Liderança: Uma realidade inconveniente

Nunca imaginaríamos estar diante de uma complexidade de cenários como nestes últimos meses. A pandemia do COVID-19 traz um repensar de muitos conceitos e valores pessoais e profissionais. Não imaginávamos possível neste século XXI ser preciso fazer um reset, palavra inglesa que exprime muito bem este estado de transformação.

Defrontamo-nos todos com dois impactos inesperados: a incerteza de continuar a viver e a perda do que temos também como essencial: a liberdade de ir e vir.

Tornamo-nos impotentes, sem escolha, sobre a necessidade de nos isolar e estar à espreita de um contágio pelo vírus que poderia ou não tirar a nossa vida e daqueles que amamos. O estar em casa fez-nos rever o quanto é importante darmos valor ao básico e ao fundamental das nossas existências: as nossas famílias.

No olhar organizacional estivemos também diante destes dois dilemas: sobrevivência e perda da liberdade de vê-la prosperar e gerar resultados visíveis no estado físico dos grande edifícios e ambientes presenciais.

Há uma simbologia que gosto muito, que diz que ao visitarmos uma empresa num fim de semana, estamos a visitar um prédio vazio e sem vida. Ao visitá-la numa segunda-feira, por exemplo, encontramos um edifício repleto de pessoas e com a vitalidade e o entusiasmo que somente nós humanos podemos gerar.

Ao participar em janeiro deste ano no Fórum Económico Mundial de Davos, trouxe comigo a certeza de que a Ecologia e a Economia precisam de caminhar juntas. Não podemos ignorar que a Terra é o nosso stakeholder e que as novas gerações estão certas em exigir mais cuidado com a vida e com essa nave-mãe que envia sinais claros de que o mundo está em estado de urgência. A jovem Greta Thunberg, ativista ambiental sueca, insiste em recordar-nos que o sistema económico atual constitui uma traição às gerações futuras, pelo dano ambiental que provoca.

As maiores empresas do grupo G20, possuem instalações em locais afetados pelas mudanças e imtempéries climáticas. Os seus negócios correm sérios riscos de sofrerem perdas irreparáveis. E um dos quatro objetivos do Fórum Económico chama a atenção para a necessidade de transformar indústrias em modelos de negócios sustentáveis e inclusivos, onde uma nova ordem precisa de ser vista no que concerne a consumo e padrões de relações empresariais que não cabem mais num mundo em ebulição.

No ano passado, participei na Conferência da Organização Internacional do Trabalho, foi uma especial pela celebração dos seus 100 anos,  e assisti ao discurso de Angela Merckel, chanceler da Alemanha, a “líder do mundo livre”, como a intitulam, que chamou a atenção para um mercado de trabalho impositivo: “Os profissionais servem ao mercado, ou é o mercado que deve servir aos profissionais?”. E continou a sua intervenção falando sobre o trabalho infantil: “Tirem as crianças dos campos, crianças não foram feitas para trabalhar, crianças foram feitas para sonhar.”

Está claro que o capitalismo do “shareholder” não nos leva ao que os negócios, os governos e a sociedade precisam. As próprias autoridades do FMI apontam para a necessidade de ter uma economia inclusiva para diminuir a desigualdade no mundo. Por que estão tão preocupados com essa economia? É simples reconhecer que a desigualdade e a perda de poder aquisitivo das pessoas diminuem drásticamente o poder de consumo. Nunca foi dada tanta importância para a compreensão de que economia e a ecologia são parceiras num mundo que clama por sustentabilidade.

Como não nos lembrarmos de Al Gore, ex vice-presidente dos Estados Unidos da América, que começou a chamar a atenção para a situação do planeta no seu livro e depois no filme intitulado “An inconvenient Truth: The planetary Emergency of Global Warming and What We Can do About it”, em 2006? Lembro que muitos o criticaram e consideraram alarmante e inverosímil que isto viria a acontecer.

Creio que não temos mais tempo nem para termos dúvidas. A pandemia trouxe a certeza de que algo não está bem neste planeta.

Com este contexto, gostaria de sugerir alguns pontos de atenção que entendo serem importantes na agenda das lideranças:

  • Há uma urgência de revisitar o propósito da organização para alinhá-la à uma gestão sustentável. Ter uma análise criteriosa de quão longe esse propósito poderá gerar valor a longo prazo na marca empregadora. Uma marca empregadora que reflita uma sociedade em mudança.
  • Revisitar o modelo de negócio para privilegiar o bem comum. Um negócio que gere lucro, mas também gera inclusão e oportunidade de qualidade de vida e de trabalho.
  • Entender que precisamos da Inteligência Artificial para o suporte da gestão, mas que ela se restringe apenas como instrumento e será o ser humano a analisar os dados gerados e a tomar as decisões.
  • Atenção à requalificação dos profissionais por termos a urgência da 4.ª Revolução Industrial que desnuda o despreparo para as novas demandas das profissões que já estão a ser requisitadas. A parceria com as universidades e escolas de negócios serão vitais neste processo.
  • Privilegiar a diversidade como fator fundamental para uma equipa que espelha a sociedade e privilegia uma gestão de valor ao ser humano. O pensamento diverso levar-nos-á a procurar soluções coletivamente, onde não há espaço para a seletividade por raça, credo e outros.
  • A felicidade no trabalho não é uma mera filosofia, ela aflorou agora no home office imposto pela pandemia. Ambientes organizacionais que promovam o bem-estar e felicidade geram melhores resultados e orgulho de pertença.
  • O planeamento a curto prazo é importante, mas não podemos perder o de longo prazo. O de curto prazo traz a realidade aumentada na qual estamos inseridos e o de longo prazo faz com que procuremos e estudemos os cenários futuros imprevisíveis. Temos uma tendência a planear o longo prazo com cenários previsíveis e neste mundo em mutação, precisamos de nos habituar a estudar mais profundamente o que está por vir.
  • Dar atenção a dotar as organizações com as novas gerações e ter delas esse “olhar ecológico” por sonharem com empresas que gerem valor no mundo. Tudo isto ajuda a entender que as empresas não podem insistir em gerar apenas negócios numa sociedade que clama por um mundo sustentável.
  • O mesmo peso deve ser dado às gerações mais experientes. Durante muitos anos vimos um processo seletivo nas empresas excluindo as antigas gerações, que poderiam contribuir na análise e no suporte da tomada decisão. Com a Inteligência Artificial, temos as informações e os dados nas nossas mãos e precisamos escolher a melhor decisão. Estas gerações têm o conhecimento e a experiência que as empresas precisam.
  • Modelos ágiles sim, porém com a simplicidade que aprendemos a valorizar. Precisamos regressar à essência e à geração de valor que perdemos ao criar sistemas complexos que não cabem mais nas organizações pós-COVID.

O melhor de tudo é reconhecer a importância dos líderes e o seu papel transformador diante de incertezas que vivemos com esta pandemia. Saímos de um mundo linear de soluções, para um mundo de decisão em cima do risco.

Qual o lado da história que quer estar enquanto líder?


Por Leyla Nascimento, CEO do Grupo Capacitare, vice-presidente de Relações Internacionais da ABRH Brasil e ex-presidente da WFPMA – World Federation People Management Associations

[Artigo publicado na edição de outubro, em banca, da revista Líder]

 

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