Se tivermos tesouraria, estamos bem

Renegociar, ter paciência, compreender a situação difícil para todos, e acreditar que o futuro que vier há-de sempre constituir uma oportunidade. Desde que haja valores, desde que o Homem se saiba pensar enquanto um coletivo. No imediato, saber a todo o instante que o amanhã está cheio de incertezas e que a melhor maneira de enfrentar essa realidade é estar preparado. Como diz António Cunha Vaz, fundador e presidente do Grupo CV&A, cash is king.

Quando é que ouviu falar pela primeira vez da crise e nomeadamente da COVID-19? Que medidas imediatas tomou?

Talvez por volta de fevereiro. Lembro-me que a primeira reação ao assunto surgiu quando foram questionados dois congressos internacionais, um na Austrália, outro na Córsega, e concretamente por via de questões ligadas ao perigo de contágio em aeroportos. Inicialmente falou-se muito dos aeroportos enquanto pólos de difusão deste vírus. Eu estava fora, no Senegal, e voltei para Portugal no dia 18 de março, no último voo antes do fecho dos corredores aéreos, e a primeira coisa que disse à minha família quando cheguei foi que tínhamos de ter alguns cuidados em casa, o mesmo que transmiti aos meus colegas, logo nos dias 21/22, quando entrámos em teletrabalho. Lembro-me que duas colaboradoras, grávidas, ficaram logo em casa. Evitei também no imediato contatos de proximidade e um colega propôs o Teletrabalho como medida temporária. E assim foi. E tem corrido muito bem.

Como foram as reacções a tudo o que se estava a passar?

A nível empresarial, devo dizer que a nova realidade enfrentada foi interessante sob o ponto de vista de gestão de pessoas. O teletrabalho para nós, de resto, não era de todo uma realidade desconhecida. Já tínhamos clientes internacionais que funcionavam em teletrabalho em alguns casos, tal como nós mesmos usamos teletrabalho por duas razões. Dois de nós viajamos muito. Temos escritórios em Angola, Moçambique, Brasil, Espanha e Colômbia e, logo, quando estou fora funciono em teletrabalho. Um dos meus sócios, na verdade, é grande defensor do teletrabalho. Os nossos chefes de escritório lidam connosco através de plataformas de vídeo ou áudio conferência oque é o meso que em teletrabalho, como agora se diz.

Alguns colaboradores (como os de design , digital e produção de eventos) mostram que temos excesso de espaço físico no escritório e isto vem em favor da contenção de custos da empresa, mas foi pensado quando estávamos na “fase boa” e não na “fase má”. Agora estão alguns em teletrabalho e alguns na empresa é diferente. Com todos em casa é preciso encarar a gestão de Recursos Humanos com outras preocupações. Há quem não se adapte.

E como decorreram as coisas? Houve incidentes?

Houve um ou dois casos caricatos. Graças a Deus tenho uma equipa na qual, diria, 90% se pode confiar em todas as circunstâncias. Quanto aos outros 10%, não é que sejam menos profissionais, mas são mais reativos e esses são mais difíceis de gerir em alturas destas. Há que inventar coisas para eles fazerem ou então, se não quiserem trabalhar, dispensá-los. Mas, em geral, a equipa reagiu muito bem ao teletrabalho, talvez pela forma como lhes explicámos o tema: todas as segundas-feiras, às 9h30, temos uma reunião geral: Diretores da empresa, Diretores-adjuntos e Administração. Eu quase sempre participo via teleconferência e, portanto, agora a diferença é que temos todos de fazer o mesmo. E temos de ter resultados e produzir. Uma das coisas que introduzimos como medida foi que todos apresentassem até às 12h00 de cada segunda-feira um relatório com o que tinham feito na semana anterior e o que iriam fazer na semana seguinte. Na primeira semana e meia e constatando que andavam todos a tentar adaptar-se e não havia muito feedback do que se fazia foi a medida mais apropriada para evitar risco de perda de controlo. E todos tinham/ têm de entregar o relatório, desde a secretária, que está encarregue de consultar os portais dos concursos públicos e que coordena os telefonemas entre todos, até ao diretor X ou Y. É importante que todos façam parte da equipa que está a trabalhar no escritório.

