O QUE VAI MUDAR?
Portugal está a enfrentar um dos maiores desafios das últimas décadas. Aviação, Hotelaria, Cultura, Restauração e Grandes Superfícies foram alguns dos setores que tiveram o maior embate. Estão agora a reinventar-se, tentando que o impacto, sendo já brutal, não comprometa de forma definitiva a economia do País. Muitos terão previsto algum tipo de crise económica, mas não com esta magnitude.
Cedo percebemos que isto mudaria a maneira como vivemos e mais ainda o modo como trabalhamos. Desde março a pandemia tem alterado a vida de todos. As centenas de aeronaves estacionadas, em terra, ou os hotéis esvaziados, bem como os restaurantes, os espaços culturais e comerciais, materializavam o confinamento, transformando de imediato a realidade vivida até então. Home office e layoff passaram a fazer parte do léxico da maioria dos setores. Agora, é tempo de reabrir, reinventar e reerguer o País. Portugal não sairá ileso. Espera-se que a crise no Turismo arraste o PIB para o pior trimestre de sempre. Economistas apontam para uma queda média de 16,5% entre abril e junho. Mas há já ligeiros sinais positivos de retoma da atividade em alguns setores.
O esforço de readaptação da Hotelaria
Com a declaração da pandemia todo o setor Hoteleiro sofreu uma quebra de negócio que se traduziu numa verdadeira avalanche de cancelamentos de reservas individuais e de grupos, forçando a uma paragem total da atividade no dia 18 de março de 2020. A pandemia paralisou toda a indústria Turística, provocando a maior quebra de sempre no setor, na ordem dos 97%, segundo o INE. Fomos saber junto de alguns players do setor Hoteleiro em Portugal como se estão a adaptar.
A cadeia hoteleira Vila Galé tem 32 anos de atividade, habituada a traçar e a fazer frente a cenários complicados, tendo inclusivamente já
passado por duas crises, nunca chegou a prever viver um contexto destes. Onde, de um momento para o outro, num espaço de duas semanas, a atividade parou por completo. E estamos a falar do segundo maior grupo hoteleiro português com uma “máquina” que envolve mais de 3500 pessoas, entre Portugal e Brasil, logo numa altura de maior valor para o setor, a preparação da tão aguardada “época alta”. Acresce, o facto de no Vila Galé se estar a preparar a inauguração de duas unidades hoteleiras, em março e abril. Logo no final de fevereiro e início de março, o Grupo viu- -se sujeito a alterar as decisões tomadas todos os dias na operação dos hotéis, desde as medidas de segurança, ao reforço de limpeza, distanciamento social ou limitações da capacidade dos restaurantes. Em duas semanas, mudaram a oferta e a forma de trabalhar para posteriormente serem confrontados com o esvaziamento dos hotéis e encerramento dos mesmos. «E esta paragem terá efeitos negativos que poderão ser mais ou menos duradouros, dependendo de quanto tempo demorará a chegar-se a um tratamento ou a uma vacina», diz rapidamente Gonçalo Rebelo de Almeida, administrador dos Hotéis Vila Galé.
Acabando por explicar que mantiveram quatro unidades abertas – Lisboa, Porto, Coimbra e Évora, inicialmente de forma estratégica e depois para dar apoio aos profissionais de saúde que necessitavam de estar mais próximos dos hospitais. O que é facto é que «as empresas de turismo e hotelaria deverão adaptar-se ao nível de segurança e higiene agora exigidos e trabalhar para conquistar a confiança dos clientes. De qualquer forma, e ainda que possa demorar, acredito que este será um cenário transitório que não trará grandes alterações no funcionamento dos serviços nem na vontade das pessoas viajarem, conhecerem pessoas e procurarem novas experiências. Por outro lado, penso que poderão surgir mudanças efetivas nas empresas, relacionadas com a aceleração da tendência de teletrabalho e a utilização mais frequente de ferramentas e plataformas digitais. De facto, a digitalização e a inovação poderão ser um resultado evidente desta situação», acrescenta Gonçalo Rebelo de Almeida, manifestamente otimista, até porque entretanto o Vila Galé tem já operacional a maioria das suas unidades e já inaugurou as duas que tivera de adiar, em Alter do Chão e na Serra da Estrela.
Também no caso do Corinthia Lisbon não se baixou os braços. Neste que é o maior cinco estrelas de Portugal Continental, assim que foi encerrado começou-se a trabalhar na reabertura e a preparar medidas para garantir aos clientes capacidade de resposta à pandemia com introdução de medidas de higiene, segurança e limpeza que permitissem recuperar a confiança. Este período foi de uma enorme aprendizagem e desenvolvimento de uma estratégia que permitiu afirmar que é um hotel seguro, explica João Vieira, diretor de Recursos Humanos do hotel, que tem cerca de 200 colaboradores. «É disso exemplo o investimento que realizámos na introdução de soluções tecnológicas inovadoras como reconhecimento facial e de utilização de máscaras, instalação de câmaras termográficas para medição de temperatura, sistemas de purificação do ar, higienização de quartos e elevadores ao nível do melhor que se faz em todo o mundo», revela.
