A ascensão de mercados emergentes como epicentros da economia

Quando refletimos sobre o futuro de Portugal, há dois pensamentos instantâneos que me vêm à cabeça: um horizonte temporal inferior a 10 anos, por arriscado que seja, faz-me pouco sentido; pensar no futuro sem ter em conta a pandemia que dominou o ano de 2020 também não. Isso leva-me imediatamente a uma reflexão: o que mais vai mudar na próxima década é provavelmente a forma como interagimos com a matéria física que nos rodeia e com o trabalho.

Ainda assim, eu sou por base um optimista e por isso acho que o mundo fará ao coronavírus o que faz habitualmente com tudo – vai triturar e seguir em frente. Não quero com isto dizer que a pandemia não deixará as suas marcas, mas julgo que serão bastante mais leves do que alguns eventualmente pensarão.

Focando-me, então, na próxima década, até 2030, pela primeira vez na história, quatro gerações ocuparão o local de trabalho simultaneamente (ou serão cinco?), desde os Baby Boomers – nascidos entre 1945 e 1964 – à geração Z, que nunca conheceu um mundo sem tecnologia e é responsável por 1/3 da força de trabalho. Um cenário que traz desafios específicos às empresas e à forma como trabalhamos.

A próxima década – tal como as anteriores, mas a exponencial da Lei de Moore faz com que este tema seja sempre relevante – será pautada por um desenvolvimento tecnológico ímpar que terá impacto precisamente no que penso ser o que vai mudar nos próximos 10 anos.

Até 2030 veremos provavelmente a inteligência artificial entrar no nosso espaço de trabalho de forma muito mais franca do que que vimos até agora. Então, importa referir que a quinta geração a que me referia na provocação do parágrafo anterior – vamos chamar-lhe os IA – não dorme, não come, nunca abandona o local de trabalho, trabalha onde for preciso e sua maior ambição de carreira é fazer mais, melhor e mais rápido.

O mercado de trabalho – e hoje mais que nunca – está a preparar-se para uma intensa cultura de mobilidade, em substituição do espaço físico. Este tipo de reconfiguração vai acelerar, dando às empresas o desafio de criar uma rede de localizações e de capilaridade para que os colaboradores se sintam mais atraídos pela empresa o que, consequentemente, poderá desbloquear a produtividade, o crescimento e a criatividade, tão importantes para o desenvolvimento de Portugal.

Portugal continuará a receber empresas de todo o mundo que querem tirar partido das vantagens do País, como a mão-de-obra altamente qualificada a preços muito competitivos. A qualidade dos espaços de trabalho e a tecnologia associada ao escritório serão cada vez mais relevantes e todo este novo paradigma terá impacto direto nos desafios corporativos e na orgânica das estruturas de liderança – no C-suite. Uma tendência reforçada por um estudo recente do LinkedIn assinala que existem mais caminhos do que nunca para quadros superiores, como resposta ao novo portefólio e a novas dinâmicas das empresas. Já temos empresas com Chief Hapiness Officers – só pode ser bom, porque o maior foco nas pessoas nunca trouxe um resultado menos interessante que a inversa.

As nossas casas não vão mudar radicalmente, não vai haver uma migração massiva para áreas periféricas e mais rurais ou “menos urbanizadas”, mas a “hotelização” dos espaços, ou seja, a reinvenção do residencial, do retalho e dos espaços de trabalho com base nos princípios da hospitalidade e hotelaria e a inclusão de serviços destinados ao utilizador, vai abanar o modelo de “business-as-usual” do mercado imobiliário, sendo que possivelmente, em 2030, será esta uma tendência consolidada entre os maiores players globais.

Nos próximos anos, o comércio online vai continuar a mudar drasticamente, não apenas na maneira como tudo nos chega, mas também na definição do conceito de loja. O tamanho físico, a sua forma, a localização dos edifícios que abastecem o ecossistema de retalho vão mudar e a inteligência artificial será um ponto de contacto em quase todas as etapas da jornada. Portugal deverá preparar-se para acolher estes novos modelos e garantir que está preparado para acolher as necessidades que estas empresas têm nas suas bases logísticas, sobretudo para fazer face à chamada “last mile”.

Em 2030, a Geração Z começará a herdar (e a mudar) a economia, representando uma fatia de mais de mil milhões de habitantes e 31% da população ativa mundial. Isto vai contribuir para uma redefinição significativa de algumas das maiores áreas metropolitanas e acelerará a ascensão dos mercados emergentes como epicentros influentes da economia mundial. Várias tendências económicas, tecnológicas e demográficas posicionam a Ásia-Pacífico como potencial líder na vanguarda da economia global até 2030 e não só pelo surgimento da Geração Z. Na próxima década, projeta-se que os países asiáticos tenham quatro das dez maiores economias do mundo, de acordo com a Oxford Economics. Portugal, e Lisboa em particular, com o caminho que tem feito nos últimos anos para se posicionar como hub corporativo e como escolha para colocar parte da cadeia de valor de algumas das maiores empresas do mundo, deve olhar para esta evolução como uma oportunidade de marcar mais uma vez a diferença, já que dificilmente terá par num território com a exposição ao mar num clima ameno como o nosso aliado a um elevado nível de competências da população ativa e a níveis de segurança ímpares – haja Europa, como ela foi pensada!

Tudo isto tem uma interferência óbvia na forma como interagimos com o mundo em geral e com alguns dos fundamentais em particular. É estimado que até 2030, cerca de 2 mil milhões de pessoas viverão em casas arrendadas. Se até lá soubermos aproveitar essa oportunidade, Portugal em 2030 deixará de ver o arrendamento como uma guerra entre proprietários e arrendatários para passar a regular este negócio de forma a garantir um funcionamento espontâneo e natural de mercado.

É muito provável que em 2030 o mundo tenha continuado a melhorar como tem melhorado consistentemente nas últimas 20 décadas. Portugal continuará a beneficiar dessa melhoria e continuará a consolidar a sua posição no nível 4 (o mais elevado) de rendimentos per capita. Portugal em 2030 será obrigatoriamente mais “pay-per-use” do que alguma vez foi. Será Portugal e será o Mundo.


Por Duarte Cardoso Ferreira, Alumni The Lisbon MBA Católica |Nova e Director Building Consultancy at CBRE

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