Novo normal, nova realidade, nova expectativa, novo de novo… Muitas pessoas estão a fazer prognósticos de como voltaremos à realidade em que vivíamos. A expectativa de voltar a realidade é tão grande, que não queremos nem sequer pensar na possibilidade de uma segunda vaga. Mas ela já está aí, pois parece que ainda não aprendemos que algo necessita realmente de mudar.
Na minha opinião, a vida que levávamos não tem nada de normal. Vivíamos, e ainda vivemos, num mundo com tantas diferenças, que falhamos terrivelmente na nossa capacidade de gestão e liderança, sejamos empresas públicas ou privadas, falhamos como governo e como sociedade.
Nunca o mundo esteve tão dividido: ricos/pobres, esquerda/direita, nós/eles, os que estão a favor/os que estão contra… e a lista continua. Pense no seu pequeno ciclo social… quantas diferenças extremas existem na sua vida?
Vou expor o meu ponto de vista utilizando os objetivos de desenvolvimento sustentável – ODS. Em setembro de 2015, uma assembleia da ONU com 193 países definiu a agenda de sustentabilidade, denominada Agenda 2030. São 17 objetivos de desenvolvimento sustentável, demonstrados na seguinte imagem:

Vamos, então, refletir sobre o que descobrimos com esta crise e quais as oportunidades que estamos a perder. Já se passaram cinco anos e isto é o que apelidamos de normal.
ODS 1 – Erradicar a pobreza
Esta foi a camada da sociedade mais afetada, visto que trabalham em pequenos negócios e foram extremamente prejudicados. Fomentar os pequenos negócios é promover o consumo sustentável e dar uma oportunidade a quem faz girar a economia.
ODS 2 – Erradicar a fome
Vivemos, já anteriormente à crise, uma situação desequilibrada entre produção e procura. Atualmente, não existem condições na agricultura para alimentar toda a população do mundo e muito do que produzimos desperdiçamos. Tem visto notícias sobre o desperdício de comida? Em Portugal, 1/6 da comida vai para o lixo, comida esta que poderia alimentar 50 mil pessoas por dia.
ODS 3 – Saúde de qualidade
Talvez este tenha sido o setor mais afetado, uma vez que os hospitais ficaram cheios para atender os doentes da COVID. Ficou claro que o setor precisa de se transformar, a fim de dar respostas coordenadas mais rápidas e eficientes. E quem mais sofreu foi quem mais precisava de atendimento.
ODS 4 – Educação de qualidade
Outro setor que precisa de transformação. A necessidade do distanciamento social colocou as crianças fora da escola, provando que o sistema de educação precisa de evoluir. Não digo somente no sentido tecnológico, mas na maneira de educar. O modelo de aprendizagem baseado em decorar sem questionar está ultrapassado, e as aulas “online” demonstraram a sua ineficiência. Está na hora de mudar.
ODS 5 – Igualdade de género
Gostaria muito de ver as empresas e os governos a trabalharem este assunto de forma séria. O confinamento fez perceber a muitos homens o quanto uma mulher trabalha para manter a casa e como seria mais fácil se todos repartíssemos tarefas. Ninguém nasce a saber tudo e todos podemos aprender. E se os líderes pretendem ser justos, deveriam seguir o exemplo da Islândia, que publicou uma lei que proíbe pagar salários diferentes a homens e mulheres com as mesmas funções.
ODS 6 – Água potável e saneamento
Somente nos apercebemos o quão importante é esta dimensão, quando não a temos. A água deveria ser um bem mundial de livre acesso, pois sem ela não conseguimos viver. É um bem que, se não for bem gerido, acabará por esgotar. Muitos já a chamam de “ouro do futuro” e, hoje, já existem alguns países que estão a armazená-la para as gerações futuras. A desertificação das áreas está intimamente relacionada com a forma como cuidamos deste bem natural. Em
Portugal, cerca de 63% do território foi classificado como área suscetível à desertificação.
ODS 7 – Energias renováveis e acessíveis
Neste objetivo temos assistido a um grande crescimento, e falo com conhecimento de causa, visto que já trabalhei no setor. Mas ainda estamos longe de ultrapassar o consumo excessivo de recursos naturais na geração de energia, bem como de tornar essa energia acessível para todos. Grandes multinacionais dominam o setor e determinam como consumimos e o que consumimos. Contudo, as pequenas startups estão a começar a aperceber-se deste facto. Assim sendo, espero
que consigam criar uma disrupção tecnológica.
ODS 8 – Trabalho digno e crescimento económico
Gostaria de ver as empresas a crescer com valores humanos, e sou um grande apoiante das exigências da governança corporativa, denominada ESG: Environmental, Social and Governance. Os líderes que estão a pensar unicamente no seu crescimento a curto prazo, estão com os dias contados. É preciso considerar todos os stakeholders para se liderar com dignidade. Mas ainda vemos empresas a oferecer trabalhos com subcondições de existência, ou até mesmo abaixo do
valor mínimo estipulado legalmente, com vista à alta rentabilidade dos seus negócios. Esta é uma situação que não é sustentável e não deve perdurar.
