As lições de John Lennon sobre liderança e felicidade

A canção “Imagine” de John Lennon faz 50 anos em 2021. Esta canção tem suscitado interpretações menos abonatórias devido às perspetivas literais de alguns dos seus versos. Essa interpretação literal é diretamente proporcional a muitas interpretações literais de livros ditos sagrados, ou seja, os que interpretaram “Imagine” de modo literal para a criticar podem muito bem ser aqueles que interpretam livros sagrados de modo literal. Têm a liberdade e o direito de o fazer. Temos a liberdade e o direito de discordar.


Contudo respeitamos a “literalidade” pois de facto Lennon propõe que todos imaginemos o mundo/a vida sem “Céu” incluindo nessa proposta, talvez, precisamente o “Céu religioso na visão dos religiosos literais”: “Imagine que não há céu, é fácil se tentar”. Lennon não poderia deixar de incluir o Inferno tendo em conta a propensão humana para o maniqueísmo (1).

Esta literalidade maniqueísta dos livros sagrados da vida/religião tem levado grandíssima parte da humanidade a colocar o foco causal da sua felicidade ou da sua infelicidade em “realidades” fora de si: “Deus” como realidade fora de mim e o “Diabo” como realidade fora de mim serão os arautos criadores da minha vida, sendo que também, um representará a sorte e outro representará o azar e ambos vão no veículo do “destino” a decidir mais ou menos secretamente a minha vida. Sendo que, com esta forma de ver, essa parte da humanidade se atira para os braços de interpretações indutoras de um “locus de controlo externo” em que  cada pessoa nada mais é que um joguete no tabuleiro universal em que os antagonistas protagonistas, talvez imaginados, se defrontam antes, durante e após todos os tempos e provavelmente em todos os universos. Ora, Lennon propõe que imaginemos algo diferente do que provável e habitualmente imaginamos. Acrescentando que é fácil.

Implicitamente, o texto de John Lennon pode propor que a humanidade se afaste de um Locus de Controlo Externo para se aproximar de uma fusão entre a humanidade e o todo em que desenvolvendo Locus de Controlo Interno passemos a estar menos dependentes do acaso e passemos a ser nós a construir o que queremos viver trazendo “o Todo” para dentro de cada um e implementado comportamentos após essa decisão, em detrimento de, talvez, distraidamente atuarmos como se estivéssemos a ser observados pelos “protagonistas do xadrez universal” que depois decidirão se somos ou não salvos. Essa sensação de observação por terceiros, diminui o foco e altera os fatores da equação criando a crença que a felicidade depende de outras realidades, pessoas ou ideias que não principalmente nós.

A interpretação literal das passagens referidas pode ter soado a um ataque ateu a muitos credos e até às principais religiões. Mas, talvez John Lennon não tenha pretendido tirar Deus/o Todo da equação. Pode ter proposto apenas uma modificação no modo como internalizamos.

Parece na verdade que “Imagine” não nega Deus como tal ou Jesus ou mesmo Maomé ou outro Deus qualquer. Pode muito bem significar que a canção tem ínsita uma proposta de alerta contra as realidades que nos dividem e que essas divisões podem bem estar acantonadas em “certezas da imaginação”, “realidades externas da convicção” ou “caminhos escolhidos da salvação” que apenas desviam a humanidade do essencial: consciencializar que afinal somos, mesmo, apenas “um” e que se quisermos podemos ser nós a fazer com que seja “Deus/O Todo ou outra designação qualquer para isto que vivemos, a ser salvo pela nossa felicidade. Quem sabe estaria aberta a ponte para uma felicidade de maior propensão Eudaimónica e não apenas a hedónica da “salvação individual”.

