O lado positivo de uma tragédia planetária pelo olhar da Filosofia
Os pais, confrontados com a adolescência dos filhos, desejam muitas vezes que esses anos problemáticos desapareçam. Os engenheiros e os apreciadores de automóveis passam muito tempo a sonhar com os modelos futuros. O desejo que temos de evitar problemas ou de encontrar soluções rápidas para quando eles surgem faz com que imaginemos fantasias em que se passa de criança a adulto, ou cenários em que o próximo automóvel virá diretamente de um futuro distante. Desejamos este tipo de coisas porque não estamos reféns do tempo presente e temos capacidade de imaginar alguns cenários alternativos.
Todavia, quando se olha retrospetivamente para o passado das pessoas e dos automóveis, vê-se que os períodos de tempo em que se desejou anular tinham a chave da compreensão do que aconteceu a seguir. Mais ainda, vê-se que a capacidade de imaginar cenários alternativos tem um papel marginal, como se as coisas se desenrolassem segundo uma lógica que nos escapa no presente e que só se torna discernível no passado. Tal como o velho Rei Édipo confrontado com a Esfinge, são os problemas que enfrentamos no presente que revelam o que verdadeiramente somos, e só olhando para o caminho percorrido conseguiremos captar o que nos acontece.
Deveríamos amar os problemas da nossa vida, porque é através deles que chegamos ao futuro. Mas há uma razão mais ponderosa para que eduquemos o olhar de modo a ver com clareza o que queremos evitar. Essa razão não fala do que somos, mas dos constrangimentos da realidade objetiva. Vários intelectuais deram-se ao trabalho de estudar as séries temporais de objetos diferentes, das belas-artes à loiça de todos os dias.
O historiador de arte norte-americano George Kubler refletiu sobre a sucessão de objetos, mostrando que o tempo se organiza em grandes formas, o que torna impossível que se passe de um salto, por exemplo, do gosto do Renascimento italiano para o Expressionismo alemão do século XX (A Forma do Tempo, 1962).
No mundo do pensamento, François Dagognet foi especialmente atento às lutas que se desenrolam nas próprias coisas, lutas que impedem que o design de qualquer objeto quotidiano altere radicalmente a sua forma (Elogio do Objecto, 1989). Karl Popper, por sua vez, dedicou muito do seu pensamento ao estudo da lógica das situações, vendo nelas a atração de possibilidades futuras (Um Mundo de Propensões, 1990). O que está em causa é muito simples: em 2020, não é possível construir automóveis de 2030; só está ao alcance das pessoas construirem os automóveis de 2021, fazendo pequenas variações sobre o que já existe, e compreendendo os constrangimentos da já longa história dos automóveis. Onde estão os automóveis, poderemos pôr qualquer outro assunto da nossa vida.
Há uma continuidade entre as agulhas e os pentes do Neolítico e os objetos equivalentes que ainda usamos hoje. É necessário, pois, educar o olhar para que a pior das adversidades se transfigure na maior das oportunidades. Educar o olhar implica pensar bem, e essa não é uma tarefa fácil.
A pandemia que assola 2020 tornou-se o assunto mais importante para os Estados e para as pessoas. É esta pandemia que deveremos olhar de modo educado, amando o que se vê e afastando por momentos o desejo intenso de chegar rapidamente a 2021, a 2030 ou a qualquer outra data futura que não tenha o problema que nos atormenta. 2020 é o melhor ano para se viver, porque é ele que nos esclarece sobre o que somos, sobre os caminhos errados que andámos a percorrer e sobre o futuro que queremos alcançar.
É necessário amar 2020; este ano é a adolescência certa para adultos felizes. Como é natural, muito já foi dito, e é improvável que um ângulo novo possa ser equacionado. Os debates infindáveis tendem a esgotar, pela mera lei dos grandes números, todas as possibilidades de análise. Nesta evidência, um efeito que tem passado despercebido é o de já termos chegado ao limite do que se pode pensar. Os discursos repetem-se com monotonia, e até as teorias da conspiração se tornam previsíveis. As sociedades encontram-se hoje na conhecida situação dos investigadores de doutoramento que dedicam anos da sua vida à compreensão de um tema. A certa altura, passado o tempo da descoberta inicial dos temas e autores, surge o tédio ao ver-se que as propostas teóricas se repetem e que o debate intelectual se esgotou.