Portanto, isso ante a possibilidade de se perder o controlo da situação.

Exacto. Se não se controla no início, daí por três semanas pode perder-se por completo a mão! Tive um caso interessante, a respeito das igualdades de género – com as quais genericamente concordo, mas às vezes os próprios defensores dessas igualdades é que não fazem por serem iguais. Exemplo concreto: liguei para uma colaboradora minha às 10h e ela perguntou-me se podíamos falar um bocadinho mais tarde porque estava no supermercado. Nós avisámos que as pessoas não estavam de férias, mas a trabalhar. Liguei-lhe às 12h15; estava a fazer o almoço e deu-me a seguinte resposta: estou a fazer o almoço porque o meu marido tem de trabalhar para a empresa dele. Eu perguntei: então e você está de férias, tirou férias? Não tem também de trabalhar para a empresa onde trabalha? Ah, é que não é a mesma coisa – respondeu. É que o meu marido, lá na empresa, como ele é homem… “Ah, a minha amiga que está sempre com ar reivindicativo a dizer que somos todos iguais, diz agora que os homens devem ir trabalhar e que as mulheres devem ficar em casa a lavar a loiça. Eu acho que cada um de nós tem as suas funções e que não somos todos iguais, mas como sou o seu patrão vou dar-lhe um conselho. Se me volta a dar uma resposta dessas tem dois caminhos: ou se demite ou eu demito-a.” Depois, numa reunião geral, dois dias depois, falei no tema, não na pessoa, e ela mesma assumiu que tinha sido infeliz.

Mas deu a entender terem-se passado mais casos caricatos…

Pois, este não será tanto caricato, mas revelador quanto às pessoas e ao momento que passamos. A grande questão nestes momentos de crise é saber que “cash is King”; ou seja, se tivermos tesouraria estamos bem. Porque podemos ter uma empresa economicamente saudável mas se não tivermos tesouraria diria que em três tempos as coisas podem complicar-se. Chegámos a um momento no em que alguns clientes podem pedir reequacionamento de avenças, tal como nós vamos ter de reequacionar com os nossos fornecedores. Quem não fizer isso é porque não está a olhar para a empresa como deve fazê-lo. E eu, que tenho a maioria do capital da empresa, informei os meus sócios – quatro administradores, um no Brasil e três cá –, que este ano a minha vontade vai no sentido de não serem distribuição de dividendos, nem bónus. E todos aderiram. Em Dezembro já saberemos melhor o que estará a passar e com o que podemos contar. Depois chamámos os Diretores e informámo-los, pois em 2019 demos prémios relativos a 2018 a todos os colaboradores. A primeira reação foi um “ah, mas trabalhámos tanto no ano passado”. Mas depois perceberam. Preferimos não dar bónus, proteger a tesouraria e ter uma almofada grande, mesmo que não seja necessário vir a utilizá-la. Assim, em Dezembro, se as coias estiverem a correr bem, e não for preciso utilizar a tesouraria de reserva, serei o primeiro a propôs a atribuição dos bónus, porque alguns deles merecem. Este ano até é um ano interessante porque muitos deles mostraram a importância do terem recebido o bónus e trabalharam mais por isso; outros acomodaram-se achando que o prémio era coisa garantida. Só tive uma reacção má e que não esperava.

Voltando um pouco atrás, e a nível pessoal e familiar, como foi enfrentar esta nova situação?

Em casa mantivemo-nos “separados”. Eu em janeiro tive três semanas com uma pneumonia. Não sei se já era o vírus, mas se foi, passou e agora não tenho sintomas. Mesmo assim, mantive as distâncias para não fazer os outros correr riscos. Minha mãe tem 83 anos e portanto esse dado exigia cuidados redobrados. No início falávamos e ajudava à distância; ia, por vezes, fazer as compras, desinfetava tudo, deixava à porta. Por outro lado, se antes a vida profissional nos deixava pouco tempo para o lado familiar, agora esta situação está a dar-nos esse tempo. E tenho também mais tempo para mim. Tenho feito passeios a pé, à volta de uma hora, logo de manhã ou ao fim do dia, quando não há ninguém na rua. Profissionalmente, cancelei todas as viagens que tinha. Após o desconfinamento começámos a alargar contactos mas sempre com as precauções necessárias e cumprindo a lei e as determinações da DGS. O contacto com a família regressou, mas ainda não está como estava antes da pandemia.

