Chegados nos últimos meses, alguns já em plena pandemia, são vários os livros que prometem boa companhia para os dias mais pequenos que se avizinham. Eis um conjunto de boas escolhas, contemplando temas diversos, do empoderamento à humanocracia passando pela arte de contar histórias. Sim, porque quem não conta boas histórias fica a perder algo enquanto líder.
Sobre gestão e liderança:

Gary Hamel e Michele Zanini: Humanocracy: Creating organizations as amazing as the people inside them (Harvard Business Review Press)
Para aqueles que, entre nós, há muito apreciam o trabalho de Gary Hamel, surge este presente: um livro sobre os custos das burocracias que todos naturalizamos. Escrito a meias com Michele Zanini, a obra fornece pistas sobre formas de libertar as organizações pós-industriais das baias que nos impedem de ver uma organização como uma não-burocracia, como uma humanocracia.

Frances Frei e Anne Morriss: Unleashed: The unapologetic leader’s guide to empowering everyone around you (Harvard Business Review Press)
Muito se fala e pouco se pratica a arte do empoderamento. A proposta deste livro, particularmente poderosa em tempo de pandemia, consiste na defesa da tarefa mais importante do líder como consistindo em desenvolver os outros, puxá-los para cima. Empoderar os outros é um ato crítico quando um líder está presente. Mas também quando está ausente. Um quase manual para liderar em tempo de pandemia.

Benjamin Ferencz: Palavras que tocam a alma (Lua de Papel)
O horror do Holocausto proporcionou lições que importa não esquecer. Viktor Frankl e Primo Levi deixaram obras-primas. Agora chega o testemunho de um procurador dos Julgamentos de Nuremberga. Não tratando estritamente de um livro de gestão, pode ser lido como contendo uma dimensão de liderança pessoal. Por exemplo, não somos obrigados a andar atrás dos outros. Ou, numa bela lição paradoxal, se choramos por dentro é bom que sejamos capazes de rir por fora.
Sobre a liderança como arte de contar:

João Tordo: Manual de sobrevivência de um escritor (Companhia das Letras)
Quem gosta de ler gosta, muitas vezes, de ver o que dizem os escritores sobre o ofício de escrever. Aqui João Tordo abre o seu processo criativo. Gosto de pensar nos líderes como contadores de histórias. Uma forma de aperfeiçoar a sua arte consiste em ver como fazem os que são profissionais da arte. Uma dica: “se queres ser escritor, prepara-te para ficares de coração partido”. Também se aplica a líderes.

Ray Bradbury: O zen e a arte da escrita (Cavalo de Ferro)
Sobre o mesmo tema, escritores falando da escrita, chegou também este momento reflexivo do autor do clássico Fahrenheit 451. O que se disse de João Tordo aplica-se aqui. Um texto, em particular, merece ser lido com grande atenção: “Como alimentar e não perder a musa”. Gosto de pensar que os melhores líderes buscam não apenas resultados mas alguma forma de estética (vide Steve Jobs). A musa de Bradbury importa a quem escreve a história das suas organizações. Ou devia servir.
Sobre o mundo à nossa volta:

Arundhati Roy: Coração rebelde (Asa)
Já era assim mas a COVID-19 veio mudar muita coisa. Compreender a gestão implica acompanhar as mudanças no mundo. Por exemplo, acompanhando Arundathi Roy. De menina querida a voz incómoda, Roy ajuda-nos a compreender as mudanças da Índia. Fala-se muito da China (e bem) mas importa considerar a evolução do outro gigante asiático. As mudanças em curso no subcontinente vão moldar o mundo e “Coração Rebelde” ajuda a compreender essas mudanças. E voltamos a um ponto crítico do triângulo da governação: falemos do Estado e das empresas, mas demos voz às pessoas. É o que faz a escritora de Deli.

Nuno Rogeiro: O cabo do medo (Dom Quixote)
A dança entre a abdicação e a prepotência do Estado é uma das grelhas de leitura da história trágica deste livro: o modo como os vazios e as misérias servem para radicalizar populações e agravar problemas. Neste caso a geografia é Moçambique, tão perto e longe. Mais uma vez: é imperativo fortalecer o triângulo Estado-empresas-sociedade civil. Quando ele falha, emergem o medo e o controlo da violência por organizações da sociedade incivil. Eis aquele que também é o nosso mundo.
Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder
[O artigo pode ser lido na íntegra na edição de outubro, em banca, da revista Líder]
