Ser-se quem se é

No cinema, o zeitgeist do Natal aparece agora naquela comédia romântica, com um fundo de dramatismo também, zeitgeist do que de mais importante se está a passar na altura no mundo, geralmente péssima, mas, pelo menos a mim, aquilo que apetece ver nesta altura. Depois do Love Actually, que teve um ressurgimento espetacular na campanha para as eleições gerais no Reino Unido deste dezembro, a deste ano chama-se mesmo Last Christmas em homenagem à música famosa dos Wham (para ouvir porque é Natal). Curiosamente, também ligada à campanha britânica, o filme tem uma mensagem política evidente, desenrola-se num ambiente de imigrantes, fator decisivo para o voto no Brexit, e de sem abrigo, um problema de dimensões colossais no Reino Unido, tópicos dos programas partidários. O primeiro assumiu na reta final da campanha para nós, cidadãos da União Europeia, uma importância não inesperada, mas um bocadinho chocante, quando o primeiro ministro britânico afirmou que já tratamos o Reino Unido durante demasiado tempo como se fosse uma extensão do nosso próprio país.

Adiante, para que este artigo não seja um completo spoiler, nem eu corra o risco de ler demasiado num filme que faz o Love Actually parecer erudito, mas às vezes estas coisas ligeiras, contadas numa época em que estamos mais disponíveis como é a quadra Natalícia, ecoam.

Quero mesmo é chegar a isto: a protagonista do filme é uma mulher talentosa e bonita, fugida com a família da guerra da ex-Jugoslávia para Londres, que depois de uma doença grave ficou à deriva e o filme conta a história de como ela encontrou um sentido para a vida outra vez. Kate, originariamente Katarina, passeia-se em cenários contemporâneos, o aspeto mais interessante do filme, de pessoas de várias origens, tradições diferentes que se misturam, bairros urbanos com melting pot cultural, casas nos subúrbios, casas minúsculas no centro da cidade, profissões menos e mais convencionais, primeira geração que não se adapta totalmente e o esforço de adaptação, famílias de todos os tipos e aceitação, solidão, amizade, amor e dificuldade em expressar emoções, conflitos familiares, comida embalada e comida tradicional, obras sociais e tudo o que uma grande cidade vos possa lembrar, a viver todos os dramas da vida moderna. E, no meio disto tudo – embora de maneira pouco ortodoxa é certo, mas contar seria, isso sim, um spoiler –, levantou-se e acabou a viver sendo quem era, a soma daquilo tudo, sem estar presa ao passado e sem complexos no presente. Segura, adaptada, a liderar-se a si própria.

Bom Natal!

Por: Sandra Clemente, jurista

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