Quais foram as primeiras reações e sentimentos que experimentou face a tudo o que se estava a passar e, sobretudo, relativamente ao modo abrupto como tudo aconteceu?

A primeira reacção foi de revolta. Logo numa altura em que o País estava a reerguer-se… E confesso que ao contrário do que a maioria das pessoas quer, eu não sou apologista dos apoios de financiamento do Estado, da Segurança Social que pagam depois. Porque quem aceita isto de bom grado não percebe que Portugal tendo uma estrutura de sociedades com 95% de PME não tem solidez para se misturarem medidas para as Médias com aquelas para as Pequenas. As Pequenas empresas vivem ao mês, não têm um pingo de tesouraria a mais. Os patrões não têm espírito de patrão, têm o espírito de que aquilo é o emprego deles, em que eles mandam e, portanto, tudo o que podem retirar da empresa, retiram. E as empresas que não estão capitalizadas não se aguentam. Dois exemplos: Como é que os pequenos restaurantes, mercearias, cabeleireiros, podem pagar 33% de um funcionário que está em layoff sem terem nenhuma entrada de dinheiro? Os patrões não aguentam e mesmo que aguentem três meses ou quatro meses, quando voltarem têm de pagar a Segurança Social daquele mês mais um bocadinho da atrasada. Ora, se eles já pagam a daquele mês com muitas dificuldades como é que vão conseguir pagar a daquele mês e a atrasada? Outro exemplo: para muita gente que tem o seu salário hipotecado ao crédito ao consumo – houve gente que acabou de comprar carros, ecrãs plasma, férias com empréstimos, etc., etc. Essas pessoas não vão ser reembolsadas pelas agências de viagens. Sei de gente que ganha €1.500 e outros €1.200 por mês e vão à Tailândia e às Maldivas. Não sei como vão, mas vão. Encontram viagens e hotéis baratos na internet. Desta feita pagaram com empréstimos e não foram. Mas têm que pagar os empréstimos.

Portanto, uma série de problemas em cadeia e em catadupa.

Sim. Houve assim uma panóplia de problemas que me vieram à cabeça. E também me veio à cabeça uma situação pessoal na nossa empresa, Cunha Vaz e Associados e noutras em que tenho participação qualificada. A CV&A tem em Portugal cerca de cinquenta empregados, tem um encargo anual muito elevado, em salários e contribuições para o Estado, rendas, etc., e houve uma situação complicada que vivemos no passado, em 2012, com um trabalho grande que fizemos em Angola em 2010, e que não nos foi pago. Sofremos, também, com o fecho da Ongoing, apanhámos com o fecho da Rio Forte, ESSI, PERs da Soares da Costa, Opway, Tivoli, Grupo Catarino… Enfim, perdemos cerca de €7,5M de negócio. Angola foi a maior perda. Tivemos de registar imparidades de tudo isso. E agora que já tínhamos lutado tanto – e os Bancos nessa altura estiveram do nosso lado, por isso não alinho nas críticas gerais à Banca – apanhámos com esta crise a todos os níveis desconhecida e imprevisível. Já agora, no que respeita à Banca, em Portugal esquecemo-nos rapidamente que se não fosse a Banca não havia empresários. Estes indivíduos muito ricos que aparecem nas revistas só exibem os ativos deles, porque se puserem lá o passivo nenhum deles é muito rico! Mas, concretizando, nós vínhamos desta fase muito negativa e estávamos a dar a volta muito bem, com sucesso! As nossas contas estão depositadas, não há segredos. Tínhamos feito as contas para pagar todas as dívidas até final de 2025 e se tudo estivesse a correr bem iríamos conseguir pagar tudo até final de 2020! Ainda vamos lutar por isso mas a decisão só vai ser tomada neste último trimestre. É claro que isto foi com grande sacrifício dos acionistas, que, em vez de receber dividendos, foram pagando os empréstimos. Mas acho que isso é a posição correcta de qualquer investidor sério. Se foi a empresa que lhe permitiu que ele tenha a vida que ele tem e está com dificuldades cabe-lhe nessa ocasião ajudar a empresa para a vida dele voltar a ser outra vez mais folgada. Como costumo dizer, é preciso ser sério. A nossa crise é fartura de muitos. Nunca falhámos salários e impostos, mesmo perante a vergonha que se passa na fuga às contribuições que se vive no país. Isto foi o que nos preocupou. Portanto, logo quando tudo estava a correr bem, quando contávamos acabar com as dívidas todas…

