sua missão é contribuir para a construção “de um sistema económico mais inclusivo, sustentável e confiável que atenda às necessidades das pessoas e do planeta”. A motivação subjacente é assim descrita: “O capitalismo retirou milhares de milhões de pessoas da pobreza, mas muitas foram deixadas para trás e o planeta tem pago um preço. Existe um imperativo moral de enfrentar este desafio, e nós estamos a agir”. Os membros aderentes assumem compromissos orientados para a igualdade de oportunidades, a distribuição equitativa, a justiça inter-geracional focada no ambiente, e a participação justa na atividade económica. O movimento integra empresas como a Allianz, o Bank of America, a Johnson & Johnson, a BP, a Ford Foundation, a Mastercard, e a Merck.
Iniciativas como esta podem dar azo a três tipos de reações. A primeira é a dos cínicos que afirmarão estarmos perante mais um tratado de boas intenções, apoiado em objetivos meramente reputacionais e sem correspondência com as práticas empresariais. Evidência recente sobre a Business Roundtable mostra que alguma desconfiança é legítima. A iniciativa envolveu uma quantidade significativa de CEO que se comprometeram a trabalhar em prol de stakeholders como os empregados e as comunidades, em vez de se focarem apenas na maximização do valor para o acionista. A realidade, porém, mostra que algumas empresas lideradas por subscritores do pacto não estão a corresponder ao que prometeram – sobretudo quando foram postas à prova durante a crise pandémica. Mas não devemos deitar fora o bebé juntamente com a água. Ao assumirem compromissos publicamente, as empresas e os seus líderes sujeitam-se ao escrutínio público – e, se não fizerem jus à promessa, podem ver a reputação e o desempenho afetados. Esse pode ser um estímulo à adoção de práticas mais sustentáveis.
A segunda reação, simétrica, é também cínica. Provém dos apologistas da maximização do valor para o acionista. Esta visão cínica entende que, quando as empresas se envolvem nestas iniciativas sociais, estão a meter o nariz onde não devem – porque, alegadamente, não são competentes nessa matéria ou fazem mais mal do que bem. Entre estes cínicos estão os que não perdoam ao Papa Francisco a sua tese de que “esta economia mata”. Em 2013, a revista Newsweek chegou a interpelar o leitor, em tom provocatório: “O Papa Francisco é socialista?”. Houve mesmo quem, no jornal La Stampa, acusasse a exortação apostólica Evangelli Gaudium de “puro marxismo” e a Igreja de “hipócrita”.
A terceira reação é um voto de confiança nas possibilidades de regeneração do sistema capitalista. É cada vez mais forte e amplo o caudal de empresários, economistas, líderes e académicos que defendem que a economia que mata é a mesma que se matará a si própria se não for regenerada. Estudos sugerem, aliás de modo paradoxal, que as empresas obcecadas exclusivamente com o lucro são menos lucrativas do que as focadas em propósitos dignos! Esta evidência não surpreende. É impossível encorajar o empenhamento genuíno de empregados que sentem que são instrumentalizados para simplesmente alimentar máquinas de fazer dinheiro. O que esses empregados desenvolvem é o empenhamento cínico. Simulam empenhamento para fruir benefícios – mas não estão genuinamente empenhados.
As empresas podem ser, e devem ser, motores de desenvolvimento económico e social. Este é um ideal muito mais prático do que possa supor-se. O mundo progride e regride como consequência de ideias. Boas ideias alicerçam melhores práticas. Más ideias sobre as empresas podem gerar más práticas. Uma má teoria sobre os astros não altera o movimento dos mesmos. Mas uma má teoria sobre gestão e economia pode, de facto, destruir vidas e famílias. Do que precisamos, pois, é de boas teorias. Ao patrocinar o Conselho para o Capitalismo Inclusivo, o Papa Francisco e os aderentes a esse movimento estão a fermentar melhores teorias – que acabarão por fomentar boas práticas. Se o/a leitor/a é líder e tem dúvidas, não espere sentado. Comece a praticar – e a sua teoria acabará por se materializar em mais justiça e maior sustentabilidade.

Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School
