Medo, confiança e COVID-19: Uma bibliografia

A pandemia de COVID-19 gerou uma pequena vaga de edições alusivas à crise gerada. Os títulos, alguns escritos de propósito para este evento, outros publicados a propósito de epidemias e contágios, em geral, oferecem uma visão prismática do tema.

Mostram também, explicitamente em muitos casos, que a confiança – nos líderes, nas instituições – é a arma mais poderosa contra o medo. Slavoj Žižek, por exemplo, explica que a desconfiança entre o povo e o Estado chineses foi um fator crítico para a difusão da pandemia e da pandemia de medo que a acompanhou.


Slavoj
Žižek
A pandemia que abalou o mundo
Relógio d’Água
O famoso filósofo esloveno apresenta um breve livro que é uma coleção de reflexões entre o tom introspetivo e os olhares sociológico e filosófico. O livro lê-se com gosto e rapidez e deixa um conjunto de ideias interessantes. Uma é a ideia de um estilo de liderança política a que chama “Putogan”, uma mistura de jeitos autocráticos que se aproveitam da crise para aprofundar as suas agendas políticas. A sua ideia mais importante é, todavia, a defesa de um regresso ao comunismo. Mas de um comunismo que confie no povo, ao contrário do comunismo chinês que dele desconfia.


José Eduardo Carvalho
Economia COVID-19: A catástrofe com face humana
Sílabo
A COVID-19 é uma pandemia com face humana, tal como expresso no subtítulo. O livro explana a forma como, além das catástrofes de origem natural, como parte da vida desse organismo vivo que é o planeta, nos confrontamos com catástrofes que são da nossa própria produção. A globalização pode ser um acelerador de contágio. Neste livro, José Eduardo Carvalho, da Universidade Lusíada, explora o fenómeno das catástrofes e as suas dimensões económicas. O modo como entrelaça estas três dimensões (o mundo natural, o social e o económico) oferece uma panorâmica sobre o que poderá vir a ser o novo normal. E deixa esta nota: a forma como devemos pensar para resolver um problema não deve ser a mesma que produziu o problema, em primeiro lugar.


Bernard-Henri Lévy
Este vírus que nos enlouquece
Guerra e Paz
Bernard-Henri Lévy, tão famoso que é por vezes referido como BHL, é porventura o mais famoso intelectual francês da atualidade. Destaca-se pelo look mas também pelas reflexões em torno da atualidade. Neste texto, sobre o vírus que nos enlouquece, trata de forma crítica algumas consequências negativas do germe que nos meteu a todos nas nossas tocas kafkianas, que nos pôs a fazer poesia sobre como o céu ficou mais azul e ainda sobre a doutrina higienista como pretexto para muitas coisas que se vão começando a ver.

 


Boaventura de Sousa Santos
A cruel pedagogia do vírus
Almedina
Numa perspetiva sociológica, Boaventura de Sousa Santos apresenta as lições que retira desta pandemia. O texto vem marcado pela ideia da falência do modelo neoliberal e pela necessidade de mitigar as desigualdades que ele cria. O texto lê-se com muito interesse e coloca o dedo em várias feridas do modelo da sociedade (em oposição a uma economia) de mercado. A mensagem do autor é a de que que importa recuperar o papel e a centralidade de um Estado fragilizado pelos avanços neoliberais. Concorda-se, discorda-se e lê-se com gosto.

  


Jaime Nogueira Pinto
Contágios: 2 500 anos de pestes
Dom Quixote
Se os demais livros nesta bibliografia lidam com a COVID-19 enquanto fenómeno biológico, sociológico ou político, este propõe uma perspetiva diferente e muito apelativa: estudar 2 500 anos de contágios. Estuda os contágios, as pestes, como fenómenos históricos e culturais.  Basta recordar o terror com o qual ainda hoje a peste negra é acolhida para percebermos quão indelevelmente as pestes têm marcado a História e a cultura. Entrecruzando a Bíblia, Homero, Shakespeare e Thomas Mann, entre muitos outros, a história dos contágios é também uma forma de ler a história dos humanos.

Por Miguel Pina e Cunha

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