Com sinceridade, isto agora vai fazer cair o negócio. Sendo optimista, vai fazer cair o negócio entre 25% a 30%.

Quais foram as reações tomadas em real time?

Imediatas, foi a do teletrabalho. Depois, dentro da Tesouraria, olhar para os fornecedores mais pequemos e pô-los na lista de pagamentos imediatos porque que são os que mais precisam. Às vezes não ligamos e olhamos só para os grandes. Exemplo: a empresa de estafetas que tem dois empregados, o contabilista, a gráfica que faz pequenos trabalhos. Depois, chamar os fornecedores maiores e dizer, meus amigos de certeza que os meus clientes me vão pedir uma adaptação da nossa avença àquilo que são os tempos que correm, e eu vou também pedir aos senhores que olhem para o que podem fazer. Era importante não cortar avenças. Tomámos também uma iniciativa muito interessante e de que os clientes gostaram muito. Refiro-me a três clientes pequenos a quem mandámos uma nota dizendo: “Dado que vamos entrar num período que vai ter um menor consumo de horas propomos uma redução da avença em 50% até ao final do mês de agosto, retomando-se em setembro, conforme esteja a situação, a avença normal.” Ficaram deleitados. Um até ligou a dizer que tinham no dia anterior decidido em CA cortar algumas avenças e uma delas era a da Comunicação. Perante esta nota já não a cortaram!

Quais as preocupações com que lidam a curto e médio prazo? Sob o ponto de vista estratégico, o que mudou?

As coisas já vinham mudando. Esta actividade da Comunicação nunca foi bem uma actividade empresarial. Há muitas eugências (agências de uma só pessoa). Cada indivíduo que é despedido leva um cliente ou dois, e pelo menos tem ali um bocadinho de mercado para ele. São pessoas. A maioria são ex-jornalistas que fizeram a sua empresazinha e meia-dúzia fica grande, mas a maioria deles não são empresários. Em termos associativos também temos pouca força. Quando o associado discute tostões de quota a associação do sector não pode representá-lo em condições. Como não somos muito fortes o primeiro ponto da minha postura é que façamos tudo para o sermos. E vai ser sempre assim. O problema das pequenas agências é que baixam os valores, porque estão sozinhos, não têm estrutura e o mercado é finito. Estou a falar de Comunicação e não de Publicidade. Comunicação é o que fatura mais. Eu tenho uma marca. Outros têm dezassete marcas e vão fechando ou abrindo empresas conforme têm problemas fiscais, mas isso não me diz respeito. Outros têm marcas diferentes para ultrapassar conflitos de interesse. Nós optámos pela transparência. A CV&A, individualmente, de entre aquelas que cumprem a lei e apresentam contas é a que fatura mais no mercado.

Mas com esta situação, sob o ponto de vista estratégico, houve alguma coisa que mudou?

