Não gosto, mas sou o desmancha-prazeres habitual. Não penso que haja um “novo normal”, nem que repensemos a maioria dos conceitos que utilizámos antes da pandemia. Pelo contrário, entendo que durante as tragédias somos como aqueles marinheiros ateus que se fartam de rezar. Passada a tempestade, passa a fé.
Sim, o teletrabalho, a organização do espaço, a hierarquização e responsabilização das empresas e dos serviços, por exemplo, tenderão a mudar. Mas a COVID-19 e as suas flutuações apenas aceleram processos que já estavam em marcha. O teletrabalho já existia em muitas empresas, embora não de forma tão generalizada como quando foi obrigatório. O período de confinamento, tanto em Portugal como em diversos países, veio demonstrar que não há uma queda de produtividade visível, se o trabalhador ou o gestor funcionarem a partir de casa… sobretudo se os filhos puderem estar, entretanto, na escola.
Esta mudança – maior utilização do teletrabalho – acarreta outras que parecem irrisórias. Por exemplo, os horários. Apesar da baixa produtividade portuguesa, os funcionários passam demasiado tempo nos seus postos de trabalho. Porquê? Talvez seja um mistério, mas provavelmente porque utilizam demasiado os empregos como locais de convívio. A simples existência de teletrabalho deixa os horários sem nexo. Qualquer pessoa pode pegar no seu computador e começar a trabalhar às 7 da manhã, ir dar uma volta às 11, voltar às três da tarde e trabalhar outra vez até à sete. Esteve oito horas a trabalhar de uma forma que, no geral, é impossível no espaço de um local de trabalho.
Outra mudança tem que ver com as reuniões. Numa plataforma tipo Zoom, Teams ou Skype é difícil desculpar-nos com o trânsito ou com as histórias que se arranjam. Mesmo a forma de vestir se altera… O espaço do local de emprego altera-se, igualmente, de forma substancial. Serão necessários menos metros quadrados e, em contrapartida, mais atrativos. No geral, servirão, essencialmente, para as necessárias reuniões presenciais, para assinar contratos com clientes ou novos colaboradores.
Os gabinetes, em si, deixam de fazer sentido; ao invés, as salas de reunião e salas de estar, onde se possa beber um café e trocar algumas opiniões, serão indispensáveis. Mas, talvez, a mais importante mudança seja o planeamento. Nos locais por onde passei, quase tudo era planeado e feito em cima do joelho. Uma organização que mantenha boa parte dos quadros e colaboradores fora das suas instalações, terá, forçosamente, de ter um planeamento muito mais rigoroso, escrutinado e partilhado. Na verdade, não faz sentido fazer alguém sair de casa, meter-se no trânsito (que nesse caso será menos) e ir a uma reunião para aí tomar conhecimento de que o projeto que deveria discutir ou para o qual deveria contribuir não está na fase aprazada.
Pequenos contratempos caseiros também não constituem problema para quem trabalha a partir de casa, sendo que as empresas podem incentivar esses trabalhadores com comparticipações em despesas que, teoricamente, deixarão de ter nas suas sedes e serviços.
Em suma, a COVID-19, com sorte, vai acelerar o que estava já em andamento: uma forma de passagem do velho taylorismo em que 10% pensava e 90% cumpria, estando toda a organização estratificada e cada funcionário com uma tarefa precisa, para uma organização aberta, em que todos são convidados a dar sugestões em todas as áreas e em que os chefes e gestores, mais do que saber tudo o que se faz, têm, sobretudo, de organizar o que é proposto e analisar, em conjunto, as oportunidades e fraquezas das medidas em cima da mesa. Esta forma de organização, que era já muito visível na Google, na Apple, no Facebook e também em startups, vai generalizar-se em toda a área de serviços e em parte da indústria.
Esta é, claro, uma visão otimista. Uma vez que há o perigo do retrocesso, da desglobalização, como lhe chamou Kenneth Rogoff, professor de Harvard, que alerta para o perigo da pandemia levar os líderes políticos a fechar as fronteiras e a quererem, de novo, tornar-se autossuficientes, numa espécie de reedição dos anos 30 do século passado. Esse movimento, a dar-se, seria trágico sobretudo para os países mais pequenos. Porém, pelos movimentos populistas de direita e de esquerda, vê-se como se tornou popular a ideia de que a globalização é responsável pelas desigualdades crescentes, o que provaria, segundo Piketty, que o capitalismo falhou. O francês esquece-se, porém, que fala por 14% do mundo, que têm economias avançadas. Como Rogoff demonstra, nas restantes economias que representam 86% do mundo, milhares de milhões de pessoas saíram da pobreza.
O retrocesso da globalização seria não só um desastre social para aqueles seres humanos, como para todos os países com a dimensão de Portugal, ou mais pequenos, que não têm mercado interno suficiente para bens essenciais, e fabrica excessivamente produtos para os quais não tem compradores internos. E agora vem o problema: eu tenho muito medo de que Rogoff tenha razão quanto aos perigos da desglobalização. As pandemias mudaram muitas coisas ao longo da História, incluindo regimes políticos ou formas de agir socialmente. No entanto, se olharmos mais de perto o sucedido, verificamos que houve aceleração ou abrandamento de tendências em curso.
E o que estava em andamento, mesmo antes desta catástrofe “apocalítica” (e, não por acaso, apocalipse significa revelação, do grego apos – distanciamento – e kalypsos – o que está escondido), o que se vai revelar é a propensão que estava em palco: o deslassar e a tribalização da sociedade. Um retrocesso provocado, simultaneamente, pelo medo da doença e pelo receio do que parece ser o vencedor final das limitações que ela acarreta: a China. Os EUA e a China, por um lado, mas mesmo a UE e a China, não se entendem. Os países como os EUA querem voltar à autossuficiência (e veremos como se sairá Trump de uma eleição que será melhor para o mundo se ele a perder); a Europa tende a fechar-se em si e, infelizmente, cada grande país (ou pelo menos mais rico) a viver de e para si próprio.
O mundo vai ser diferente. Concordo. Mas temo bastante que seja pior do que tínhamos, mesmo não contando com a megacrise que tudo isto provocou nas economias públicas, privadas e, sobretudo, nas famílias sem emprego e sem rendimentos, que tendem a aumentar exponencialmente.

Por Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso
