As injeções de anticorpos podem evitar que uma doença leve por COVID-19 se torne grave, mas os tratamentos são caros e difíceis de desenvolver, explica a revista Nature.
Quando Donald Trump adoeceu com COVID-19, os médicos deram-lhe uma série de medicamentos, alguns com provas dadas e outros experimentais. Mas há um que o Presidente dos Estados Unidos da América que está agora a passar o seu lugar na Casa Branca ao vencedor das últimas eleições destacou como a cura para a COVID-19: um cocktail de anticorpos contra o coronavírus produzido pela Regeneron Pharmaceuticals em Tarrytown, em Nova Iorque.
O poder “curativo” deste tratamento com anticorpos ainda não está comprovado. Apesar de se ter mostrado promissor em pequenos estudos iniciais em pessoas com sintomas leves de COVID-19, ainda não foram concluídos ensaios clínicos maiores. Enquanto isso, os cientistas já estão a desenvolver tratamentos de anticorpos mais avançados que podem ser mais baratos, mais fáceis de produzir e mais eficazes.
As terapias com anticorpos podem ser uma ponte para uma vacina contra o coronavírus – mas o mundo vai beneficiar? Os anticorpos são um componente-chave da resposta imune natural do corpo ao SARS-CoV-2, e os investigadores procuram desenvolver terapias que aproveitem a sua capacidade de se ligar diretamente às proteínas virais e impedir a replicação do vírus.
Uma maneira de fazer isso é usando plasma sanguíneo de pessoas que estão a recuperar da COVID-19 para transferir os anticorpos que produziram para outra pessoa. Outra é fabricar e produzir em massa anticorpos específicos contra o vírus que possam complementar a resposta imunológica do corpo, uma abordagem que se tem mostrado bem-sucedida contra outras doenças. No dia 14 de outubro, a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA aprovou um cocktail de três anticorpos específicos, também produzidos pela Regeneron, como tratamento contra o vírus Ébola, após ter mostrado reduzir as mortes do vírus na República Democrática do Congo.
Sucesso no teste inicial
Regeneron e Eli Lilly em Indianápolis, Indiana, lideram a corrida ao desenvolvimento de tratamentos com anticorpos contra COVID-19. Cada um está a testar os seus próprios anticorpos proprietários e solicitou uma Autorização de Uso de Emergência do FDA com base em estudos iniciais promissores. A primeira terapia com anticorpos da Eli Lilly reduziu as visitas ao hospital, de 6% no grupo placebo para 1,7% naqueles que receberam a droga. A combinação de dois anticorpos da Regeneron reduziu os sintomas e as cargas virais.
A principal esperança é que os tratamentos com anticorpos possam impedir a COVID-19 leve de se tornar grave. Há menos otimismo sobre o impacto destes tratamentos em casos graves de COVID-19.
Pelo menos 10 anticorpos COVID-19 estão a ser testados em ensaios clínicos e muitos mais estão em desenvolvimento. Considerando que esses anticorpos se ligam bem às proteínas SARS-CoV-2, muitos desses candidatos podem oferecer algum benefício para pessoas com COVID-19, diz o químico Zhiaqiang An, do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas, em Houston. “Pode haver diferenças de grau”, diz, “mas a maioria desses anticorpos pode ter algum tipo de eficácia.”
Os investigadores procuram formas de minimizar as hipóteses do vírus se tornar resistente a esses tratamentos. Quando apenas um anticorpo é usado, pode ser possível que o vírus desenvolva mutações – no local de ligação, por exemplo – que permitem que o vírus evite o anticorpo.
Os tratamentos que combinam vários anticorpos, como a terapia Regeneron que Trump recebeu, podem diminuir a hipótese de isso acontecer, direcionando o vírus com vários anticorpos que se ligam a diferentes locais.
Ainda assim, existem desvantagens. Os anticorpos são caros e difíceis de fazer e são administrados em doses relativamente altas. Vários estudiosos que conversaram com a Nature destacaram os 8 gramas de anticorpos – a dosagem mais alta testada em testes clínicos – que Trump recebeu. “É uma dose enorme”, diz o virologista Gerald McInerney, do Instituto Karolinska em Estocolmo. Mas, a questão hoje é que “mesmo que funcionasse, com uma dose de 8 gramas, seria incrivelmente caro”, destaca McInerney.