Claro. E mudou bastante. Já vinha acontecendo escolhermos algumas áreas de negócio onde nos queríamos posicionar mais. Essas áreas têm que ver com a Comunicação Institucional – Corporate Comunication, Financeira – Investors Relations das cotadas, sete das dezoito do PSI 20, era o que fazíamos muito.  Fazemos agora menos comunicação de produto mas temos quatro ou cinco grandes marcas das quais nos orgulhamos muito. Mas continuamos a desenvolver trabalho para grandes fundos financeiros internacionais, empresas cotadas, e depois uma área de interesse para o futuro, o que chamamos Public Affairs, que quando houver legislação será a base de um negócio que se estenderá até ao lobby. Como em Portugal o lobby ainda não está regulamentado, esta área é a da Corporate – Comunication e é para onde estamos a olhar, porque é aquela que te permite pôr um pé no fomento dos novos negócios. Noutra vertente, estamos igualmente a fazer a ligação entre os grupos de empresas estrangeiras e os contactos em Portugal. Estamos a elevar o nível da nossa empresa com juristas, gestores e a parte da assessoria de Imprensa a ter uma parte muito mais pequena na nossa actividade. A assessoria de Imprensa só é interessante quando há crises de despedimentos ou grandes casos de litigation em Tribunal. Entretanto, num plano mais concreto, já fizemos um estudo de até onde podemos aguentar (Portugal) sem reduzir o número de trabalhadores. Todas as outras operações estão equilibradas.

Qual foi a descoberta mais surpreendente que retirou deste processo?

Do ponto de vista pessoal…Descobertas/ surpresas, diria: as empresas que escondem o verdadeiro estado das suas contas e que se descobre, neste momento, que não têm capacidade para nos contratar. “Engraçado” também descobrir que há empresas grandes a aproveitar-se largamente desta situação para protagonizar. Descobrimos campanhas carregadas de hipocrisia, supostamente a apoiar Portugal e os portugueses (o exemplo dos preços das máscaras e luvas de proteção). A mais negativa de todas foi saber de empresas que não estão a pagar segurança social e irs, que beneficiam de moratórias, que têm colaboradores em lay off e que, ainda assim, distribuíram dividendos e prémios às chefias e aos proprietários. Mas também houve surpresas positivas.

E qual a grande lição que retirou desta crise?

Esta é a segunda grande crise que passamos e não vai ser a última, e reforçamos nesta uma decisão importante que já tínhamos tomado aquando da outra. Temos de estar preparados, isto é, o dinheiro das empresas não é apenas para dar aos acionistas, mas para guardar um bocadinho de lado para estarmos prontos para numa próxima crise podermos aguentar o embate. Já na primeira crise aprendemos isso e pusémos o ensinamento agora em prática nesta (nem toda a gente aprendeu na crise anterior). Muita gente voltou a construir hotéis e Airb&b em Lisboa, Porto e por todo o lado e agora estão todos ‘atrapalhados” e a dizer que a culpa é da banca e que o Estado deve ajudar. Assim é fácil. O negócio só é deles quando dá lucro. Quanto aos bancos, toda a gente está contra, mas os bancos pagaram ao Estado juros altíssimos. Nós emprestamos o dinheiro (impostos, etc.) mas o Estado recebeu juros altíssimos da banca. Faz pena ver e ouvir líderes políticos que julgávamos responsáveis dizer que a banca não pode lucrar. Se não fosse a Banca, e agora digo nomes, não existiam alguns dos “grandes empresários” que temos e que deixam imparidades que acabamos pagando com os nossos impostos. E louvo a coragem do Faria de Oliveira que defendeu bem a Banca. A Banca é necessária num país de empresas descapitalizadas. A não ser que queiramos seguir a estratégia do Bloco e do PCP: destruir para nacionalizar.

O que é que gostava de passar enquanto exemplo à sua família?

