Se trouxemos as coisas até aqui, somos também capazes de as inverter.
Somos o expoente máximo da evolução, nós seres humanos. E nessa evolução aqui estamos em confinamento, com a saúde pessoal e pública a perigar, com o planeta doente, para já não falar das inumeráveis guerras entre irmãos, entre “inimigos”, entre povos, entre seres da mesma raça humana que nos têm acompanhado de perto e de forma inexorável.
Entretanto, em cinco semanas o planeta regenerou-se de uma maneira inimaginável. Imagens televisivas dão-nos conta de uma Veneza com cisnes, de céus despoluídos, de animais a passearem por estradas e passeios ocupados há bem pouco por multidões de homens e mulheres apressados nas suas compras, afazeres, motivações.
A velocidade com que o Vírus se espalhou só foi mesmo ultrapassada pela velocidade do medo. Medo, companheiro, que nos ajuda a precaver de situações potencialmente perigosas, medo, inimigo, quando abusa do seu poder e nos paralisa na resposta que a vida nos pede.
Não a WW3 – Não morreram milhões, o tecido produtivo está intacto
Graças a Deus esta não é a 3.ª Guerra Mundial. Já todos vimos as terríveis imagens da 1.ª e 2.ª Grandes Guerras, com bombas a cair sobre civis, soldados, casas, fábricas, estradas, caminhos de ferro, barragens, redes de comunicação, sobre todo o tecido produtivo dos países que sofreram essas incontáveis agruras. Não é o caso. Estamos confinados em casa, certo, mas não há milhões e milhões de mortos por balas, minas e bombas, e todo o tecido produtivo está aí intacto, esperando a nossa volta, à exceção dos infortunados países, já eles em guerra antes do espalhar da situação que estamos agora a viver.
Saúde vs Economia
Primeiro o que é primeiro. E antes de tudo está o ser humano. Nós. Depois as empresas por nós formadas, depois a economia formada por aquelas. Esta situação da Pandemia veio trazer à tona d`água uma equação nunca dantes tentada resolver a uma escala global: Saúde vs Economia. E com o medo, individual e colectivo, a espalhar-se mais rápido do que o Vírus foi num ápice que tudo aconteceu.
Poucas foram as pessoas que deram algum crédito ao surto publicitado no princípio do ano, poucas eram as empresas preparadas para lidar com as suas consequências ao nível a que estamos a assistir. Honrosas excepções existem nos dois casos. Na primeira situação pais de família e homens de negócios atentos e preocupados com as suas responsabilidades, na segunda situação empresas que tinham, por essa mesma razão, aprendido a lição e preparado a devida resposta aquando do SARS, com manuais de contingência e reservas financeiras agora à sua disposição. Honra lhes seja feita. Ambos são os que melhor estão agora a lidar com a situação.
Recuperação económica como e para quando
Vivemos num sistema onde a monetização da economia assumiu contornos que ultrapassam tudo que era expectável há uns anos. Abandonado o sistema de padrão ouro desde há cinco décadas, encerrando assim o sistema monetário internacional de Breton Woods, as soluções de quantitative easing adoptados tanto pelo FED como pelo BCE – nomeadamente desde a crise financeira de 2008 – injectando biliões de $ e € no tecido empresarial, sem que efeitos relevantes se fizessem sentir nas taxas de inflação, desafiam os mais básicos princípios de funcionamento dessa mesma economia, mas não deixam de somar à astronómica dívida criada, já que os credores dessa medida não abdicam.
Os dois Bancos centrais estão já neste momento com soluções a correr neste formato como forma de dar “ar” aos agentes económicos, afinal o que eles precisam para respirar. O problema financeiro fica assim empurrado para a frente. Para já, é preciso salvar o paciente.
Há sectores e sectores, países e países
E porque não somos todos iguais, também as empresas e os sectores onde se inserem o não são. Turismo, viagens e banca vão sofrer consequências severas resultante deste confinamento. Turismo e viagens de uma maneira que está já a acontecer, com a paralisia quase total da sua actividade, a banca a médio prazo quando tiver que contabilizar nos seus balanços as consequências económicas das quebras de actividade ora verificadas nos seus clientes.
Países como Portugal, onde o Turismo representa 8,7% do PIB de 2019, sofrerão na pele, na carne e no osso a perda desta actividade. Criatividade, inovação, resiliência, capacidade de resolver problemas são agora requeridas.
A boa nova: A velocidade da recuperação depende de nós
Dado este enquadramento e uma vez resolvido que esteja o tratamento/ vacina para a COVID-19, a boa nova é tudo o resto depende de nós. Tomadas as devidas precauções sanitárias, cabe a cada um julgar por si a vontade, a direcção e a velocidade com que se quer voltar a envolver ou não em todo este cenário que o novo Corona Vírus obrigou a parar.
Como atrás dissemos e graças a Deus, não estamos perante uma guerra mundial. Não morreram milhões de pessoas, o que é uma boa notícia para empresas de grande consumo, ironia à parte, e o tecido produtivo está intacto. Os Bancos Centrais estão já a injetar o “ar” que a economia precisa para respirar, para já. Tudo então alinhado, pelo menos à maneira antiga.
E nós? Há quem diga que vai retirar disto o que teve de melhor e deitar fora o que não presta. Outros há que desejosos estão de que tudo volte ao normal. Já há mesmo estudos sobre a “vingança do consumidor” que indicam que há alguns entre nós desesperados para ir de novo às compras. Esse mesmo estudo falava em idas ao restaurante, ao cabeleireiro e barbeiro (também preciso…) e ao médico. Bastante conservador, a mim parece-me. A ver vamos.
Definir a situação como ela – Encontrar racionalmente a nossa esperança
O importante é encararmos a situação de frente, defini-la tal como ela é e encontrarmos, racionalmente, os sinais de esperança que estão aí à nossa frente. Se a terra, deixada à sua vontade, se transformou em cinco semanas, imaginemos o que podemos fazer, nós seres humanos, conhecendo-nos a nós próprios, aos nossos recursos e capacidades, vivendo de uma forma consciente na procura de agradecer esta vida que nos foi dada.
A bem de todos.
Por Francisco X. Froes, MBA – Nova SBE