Os conceitos, as ideias ou os ideais universais, no fundo as propostas comportamentais ou interpretativas do real que “seres diferenciados” como Jesus, Maomé, Buda ou Brahma, Vishnu, Shiva devem apontar para a união e aceitação da diferença, mas também a consciencialização do que é factual. Ou seja, se tirarmos os “seres/deuses” diferenciados podemos muito bem descobrir que os factos podem ser os mesmos para todos e há pelo menos um facto que se infere da proposta de Lennon: o Planeta é um e estamos todos – para já – confinados nele. A este passo podemos perguntar: o que estamos a fazer com este facto? O que é que este facto tem trazido para o caminho da humanidade sentida como uma só? Talvez não muito, pois a humanidade ainda não se sente como uma só.

A mudança proposta por Lennon aponta para um processo de visualização -“Imagine”- do que poderá ser o futuro do mundo. O que sabemos é que o mundo, que está como está, não é o mundo onde poderemos viver apenas como um. A organização do mundo promove a separação egocêntrica em que o que vale aponta para a felicidade individualista, como se a felicidade de todos fosse um empecilho ao estruturalismo assente em teses economicistas. Não é!

A proposta da canção não critica expressamente o status quo vigente apenas propõe a mudança da imaginação embora indiciando uma critica implícita que pode resultar no seguinte: o modo como tudo se encontra estruturado impede que o mundo seja um só, ou seja, promove a existência de muitas felicidades assentes em relativismo, pois o que conta é a felicidade de cada um e não a felicidade do mundo como um só “and the world will be as one”. Se eventualmente mudarmos a imaginação, podemos almejar atingir a felicidade de todos e essa não pode deixar de ser a felicidade eudaimónica, porque não foi provado até ao momento que é impossível viver num mundo em que todos são felizes, logo ainda não é utopia.

Na opinião de Lennon as supra entidades – países/nações – separam o humano como consequência do interculturalismo artificial decorrente do desenho militarizado das fronteiras. Afinal quem traçou as fronteiras? Quem se arreigou no direito de determinar o estado de coisas sem qualquer pejo em deixar cair uniões milenares? Se somos todos membros da mesma espécie, como podem os “seres divinos” permitir felicidade a uns e não permitir a felicidade a outros? Se permitem essas diferenças ao nível da felicidade, então têm de ser corrigidos. Se têm de ser corrigidos…então talvez tenham de ser salvos. Por quem? Pela humanidade feliz.

Tudo visto, a canção é sobre uma visão em que a humanidade se une e mesmo que no mundo atual não identifiquemos a tese, basta que comecemos a imaginá-la para começarmos a construir a sua futura existência.

Ao agirmos de modo unificado quando olhamos o céu, mudando o modo como estamos organizados e querendo o bem comum e a felicidade de todos, lançamos as bases para uma humanidade assente nas fundações da paz, promovendo desse modo filosoficamente a salvação dos deuses que ao permitirem aos humanos ser interpretados como têm sido, não têm conseguido inspirar a humanidade a salvar-se pelos caminhos da felicidade.(2) (3)

A este passo diríamos que a primeira pedra deste grande edifício da humanidade como uma só depende dos líderes que deverão assumir esta perspetiva filosófica como essencial. Estejam em que dimensão estiverem: num país, numa empresa, associação, numa família ou numa relação. Este é o caminho. Se os líderes não quiserem ou não puderem, então cada um seja líder de si mesmo e inspire quem estiver a seu lado.

Notas:

  1. maniqueísmo é uma filosofia religiosa sincrética e dualística fundada e propagada por Manes ou Maniqueu, filósofo cristão do século III, que divide o mundo simplesmente entre Bom, ou Deus, e Mau, ou o Diabo. A matéria é intrinsecamente má, e o espírito, intrinsecamente bom. Com a popularização do termo, maniqueísta passou a ser um adjetivo para toda doutrina fundada nos dois princípios opostos do Bem e do Mal.
  2. Yoko descreveu o extrato lírico de ”Imagine” com base no que John acreditava: “Que somos todos um país, um mundo, um povo”.
  3. A revista Rolling Stone escreveu que a letra era composta de “22 linhas de uma fé pura e graciosa num mundo unido por uma mudança”.
    Por António Paulo Teixeira, consultor de RGPD, Liderança e Gestão de Pessoas
Scroll to Top