Radar COVID-19: «Pessoas e empresas vão ser chamadas a pagar esta crise»

Está convicto de que ninguém ficará imune à crise. Para o CEO da VINCI Energies Portugal, Pedro Afonso, o impacto será sentido em ciclos diferentes, dependendo do tipo de atividade. Presume que este é um tempo que pode durar dois anos e com grandes transformações nas nossas vidas, por isso «a maior causa social que uma empresa pode defender é manter a economia viva».


Em três dias, colocou 1242 pessoas a trabalhar de casa e neste momento tem 510 no terreno. A VINCI Energies Portugal, desenvolve sistemas críticos nas áreas da Transição Energética e da Transformação Digital. «Ainda que todos os setores possam ser afetados, os sistemas críticos irão desempenhar um papel principal na retoma da economia mundial. A necessidade de segurança – a todos os níveis – vai ser a nova moeda para o novo normal», lembra Pedro Afonso, enquanto fala das inevitáveis consequências sociais e da solidariedade e responsabilidade cívica como os novos instrumentos de decisão.

A linha de atuação que a VINCI Energies seguiu, enquanto grupo, foi muito clara: decidir com responsabilidade cívica; proteger a saúde dos colaboradores e a das suas famílias; manter os clientes a funcionar; fazer o melhor pela atividade das unidades de negócio. E, tudo, por esta ordem!

Assim, a 11 de Março, dia em que foi declarada pandemia pela OMS, lançou um conjunto de medidas para os 1700 colaboradores, adaptadas a cada atividade do grupo: planos de contingência; quarentenas voluntárias; planos de continuidade em cada unidade de negócio; implementação de trabalho remoto para todos os casos possíveis; medidas preventivas de segurança e higiene para quem tem de trabalhar no terreno ou em algum dos escritórios. «Na nossa cultura, as nossas lideranças têm uma atenção muito especial com a segurança física e psíquica dos colaboradores no terreno. (…) Adaptámos todos os serviços de apoio ao colaborador de forma muito eficaz. Colocámos em absoluta prioridade a saúde e conforto dos colaboradores e das suas famílias», detalha.

Em entrevista, à Líder, o CEO da VINCI Energies Portugal explica a importância de «reaprender a viver e a trabalhar». Lembra também que tudo isto é «um exercício de liderança muito desafiante» e de aprendizagens. «Aprender novas formas de proximidade através dum ecrã, aprender a formar equipas no terreno com elevada exigência de segurança e aprender a acompanhar os novos desafios do afastamento físico. Equipas inteiras e lideranças a aprender em simultâneo». Pedro Afonso desvenda ainda um olhar de esperança e o que vai manter sobre a sua “mesa de decisão”.

O que é mais assustador nesta crise de saúde pública mundial?
Aos 17 anos dei o salto para enfrentar o medo de alturas. Foi sentir medo que me levou à ação, que me levou a fazer um curso de paraquedismo em salto automático. Tinha –  e tenho – medo de alturas, é um facto. Mas o medo não nos pode parar. O medo pode ser um condutor de grandes momentos da nossa vida. É certo que aos 17 anos o medo ajudou-me a ser disciplinado e funcionou como escudo para defesa da vida. Mas agora, alguns anos mais tarde, o que me assusta nesta crise, é a falta de consciência de muitos e o excesso de medo de tantos – líderes, decisores e sociedade, em geral. Especialmente em dois aspetos: os que têm a dose certa de medo, para estar alerta, sobre as inúmeras variáveis com que temos de lidar; e os que precisam saber com coragem, enfrentar esse medo, para podermos prosseguir, e desbloquearmos a recuperação da economia.
Este é também um momento de afirmação da União Europeia. É um momento da verdade. Entristece-me quando existe hesitação – na hora de decidir – de aplicar um dos valores fundamentais do projeto europeu: a solidariedade. É o que a sociedade precisa no momento. Há medo de aplicar receitas diferentes, para cenários de realidade diferentes. O mesmo se passa do lado das empresas e das pessoas. Para realidades diferentes, tem de se aplicar uma forma de decidir diferente. O medo por vezes faz as pessoas ficarem na sua zona habitual, e isso pode condicionar – muito – a nossa recuperação. A Covid é um fardo que não podemos mudar. A recuperação é um facto que podemos antecipar, com esperança.
Depende de nós – de cada um de nós, e de todos enquanto coletivo – enchermo-nos de coragem, e reconstruirmos, com as nossas mãos, a nova vida. Tal como no paraquedismo, depois de entrarmos na aeronave, só há uma forma de sair: no ar, e pela porta! Temos de prosseguir: a Covid vai passar… e nós vamos continuar!

Quais as medidas implementadas para assegurar a saúde dos vossos colaboradores?
A linha de atuação que seguimos enquanto grupo foi muito clara: decidir com responsabilidade cívica; proteger a nossa saúde e a das nossas famílias; manter o País e os nossos clientes a funcionar; fazer o melhor pela atividade das nossas unidades de negócio. E por esta ordem!
Assim, no dia 11 de Março, dia histórico em que foi declarada pandemia pela OMS, lançámos um conjunto de medidas para todos os 1700 colaboradores, adaptadas a cada atividade do grupo: planos de contingência; quarentenas voluntárias; planos de continuidade em cada unidade de negócio; implementação de trabalho remoto para todos os casos possíveis – três dias depois tínhamos 1242 colaboradores a trabalhar de casa; medidas preventivas de segurança e higiene para quem tem de trabalhar no terreno ou em algum dos nossos escritórios.
Para os que têm de cumprir a sua missão fora de casa, focámos um plano formativo adaptado, com uma grande intensidade de comunicação. Na nossa cultura, as nossas lideranças têm uma atenção muito especial com a segurança física e psíquica dos colaboradores no terreno, mas neste caso, tratando-se de evidenciar os comportamentos individuais, somos todos chamados ao briefing diário sobre como proceder: os que já sabem, recordam; os que estão a entrar, aprendem. Reaprender a viver e a trabalhar é fundamental.
Para missões que podem ser executadas remotamente, mantemos toda a atividade, mas agora à distância. Sessões de acolhimento remotas, horas semanais de personal trainner, mindfullness diário, ou ainda serviços de saúde remotos – com linha de apoio psicológico quer por videoconferência quer por email. Adaptámos todos os serviços de apoio ao colaborador de forma muito eficaz. Colocámos em absoluta prioridade a saúde e conforto dos colaboradores e das suas famílias. Para todos! 

Que impacto no negócio?
Poderemos sentir o impacto em ciclos diferentes, dependendo do tipo de atividade, mas todos vamos sentir o impacto da crise no nosso negócio. Há uma certeza: Pessoas e empresas vão ser chamados a pagar esta crise, através dos nossos impostos. Será inevitável. Acresce que a atividade económica irá abrandar, e as consequências sociais são inevitáveis.  Cabe-nos a todos aprender a gerir numa estrutura de decisão diferente, atendendo que a maior causa social que uma empresa pode defender é manter a economia viva.

É possível começar a desenhar algumas medidas a esse nível?
Vamos manter sobre as mesas de decisão, dois pares de óculos: os de ver ao longe, e os de ver ao perto. Temos de manter o foco na recuperação. Qualquer decisão de curto prazo deve contemplar, também, o momento de retorno a alguma normalidade. Será uma nova normalidade. Antecipa-se que tenha dois momentos, com eventual interrupção no próximo inverno: o primeiro momento de recuperação – mais tímido – será em junho, e o segundo momento poderá ser no próximo ano, assumindo que temos a vacina. A gestão do curto prazo – no nosso caso – tem sido de alteração de atividades, em vez de cancelamento de atividades.
Como sociedade, vamos ter de puxar pelo empreendedor que há em cada um de nós. Há coisas da vida anterior que não vão pertencer à vida que aí vem. Mas também há coisas novas na vida que aí vem, que não existiam na vida anterior.