Ora, é precisamente isto que está a acontecer nas sociedades depois de meses de debate público intenso sobre a pandemia e sobre o colapso de muitas partes da economia. Se se ligar a televisão para se assistir ao enésimo debate sobre estes assuntos, é certo que todas as opiniões veiculadas serão já conhecidas. Esgotou-se a capacidade de pensar. Nestas condições, não será possível ver o que a novel Esfinge de 2020 tem para mostrar. As elites, constituídas pelas pessoas mais informadas das sociedades, dão sinal de uma fome estranha. Não se trata só do desespero pela falta de uma solução do problema médico e das suas avassaladoras consequências económicas; diferentemente, sentem que precisam de um conceito, de uma forma de entender o assunto, de uma missão, de um ideal a alcançar. Tudo isto amplifica o que se passa com uma pessoa tomada individualmente: também ela sente a certa altura da sua vida que precisa de sentido para os dias que tem para viver.
Fala-se por vezes da necessidade de um projeto de vida, de uma orientação, de uma demanda, de um Graal, de um caminho marítimo para a nossa Índia. Seja uma pessoa, seja uma empresa, seja uma instituição, seja um país, é sempre a mesma coisa. O problema sobre o que fazer com a pandemia de COVID-19 e os seus efeitos terríveis na ordem económica é tão preciso quanto os mais velhos problemas humanos que foram representados na literatura ocidental. Sempre se viu na rica coleção do património literário ocidental grande cultura e muitas formas de entretenimento, mas raramente se olhou para ele do ponto de vista dos problemas e das suas soluções. O que poderia fazer Menelau depois da sua bela esposa Helena o ter atraiçoado com Páris, fugindo com este para Tróia?
Ulisses, preso com os seus companheiros na caverna do ciclope Polifemo, tinha também um problema a resolver. Mais estranho ainda, o livro mais velho da Europa começa precisamente com uma peste que Apolo faz cair sobre o exército dos Aqueus (Ilíada, I, 43-53). Três mil anos passaram, e continuamos tão reféns da peste quanto esses antepassados. Nada de significativo se alterou. Os problemas da vida humana são exatamente os mesmos. O modo de os resolver não poderá ser radicalmente diferente. Não está ao alcance da inteligência humana alterar a ordem geral do mundo, ou, como os pensadores gostam de dizer, a sua ordem metafísica.
Vive-se no século XXI a desejar as mesmas coisas que os povos antigos da Europa já desejaram e a resolver problemas semelhantes aos já por eles enfrentados. Por razões ligadas a doutrinas filosóficas setecentistas e oitocentistas, a ideologia do progresso fez com que as pessoas pensassem que poderiam ter uma vida diferente.
O embaraço de uma pandemia que coloca de joelhos os estadistas e os seus povos, apenas vem relembrar que essas doutrinas não são verdadeiras. Poderemos tentar resolver os problemas que enfrentamos ao modo de um Menelau despeitado ou de um Aquiles irado, só conseguindo com isso criar ainda mais problemas. Ou poderemos tentar sair da nossa caverna de ciclopes com a arte de Ulisses: tomar o que está à mão, porque nada mais poderemos fazer do que recorrer ao que está na situação, e transfigurá-lo. Há aqui uma lição preciosa que só pôde ser alcançada devido ao ano maravilhoso de 2020.
É esta a lição: sabemos que temos necessidade de ideais, uma fome mais intensa do que a fome de pão, e sabemos também que, por escolhas erradas dos dirigentes políticos, temos formado sucessivas gerações só para produzirem pão. Essa fome está satisfeita, mas a fome de conceitos é todos os dias mais premente. As escolas grandes da nossa época têm nos seus campi cafetarias maiores do que livrarias e têm sofisticadas bibliotecas de vidro com bons sofás, mas em que não há livros. Hoje, tempo trágico em que quase só existem universidades de nome, substituídas que foram por essas escolas grandes que se limitam a produzir papers para inglês ver, deixámos de saber construir ideais ou de aceder às regiões em que eles se manifestam. Nas multidões de estudantes universitários, não há pessoas com quem se possa falar da lírica de Camões, dos romances de Proust ou dos sermões espirituais do Padre António Vieira. As referências à Ilíada são ininteligíveis para a maioria das pessoas, e elas não compreendem que a pandemia de 2020 é normal, porque foram privadas de uma formação que lhes desse a sua verdadeira identidade.
