À semelhança do que aconteceu com a pimenta da índia ou o ouro do Brasil, também desta vez não saberemos usar bem o dinheiro que a União Europeia destinou para a recuperação de Portugal da crise pandémica. A opinião é do economista João César das Neves, que, ao ser entrevistado na 2.ª edição da “Leading People – International HR Conference” a decorrer durante o dia de hoje – 25 de outubro, das 9h às 17h, na “Líder TV“, posição 165 da grelha do MEO, e através de um webinar sem custos, onde pode fazer o registo aqui – disse que “é muito perigoso”, pois “todas as vezes que tivemos uma pipa de massa a vir de fora as coias correram mal, desperdiçamos dinheiro.”
Estima que teremos um problema para gerir os fundos comunitários- “quase de certeza que não saberemos usar bem os milhões que virão da União Europeia.”
O argumento decorre de uma questão lançada por Catarina Barosa, diretora de conteúdos da conferência da Tema Central, grupo detentor da revista Líder e da Leadership Summit Portugal. Como podemos sair desta crise económica? Na sua opinião, a causa desta crise é um dos maiores monstros da economia e que é o medo. “O que está a gerar a crise é o medo do vírus. Temos de esperar que passe e enquanto isso temos de sobreviver, temos de apoiar as pessoas para sobreviverem.

E é agora que o Estado tem de aguentar- “quando digo agora é agora mesmo, este ano e no próximo”, afirma o professor e presidente da Comissão de Ética da Católica Lisbon School of Business & Economics.
Nesta fase, “a intervenção do Estado é imperiosa.” A questão é saber: a ajuda deve ser dada às pessoas ou às empresas? Para César das Neves este é um debate que iremos ter no futuro quando a tempestade passar.
Em Portugal, com o layoff, optou-se por ajudar as empresas a manter os empregos, mas noutros países como nos Estados Unidos da América a ajuda foi dada às pessoas diretamente. Apesar desta crise ser única porque afetou tato a oferta como a procura ao mesmo tempo, o professor de Economia acredita que é mais uma crise de procura: os restaurantes abrem com capacidade limitada mas sobram lugares sentados porque as pessoas evitam sair para comer fora de casa.
Como descreve a gestão de António Costa nesta crise, lança Catarina Barosa. “Coitado do senhor, caiu-lhe no colo uma coisa horrível. Temos de respeitar quem está numa situação dessas nesta altura.”
César das Neves defende que apesar de tudo Portugal não está politicamente cortado ao meio como acontece noutros países, onde se inclui o Reino Unido – “Portugal tem consenso.” O problema em Portugal para si é que somos diferentes, mas estamos habituados a copiar o que outros países fazem. “Já chegamos a mudar a situação para se assemelhar a outros países e aí podermos copiar”, afirma sem rodeios. Resta pedir a Deus que nos ajude, “é a única coisa que nos salva”, destaca o economista católico como se define.
O que Deus tem a ver com o mercado
“Deus tem a ver com todas as coisas e em especial com o mercado. Porque o mercado é uma das áreas onde o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, está envolvido. Jesus Cristo quando veio a este mundo viveu no mercado da carpintaria”, diz João César das Neves a propósito do seu livro “Deus e o Mercado – Um diálogo provocador entre Religião e Economia”, em que divide a autoria com o padre Vítor Melícias, o jornalista de Economia Nicolau Santos moderou a conversa.

Publicado pela Dom Quixote em setembro de 2020, a obra reflete sobre o sistema capitalista e o valor do dinheiro. “O dinheiro é um mau mestre; tem uma capacidade patente de se tornar divino e dominante na vida das pessoas”, defende, sublinhado: “O dinheiro tem propriedades pegajosas: as pessoas têm dificuldade em se despegar dele.” A ideia central da teoria económica de Adam Smith é que o dinheiro não é valor. E o que as pessoas querem é valor, ou seja, satisfação das suas necessidades.
Sobre a propriedade privada
Outro ponto discutido no livro é se a propriedade privada é algo necessário ou não para o funcionamento da sociedade. “Se tudo for de todos haverá desorganização e ninguém sabe o que é seu. Saber o que é seu é boa prática de gestão.”
A Doutrina Social da Igreja diz que o uso da propriedade privada deve ser comum, mas sem eliminar a propriedade privada. “Se cada um tem direito ao que é seu, tem de ver o seu, não como para si, mas como vindo de Deus, para a sua administração, para todos.”

Em jeito de conclusão, César das Neves diz: “Já experimentámos todos os sistemas económicos e políticos, mas nenhum conseguiu resolver o problema. O ponto decisivo está dentro do coração do Homem.” As avós diziam-nos “porta-te bem, não faças asneiras”, havia tradição, dignidade, cavalheirismo. “Mas numa sociedade quebrada culturalmente é difícil”, destacou para terminar.
“New Leaders, New Workers, New Life” é o tema da 2.ª edição “Leading People – International HR Conference”, uma conferência internacional, focada na Gestão de Pessoas.
Pela primeira vez o evento decorre, de forma totalmente remota, no Centro Cultural de Cascais, mas pode ser acompanhado hoje até às 17h na “Líder TV“, posição 165 da grelha do MEO, e através de um webinar sem custos, onde pode fazer o registo aqui.
O Leading People é uma iniciativa da Tema Central, do Lisbon Hub dos Global Shapers do Fórum Económico Mundial e da Câmara Municipal de Cascais, com a parceria institucional da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, International Club of Portugal, APG – Associação Portuguesa de Gestão de Pessoas e da APESPE RH – Associação Portuguesa das Empresas do Sector Privado de Emprego e de Recursos Humanos.
O evento conta ainda com o apoio da Capgemini, Multipessoal, Axians, Tabaqueira, Multitempo, Consulting House, Sofia Calheiros & Associates, Turismo de Portugal, ASUS, Holmes Place, Lift, FCB Lisboa, Made2web e Carla Rocha Communication Training.
Assista à conversa na íntegra aqui:
