Vamos com calma

E de repente, em plena crise, começou uma espécie de tiro ao alvo. Cada um tem os seus alvos favoritos, por cálculo ou por convicção. Para uns, o alvo são os governantes holandeses antes de serem os holandeses todos. Para outros, o alvo são os banqueiros, porque são banqueiros e porque vários se puseram a jeito nas circunstâncias sabidas. Para outros, são os funcionários públicos porque os funcionários são sempre um alvo fácil. Para outros, são todos os que continuam a receber um salário – se calhar por serem funcionários públicos.

É duvidoso que este exercício produza algo de positivo. Por um lado, porque esticar o dedo é fácil para aliviar dores mas normalmente não cria nada de bom. Por outro lado, porque só divide o que é suposto unir. A união não precisa de conformismo nem de blocos centrais. Precisa que todos façamos o que temos a fazer – hoje e manhã.

O que todos queremos é o mesmo. A maneira como lá chegar é que vai divergir, como é normal e saudável. Mas começar já por procurar bodes expiatórios é um mau (re)começo. Não deixa aliás de haver ironia neste processo: entre os malfadados funcionários públicos contam-se os profissionais de saúde e os cientistas, de quem todos agora esperamos tanto. E já agora (declaração de interesse) também fazem parte deste grupo os professores que, como este que aqui se vos dirige, não parou de dar aulas nem de fazer todo o trabalho académico. Podemos continuar a apontar dedos mas parece melhor não irmos por aí.


Por: Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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