A reabertura do Corinthia Lisbon será anunciada em breve, estando de momento operacional o restaurante Soul Garden. João Vieira fala da necessidade do Estado apoiar o setor tal como está a acontecer noutros países europeus, ainda assim faz questão de louvar o trabalho desenvolvido com a criação do selo “Clean and Safe” e com a captação de grandes eventos que irão projetar o destino e promover o otimismo do setor. «Estamos conscientes que não será possível resolver todos os problemas das empresas e seguramente iremos assistir até ao final do ano a mudanças profundas com fusões, aquisições de unidades e até processos de insolvência». De notar que as recomendações de segurança, nomeadamente, o distanciamento físico, terão ainda um impacto importante na atividade ligada aos eventos/ restauração que como se sabe é parte importante do negócio com quebras na faturação resultante da redução da capacidade de ocupação e consequente adiamento/ cancelamento de eventos.
Enquanto companhia internacional, a InterContinental Hotels desde cedo desenhou modelos que em complemento às medidas e boas práticas desenvolvidas pelas autoridades locais e Turismo de Portugal, reforçam o compromisso de segurança. «Estamos de volta e estamos preparados! Mais do que selos de garantia, são pessoas preparadas, que em rigor, fazem acontecer a segurança esperada e dão vida à tão desejada confiança», garante Vítor Silva, diretor de Recursos Humanos do InterContinental Lisboa. Da mesma forma que o mundo se adaptou à nova realidade, a IHG aprimorou a experiência para os hóspedes dos hotéis ao redefinir os padrões de limpeza e de bem-estar ao longo de toda a estadia. A IHG alargou o seu compromisso com os padrões de limpeza, tendo lançado a nível global o
programa “IHC Clean Promise”, utilizando novos padrões e standards de serviço suportados pela Ciência, através de parcerias com a Ecolab e Diversey.
A IHG colaborou com uma equipa médica de especialistas da Cleveland Clinic para, em conjunto, desenvolverem orientações e recursos para que as equipas ao regressarem aos hotéis o façam de forma segura e mantenham os clientes também em segurança. RICARDO FARINHA Chief Commercial officer da Savoy Signature GONÇALO REBELO DE ALMEIDA Administrador dos Hotéis Vila Galé JOÃO VIEIRA Diretor de Recursos Humanos do Corinthia Lisbon Inteiramente focada nas melhores práticas de segurança do staff, clientes e fornecedores, a Savoy Signature está a implementar um protocolo de segurança, intitulado “Stay Safe Stay Savoy”, nas seis unidades situadas no Funchal e na Calheta. Aliás, o Calheta Beach reabriu a 9 de junho já com estas medidas, o Savoy Palace a 13 de julho e o Saccharum a 31 deste mês também com este protocolo implementado salvaguardando a segurança de todos. Ricardo Farinha, chief Commercial officer da Savoy Signature, explica que nesta fase de recuperação pós- -pandemia está particularmente atento à acessibilidade à Madeira e à retoma dos diferentes mercados.
«A nossa perceção é que a curto-prazo os mercados alemão, holandês, suíço, francês e belga serão os primeiros a voltar com algum volume à Madeira. Não obstante, mantemo-nos atentos e expectantes relativamente ao mercado do Reino Unido que é particularmente importante para as unidades da coleção Savoy Signature no Funchal. A procura dos clientes estrangeiros dependerá sobretudo das restrições à saída e entrada dos seus países de origem, mas também da acessibilidade aérea (direta ou indireta) para chegar à Madeira. Nesse sentido, são particularmente importantes a conectividade em Lisboa e no Porto com a TAP, mas também os voos que ligam a
Madeira a plataformas de distribuição europeia como são o caso de Frankfurt e Munique com a Lufthansa/Condor, de Zurique com a Edelweiss/Swiss ou de Amesterdão com a Transavia/KLM». No que toca ao setor do Turismo em geral, Ricardo Farinha lembra que há paradigmas que estão já a transformar- -se. «Num futuro próximo, acreditamos que os viajantes optarão por fazer um menor número de viagens, mas por períodos mais longos; vão preferir destinos de proximidade, demonstrando maior interesse por destinos domésticos ou continentais, ao invés de intercontinentais.
Além de uma menor procura, antevemos uma menor oferta, com menos empresas do setor a conseguir continuar a operar (alojamento, restauração, atividades, etc.), sendo que a redução da procura será superior à redução da oferta o que forçará a que os preços médios e as rentabilidades baixem para os operadores de turismo».