Situações complexas em concreto que enfrentam e como pensam atuar?Primeira situação: Evitar ter o primeiro infetado! No dia em que escrevo este artigo, temos ainda zero infetados. Desconheço, se no dia em que é publicado, este indicador se mantém neste feliz resultado! Garantimos desde o início deste período todos os meios possíveis materiais, formativos e humanos para assegurar que todos sabem e podem proteger-se, e sabem como ajudar os outros a proteger-se. Esta foi uma ação deliberada desde o início do processo.
Segunda situação: apoiar, ativamente, quem lida diretamente com a infeção! Apoiar um colaborador que tenha em casa uma situação de infeção.  A partir do momento que existe um infetado em casa, todo o tempo mental do colaborador é dedicado a essa situação. O mesmo se passa no caso de idosos familiares de colaboradores, em que hoje é difícil a deslocação para se dar o devido apoio. É necessário alocar meios de apoio online, garantir que se dá o tempo profissional necessário para que o colaborador possa cuidar dessa situação pessoal.
Terceira situação: uma família que perdeu rendimento! Neste caso há rotinas e meios a realocar, e a empresa não deve ser “cega” na situação familiar. Aqui, a solidariedade das equipas, é muito importante. Por vezes, o tempo para reorganizar a vida é a necessidade maior. No fundo, uma pessoa empresta o seu tempo e o seu talento a uma organização. O que temos feito é abdicar de um pouco desse tempo para que essa pessoa, naquela família, se possa reorganizar. No nosso caso concreto, se tivermos de recorrer ao layoff numa empresa nossa, vamos – dentro dos meios disponíveis e para determinados níveis salariais – garantir o pagamento de 100% do salário mensal dos colaboradores abrangidos.

Já tinham vivido um desafio destes?
Penso que ninguém – desta geração ativa – tenha vivido uma situação destas. É uma experiência de vida empresarial, e pessoal, brutalmente dura. Temos 1242 pessoas a produzir em casa, e mais de 510 no terreno.  Para além das operações empresariais em curso e, em simultâneo, garantir o acompanhamento dos nossos clientes no seu processo de migração rápido para esta forma de funcionar, temos – como todos – que lidar com facto de ninguém estar preparado para este fenómeno. Foi, é, um exercício de liderança muito desafiante. Aprender novas formas de proximidade através dum ecrã, aprender a formar equipas no terreno com elevada exigência de segurança, e aprender a acompanhar os novos desafios do afastamento físico. Equipas inteiras e lideranças a aprender em simultâneo. Eu também!
E para as famílias é também um enorme desafio. Famílias em sentido lato: os que vivem sozinhos, com o desafio da socialização; as famílias com filhos, cuja pressão do trabalho remoto dos dois – quando os dois têm trabalho – se acumula com o acompanhamento escolar; as famílias que partilham a presença dos filhos, com o desafio das deslocações, trazendo constrangimentos às rotinas habituais; as famílias em que uma das pessoas tem de trabalhar no terreno, pelo seu tipo de atividade, e onde o cuidado com os comportamentos e hábitos de higiene tem de ser ainda maior. Isto, assumindo que não existe nenhum infetado em casa: aí o nível do desafio sobe!
No meu caso pessoal, tivemos também um período de adaptação. Inclui miúdos e graúdos. Não acontece só aos outros. Famílias inteiras a aprender a viver desta nova forma, em simultâneo. Eu também!

Qual o papel que o Estado deve assumir perante as empresas?
O Estado está a fazer o seu papel, e digo-o de forma apartidária. Enquanto cidadão sinto que muitos se uniram à volta desta causa. Esta guerra tem duas batalhas: a biológica, e a económica. O que se sabe é que quanto mais rigorosa e disciplinada for a batalha biológica, mais eficaz será a retoma económica. Mas em Portugal, tem havido o devido cuidado de colocar ambas as batalhas em evidência. No presente, o momento de combate ao contágio do vírus é crucial. Isso tem um impacto brutal sobre a economia. O Estado tem vindo a tomar medidas para que as empresas possam aguentar o choque no curto prazo. Serão sempre poucas. Faltarão sempre medidas. Mas acredito que serão as possíveis no momento.
Mas há também um papel para as empresas:
– Procurar estar muito bem informadas e pensar o que podem ser as consequências e as oportunidades na nossa atividade concreta. Antecipar, é muito crítico!
– Capacidade para alterar o negócio, ou mudar a forma como ele é entregue para continuar relevante no mercado. Gestão de mudança, é fundamental!
– Ao tecido empresarial compete reinventar-se e entender que o mundo vai ser diferente. Empreender, impõe-se!
– Penso que é inútil vender camisolas de gola alta em países de clima tropical. A oportunidade, deve procurar-se!