ODS 9 – Indústria, inovação e infraestruturas
Continuamos a precisar de um grande debate neste ODS. A tecnologia veio para ficar e fala-se bastante na Indústria 4.0, conectada e eficiente. Mas será que estamos preparados para esta transformação? Muitas empresas ainda pensam que isto significa uma redução de pessoas, através do uso das tecnologias e de trabalhos repetitivos. Pode ser que sim e talvez faça sentido. Porém, é preciso qualificar pessoas com novas habilidades e criar novos empregos. Não fazer isso agora, é simplesmente criar uma situação insustentável para o futuro. Com a falta de talento é necessário investir na formação dos colaboradores, pois se o talento é limitado, o sistema estará sempre em desequilíbrio.
ODS 10 – Reduzir as desigualdades
Não quero dizer que todos sejamos completamente iguais, mas sim chamar à atenção para as desigualdades sociais e humanas. Atualmente, a riqueza mundial encontra-se apenas em 1% da população, que contém 80% da riqueza mundial e não é afetada por crises ou situações extremas. A camada mais pobre foi a mais afetada na pandemia, sendo por isso fundamental balancearmos esta pirâmide.
ODS 11 – Cidades e comunidades sustentáveis
Mobilidade e soluções para o crescimento das cidades já existem, contudo, vamos adiando estas mudanças. Veja o que aconteceu com a qualidade do ar nas grandes capitais. Voltámos a ver o céu mais azul e a respirar melhor. Não precisamos de longas horas no trânsito, ou de conviver diariamente com a poluição e outros impactos socioambientais que afetam a nossa vida.
ODS 12 – Produção e consumo sustentável
Já ouviu falar do “Earth Overshoot Day”? É a data do ano em que o consumo de recursos naturais é superior à capacidade do planeta para os regenerar. Em 2020, foi no dia 22 de agosto, e esta data altera-se continuamente de forma assustadora. Em 2019, foi no dia 19 de julho. A pandemia e a redução do consumo adiaram a data, passando uma mensagem clara para todos. A este ritmo e no presente contexto, iremos precisar de 1.6 planetas Terra para continuarmos nesta vida
e deixarmos um planeta habitável para os nossos filhos e netos.
ODS 13 – Ação climática
Este era o tema mais falado no mundo antes da COVID, e espero que não tenhamos esquecido a sua importância. A mudança climática é um facto e caminhamos, a passos largos, para um mundo não sustentável. Estamos a atingir um ponto sem retorno. Isto significa que o planeta irá entrar numa entropia natural, onde a biodiversidade, os ecossistemas e as nossas condições de
sobrevivência estarão comprometidos. Se observarmos o aumento da quantidade da catástrofes: incêndios, inundações, furacões, entre outros desastres naturais, ficaremos com uma visão clara do que nos espera como consequência de não atuarmos de imediato.
ODS 14 – Proteger a vida marinha
O plástico foi uma revolução na indústria, visto que facilitou radicalmente a produção de bens. Contudo, agravou extremamente a poluição, tornando-se num problema real para a vida marinha. Nos dias de hoje, este problema tem-se expandido bastante com, por exemplo, as máscaras faciais, que também acabam por ir parar aos oceanos. Muitos países têm a vida marinha como base de sustentabilidade, estando, por isso, igualmente em risco.
ODS 15 – Proteger a vida terrestre
Aprendemos na escola, desde sempre, o significado de animais em extinção. Sem a
biodiversidade, iremos inviabilizar todo o ecossistema que nos permite viver com o conforto dos dias de hoje.
ODS 16 – Paz, justiça e instituições eficazes
Sinto uma profunda tristeza quando, em pleno século XXI, temos que acompanhar manifestações pela morte de George Floyd. O racismo e outras formas de discriminação ainda estão muito presentes nas nossas vidas. Somos todos seres humanos e fomos criados com as nossas diferenças para termos um modelo de convivência e sociedade. Se fôssemos todos iguais, a vida seria monótona.
ODS 17 – Parcerias para implementação dos objetivos
Estamos a assistir exatamente ao contrário. A procura pela vacina COVID está a demonstrar o quanto pensamos com o nosso umbigo, apenas em benefício próprio. Uma vacina para uma pandemia deveria ser um bem comum desejado e partilhado por todos. Se olharmos para todos os objetivos, como o nosso futuro neste planeta, precisamos de pensar no bem do próximo e não apenas no nosso pequeno mundo.
Um pouco longo este texto, mas era necessário refletir sobre como estamos a falhar enquanto pessoas, como sociedade e como seres humanos. Enquanto líderes, somos capazes de promover esta mudança. A pandemia veio para nos fazer pensar sobre o mundo em que vivíamos e como ele não nada tinha de normal. Pelo contrário, sempre foi um mundo desigual, insustentável, a
caminhar para o fim do nosso planeta.
Gostaria de desafiar os líderes, de entidades públicas e privadas, a criarem um mundo sustentável. A parceria entre governos e empresas pode e deve gerar novas oportunidades de negócio e criar um modelo híbrido de gestão. Todos desejamos resolver alguns problemas com os nossos produtos ou serviços, e a pandemia mostrou-nos que juntos somos melhores e mais fortes no encontro de soluções criativas e resolução de problemas. É a altura certa para ter a audácia de criar um mundo melhor e negócios sustentáveis.
Mas tudo bem, se preferir, pode aguardar uma próxima vaga e voltar para a sua própria realidade. Todavia, não culpe os outros pelos seus atos e perspetivas futuras. Os seus filhos e netos irão sofrer as consequências.
Retornar ao normal é voltar a falhar, não perca esta oportunidade e aproveite o “novo normal” para fazer mais e melhor.

Por Gustavo Santos, chair of CEO Advisory Board Vistage Portugal – Lisbon