Que nós vivemos em sociedade. E aqueles de nós que vivemos em privilégio face à maioria temos a obrigação de ajudar os mais desfavorecidos, temos de ser os primeiros a cumprir as regras para que o país entre nos eixos. Temos de adequar o nosso desejo de trabalho futuro com o que vai ser o futuro do mundo. Digo sempre às minhas filhas, goste-se ou não, que sejam sempre independentes. Não dependam de maridos nem de namorados, ou de mulheres. Não dependam nunca de um cônjuge. Até agora o que têm foi-vos dado, mas para manterem o nível de vida têm de trabalhar muito, tal como viajar, ler, etc. Ser profissionais em tudo o que fazem e saber respeitar quem nos respeita. Quem não nos respeita não merece respeito. O que lhes digo, e com respeito por todas as profissões é que se quiserem ser professores ou empregados numa pastelaria têm que saber que o futuro vai ser diferente para essas profissões. O outro ponto que considero fundamental para todos nós é termos uma capacidade linguística ampla. Falar várias línguas e arranhar outras. Lembro-me sempre: estudei dois anos na África do Sul, aprendi um bocadinho de Afrikaner e um dia, numa reunião, em Bruxelas – trabalhei dez anos na CE – fiz um comentário a três holandeses que estavam a falar holandês, mas que deviam estar a falar em inglês. Não percebi nada do que eles me disseram mas eles ficaram a achar que eu tinha percebido tudo porque fiz o comentário em holandês. Ainda há pouco tempo fomos a Londres, a um restaurante Grego, e eu quando trabalhei na Comissão tive uma secretária grega que se chamava Nassica e aprendi umas expressões com ela, e peguei no menu em grego, pedi água em grego… Os meus colegas perguntaram, «mas tu falas grego?» No final pedi à senhora a carta para as sobremesas e quando foi para pagar pedi a conta. Mas como é que tu falas grego? E eu disse: pergunta lá à senhora se eu falo grego, e a senhora respondeu: «O senhor percebe o que eu estou a dizer, eu não percebo nada do que ele diz». Falar e escrever quatro ou cinco línguas, e “arranhar” mais duas ou três é sempre bom. E tenho muita pena de não falar dez ou doze. Ir à Rússia ou à Hungria ou a um país Árabe e não perceber nada do que está escrito mostra como se sentem os analfabetos. Por muitas contas que saibam fazer.

As suas filhas estão a passar por tudo isto, mas o que é que diria aos seus netos, daqui a 20 anos, sobre esta situação que estamos a viver? O que lhes passaria como avô?

As pessoas, dizem-se cristãs e humanistas mas criticam terceiros, falam de tudo e mais algo, mesmo que não saibam o que dizem. Está de moda falar fácil e agradar, atacando os que trabalham e aforram, está de moda fingir preocupações com racismos e outras discriminações, mas nada é real. Ou melhor, quase tudo é folclore.  Temos visto manifestações porque sim e porque não. O melhor ou pior exemplo é a autorização da festa do avante se comparada com as não autorizações com outras manifestações culturais e desportivas. Apregoar boas intenções e valores comportamentais, por si só, não serve de nada se não praticarmos actos consentâneos com esses valores no nosso dia-a-dia. O que passarei aos netos é que o mundo é feito daquelas pessoas que têm respeito pelo próximo. Os outros são apenas a espuma dos dias. São capas de jornal que amanhã forram caixotes de lixo. Mesmo que, por vezes e no imediato, pareça não ser assim.  A preocupação com o próximo, com os mais fragilizados deve fazer parte do nosso dia-a-dia. A construção de um mundo melhor, um mundo no qual todos possamos viver com dignidade deve ser o valor supremo.

Se existissem agora mostrar-lhes-ia os dois lados da crise: gentinha que anda a vender máscaras que custam 0.42 cêntimos a €3,5. Não estou a falar do chinês da rua. Estou a falar dos grandes importadores que vendem aos Estados em quantidades gigantescas. Daqui a seis ou sete meses, quando isto passar, vai-se começar a investigar e vai saber-se disto tudo. Gostava que contribuíssem para que a justiça fosse mais que a aplicação da lei substantiva e processual, gostava que contribuíssem para um jornalismo de qualidade e não sensacionalista nem comprometido (ainda há algum, graças a Deus), gostava que contribuíssem para o incremento de políticas sociais (saúde, educação, assistência social) sérias e que conseguissem viver num mundo em que se percebesse que ser de esquerda e de direita não é igual a queimar carros e partir lojas ou querer pobres e ricos.   Alguns valores da decência que vão rareando são as minhas preocupações.

Numa palavra, o que representou a Covid 19?

Quatro palavras: Um teste à resiliência!

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