Que mensagem quer deixar aos portugueses que lideram outras empresas ou organizações?
Que somos afortunados por termos o privilégio do exercício da liderança. Quando tudo corre normalmente, bastam bons gestores para fazer um bom trabalho: aqueles que são campeões dos números, que entregam os resultados, que partilham e ganham bónus, e distribuem valor com os acionistas.
Para uma situação destas, é preciso outra coisa: é preciso liderança. É neste contexto que a coragem de tomar as decisões certas no momento certo, é mais importante. E nem sempre as decisões certas são favoráveis aos resultados.
Vivemos um momento em que o coletivo se impõe sobre o individual. As lideranças empresariais têm um papel determinante. A maior parte das pessoas na sociedade estão ligadas a empresas. A  sociedade espera das lideranças das empresas que subsistirem que façam a diferença. Se cuidarem dos seus, já fazem uma grande missão social.
Este é um momento de “giving back”. É um momento de acautelar outros aspetos, como a ação pelos valores. Quanto melhor a sociedade que construirmos agora, melhor a economia que vamos ter amanhã, maior o proveito que vamos colher mais à frente e maior partilha podemos vir a ter! Mas este, é um momento para ser! “O maior papel social que as empresas podem fazer, é manter a economia viva” – palavras de um colega há uns dias numa conferência. Às lideranças compete fazer cumprir esta missão.

E aos portugueses em geral?
A primeira mensagem é de de solidariedade para os que perderam um ente querido, que lutam com a infeção, que perderam o seu emprego, ou que perderam parte do seu rendimento mensal. Ou ainda para os que – como eu – estão impedidos de ver os seus progenitores por tempo indeterminado, por serem grupo de risco. Estas são dores reais que hoje afetam todos os portugueses. Quase todos, na primeira pessoa ou através de alguém próximo, estamos numa destas condições.
Mas daqui a dois anos algumas feridas terão sido ultrapassadas ou, pelo menos, teremos aprendido a viver com elas. Nessa altura, vamos olhar para trás e dizer: “já passou”. Sabemos que nessa altura, como País, vamos ter uma enorme dívida para pagar, porque agora estamos a pedir intervenção forte do Estado.  Todos: pessoas e empresas. Sendo realista, vamos ter de aprender a viver com menos. Mas vamos ter razões para estar gratos por estarmos vivos, e ter – a maior parte de nós – os nossos mais próximos também vivos. Vamos estar gratos também – nunca é de mais referir – aos profissionais de saúde, que atuaram como soldados numa batalha que foi das mais duras das suas vidas profissionais. A vida humana não tem preço.
Ao longo da história os portugueses sempre se reinventaram. Sempre esse processo provocou dor, às vezes muito forte. Mas esta é também – como nunca – uma grande oportunidade de construção de uma sociedade mais coletiva, mais solidária.
Realisticamente, temos que trabalhar muito – cada um, e coletivamente. Educar muito. Desenvolver muito. Produzir muito. E melhor, claro!
Para nos reconstruirmos desta crise, temos uma exigente tarefa pela frente. Devemos assumir inequivocamente os desafios que se colocam, com realismo. Longe de ser fácil: no combate à pandemia, no combate económico. Mas temos de assumir, com a maior e melhor energia possível, a reconstrução de uma vida com hábitos e comportamentos diferentes. Esta tem de ser uma missão de todos. Cidadãos, organizações e Estado.
Temos nove séculos de história, e sempre – como povo – ultrapassámos os nossos desafios. Este é um tempo que pode durar cerca de 2 anos – é a minha estimativa – mas com grandes transformações na nossa vida. Por isso, este é um momento de esperança. Afinal, o que são 2 anos na história de Portugal? E na nossa vida? … a esperança: porque o coração tem por vezes mais direito do que a razão. Vamos, como sociedade, dar-lhe espaço, e dar o nosso melhor, por todos. Coletivamente! A Covid vai passar… e nós vamos continuar!

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