Como o mundo cultural das pessoas de 2020 é inimaginavelmente pobre, qualquer evento de que não se esteja à espera tem consequências desproporcionadas. (Se parecer a alguém que esta avaliação é injusta, sempre se poderá fazer um teste: a próxima vez que estiver no ginásio a cuidar do mito da saúde, tente conversar com as outras pessoas sobre o conto dos Genji, do Japão medieval, ou sobre a influência de Santo Atanásio nas formas de vida tuteladas por regras, ou sobre o naturalismo de Teixeira de Queiroz. Ver-se-á que as pessoas já desconhecem o que é conversar de modo civilizado, não tendo a mais remota ideia acerca desses assuntos.).
As pessoas de zonas ricas – Europa, China, Estados Unidos, por exemplo – sofrem mais do que os povos de zonas desfavorecidas. A cultura que poderia darnos os conceitos e ideais de que precisamos foi afastada, tendo sido substituída por uma caricatura que não enche a alma a ninguém. Talvez num futuro muito distante, ao modo do romance de Cândido de Figueiredo, Lisboa no Ano 3000 (1892), venha a ser esquecida a vergonha de se ver a Medicina de 2020, uma das rainhas das ciências, a recorrer a medidas biopolíticas para atenuar o impacto da doença (relembrem-se os meios surreais e toscos do confinamento, da distância social e do uso da máscara), ou a vergonha ainda maior de se ter adotado a má estratégia de, tentando limitar um mal, se terem criado muitos outros males. Todo este episódio patético apenas auxilia a ver com mais nitidez o fracasso da ciência moderna nos assuntos fundamentais. Vinte e cinco séculos apartam a Medicina contemporânea do Corpus Hippocraticum e de médicos como Alcméon de Crotona e Empédocles de Agrigento.
A vida humana continua a ter doenças, epidemias e morte como sempre teve. Há algo de profundamente errado em tudo isto, mas o discurso público que levante o problema será fortemente condenado.
A incapacidade de aguentar a ideia de que a ciência não protege de facto a humanidade será escondida com todas as forças pela simples razão de que, como a ciência domina o sistema de ensino, gerações sucessivas deixaram de poder olhar para a realidade de outro modo. Nada mais há para as pessoas do que o universo pobre que a ciência lhes dá. Um universo com cerca de catorze mil milhões de anos parece infinito, mas de facto é tão claustrofóbico quanto o velho modelo geocêntrico. A ciência possibilitou um universo de brincar, mas fez-se pagar pelo empobrecimento da noção de realidade. Todas as pessoas da nossa época já ouviram falar de natureza, mas muito poucas ouviram falar de preternatureza, de sobrenatureza ou de mundo espiritual. A despeito dos tais catorze mil milhões de anos, o universo que contextualiza a experiência contemporânea é de uma pobreza embaraçosa.
Os intelectuais dos países deveriam falar sobre estas coisas, mas têm estado ocupados com outros entretenimentos. A vida cultural das sociedades todos os dias fica mais pequena. O que se afirmou a respeito da natureza e do conhecimento que se tem hoje dela poderia ser reafirmado a respeito da medicina, da psicologia, da história e de muitas outras ciências.
Os protagonistas destes saberes são inclementes, exigindo todos os recursos sociais disponíveis. Erros e fracassos são apenas detalhes do método, aliás muito elogiados pelos pensadores da ciência, como Popper. Poder-se-ia chamar a tudo isto uma ideologia científica, mas seria mais rigoroso descrever a situação contemporânea como uma prisão espiritual.
Os conceitos que povoam a vida das pessoas limitam o que podem pensar. É fácil, com a distância dos séculos, olhar para o passado histórico e identificar as ideologias que aprisionam numa pequena malha de conceitos a ação humana. É muito difícil ver que as sociedades contemporâneas são tão limitadas quanto qualquer sociedade do passado.
Todos os bens que alcançaram (alguns haverá, certamente) foram pagos pelo estreitamento de horizontes e pelo empobrecimento de possibilidades de vida.

Por Manuel Curado, Ensaísta e filósofo, Professor da Universidade do Minho e auditor de Defesa Nacional.
