“Leadership and the oyster story” – a estória por trás da história

Estive 23 anos a trabalhar fora de Portugal. Não interessa agora onde e porquê, para não transportar o foco para o modo “crítico”. Fui com 24 anos e voltei com 47. O que fiz ao longo deste anos todos? Fiz mesmo imensas coisas. Trabalhei para várias empresas, fui liderada e chefiada por vários anos. Conheci e trabalhei com mais de 12 nacionalidades diferentes. De ambientes familiares aos multinacionais. De negócios conservadores até às startups. Criei as minhas próprias empresas, realizei sonhos, tive três filhos… enfim, percebo, hoje, que vivi cem anos.

Hoje lidero várias empresas, muitas pessoas, em setores e geografias diferentes. Vejo o mundo em perspetiva, questiono, e continuo a querer fazer coisas novas e diferentes.

Regressei a Portugal. Não porque quero descansar, mas porque quero usar toda essa minha vivência para energizar e contagiar outros com o meu otimismo e visão do futuro. Quero fazer coisas em Portugal. Se quisermos até cair em clichés mais mundanos, quero dar o meu contributo. É verdade.

A minha pirâmide está construída, e realizada com sucesso. Já não se trata de uma necessidade material, mas sim pessoal. O que encontrei por estes lados foi um país cada vez mais bonito. Que país nós temos! De norte a sul, surpreende-me com os seus recantos por descobrir. Um clima maravilhoso, a comida cada vez melhor, mais genuína. As pessoas cada vez mais bonitas, melhor formadas e mais completas. Portugal cresceu, evoluiu.

Com este ar de esperança reconfirmada, aí vou eu, para o mundo empresarial, em busca do que perdi ao longo de todos estes anos. Sou surpreendida pela familiaridade de algumas caras, que engraçado, são as mesmas que deixei há 23 anos. Naquela mesma posição, naquela mesma empresa, mantendo as mesmas convicções. Questiono-me o que terá sido a vida destas pessoas! Que empresa ótima que consegue “alimentar” estes cérebros de mundo, desafios e objetivos ao longo de 20 anos!

E assim vou conversando com pessoas, conhecendo outras, almoçando e bebendo milhões de cafés. Preciso de reativar contactos, construir a minha rede. E agora, 18 meses depois, dou por mim a escrever este texto.

As empresas portuguesas estão cristalizadas no topo da pirâmide, mas o mundo mudou, Portugal mudou, chegaram os franceses e os chineses e os árabes e até podiam ter regressado as cruzadas do outro mundo, que as nossas empresas não se incomodariam, porque aquele último nível da pirâmide está assegurado. Ou porque alimenta um alter ego qualquer, há 20 anos, ou porque criou um herdeiro bem formatado que irá seguir as passadas do pai.

Não critico nenhuma das opções. Aliás, este meu texto, repito, é só uma forma de evitar ir para a janela gritar. Não se trata de uma crítica, é uma constatação. Mas questiono-me sobre a capacidade de inovação que existirá nestes gabinetes protegidos e confortáveis. Que nível de adrenalina e risco estará contido nestes últimos andares de tantos edifícios? E o que está a acontecer às gerações Y, X, millennial, que já passaram lá por baixo, mas em relação às quais, o topo permanece observador, condescendente, libertando uma boa percentagem do seu orçamento para seu contentamento, motivação, alimento de expectativas?

Como posso eu ouvir falar de modelos disruptivos e inovadores nas conferências e depois conhecer estes mesmos palestrantes no seu dia-a-dia, formatados em 1990?

Em Portugal, à exceção das startups, ninguém com menos de 45 anos toma decisões importantes. A tomada de decisão sobre um projeto de “gestão de mudança” ou intervenção na cultura pode demorar um ano! O mundo gira a mil à hora e nós demoramos 300 dias a tomar uma decisão.

O mundo virtual das gerações que não querem comprar casa, nem tirar a carta de condução, o mundo virtual das famílias que já não vão ao supermercado, e dos miúdos que trabalham a autoconfiança nas salas do primeiro ciclo, já aí está! Nas nossas empresas ainda se fazem contas de cabeça sobre quanto e como investir no digital.

Um quadro que entra hoje com 23 ou 24 anos para uma empresa, vem cheio de vontade, de boa formação, de viagens, de mundo, nem que seja um mundo virtual. Ele sabe, investiga, conhece as tendências. É produto deste futuro que já aí está. Quer fazer a diferença, quer deixar a sua marca, tem um propósito muito bem definido na sua abordagem, mas o que encontra em Portugal são portas fechadas a esta aspiração, são gabinetes onde os grandes temas são debatidos à porta fechada, onde ele só fará a diferença quando tiver dez ou vinte anos de experiência. O que se oferece são oportunidades para começar de baixo, “passa por tudo o que eu passei para um dia te sentares nesta cadeira e então mudares o mundo”, e nesta pilha de energia em plena ebulição, coloca-se um pano molhado para a suster.

Agora percebo de onde vêm as startups! A minha explicação muito pessoal para este fenómeno é esta: são jovens com iniciativas arrojadas, cheias de inovação e disrupção, que não conseguem ser ouvidos nestas nossas grandes empresas. Porque eles não têm um espaço nem incentivos para apresentarem propostas que sejam realmente levadas a sério. São ideias diferentes daquelas instaladas no corporate world, que para ganharem vida têm de passar a investimentos privados e pessoais.

As gerações baby boomers e anteriores não dão voto de confiança a ninguém que tenha ideias melhores do que as suas. Ou alguém que tenha vivido menos anos. Alguém que questione passa a ser apelidado de mimado ou atrevido. Alguém que arrisca, é irresponsável ou inconsequente, alguém que invente, é maluco ou desequilibrado…

Que tecido empresarial é este que estamos a proteger? São exatamente estes gestores bem-sucedidos, que há 20 ou 30 anos lideram e fizeram crescer as nossas grandes empresas, que têm de sair das suas cadeiras e dar lugar a outros que terão 20 ou 30 anos, não de experiência, mas de idade. Estes líderes fizeram um grande trabalho, sem dúvida, aliás, foram eles que criaram as gerações posteriores, mais seguras de si, mais arrojadas. Mas há um prazo para tudo e não acreditar genuinamente que estão a fazer sempre bem.

Quando questionados sobre inovação e diversidade de gerações nas suas empresas, há muitas áreas com conteúdo consistente, nomeadamente a inclusão anual de trainees nas estruturas, a criação de academias, laboratórios disruptivos, squads criativos, entre outras. E todos nos convencem do seu envolvimento porque criaram academias de desenvolvimento, porque financiaram competições na área da criatividade, porque recrutam jovens das melhores universidades com programas espetaculares de trainees, porque financiam startups, porque são jurados de shark tanks… Mas colocar estas pessoas nas cadeiras que tomam decisões e assinam cheques, isso é que não!

Desculpem-me as pessoas que não se reveem nas minhas observações! Estou ansiosa por vos conhecer! Saiam da caixa e mostrem-se ao mundo!

De que vale gastar cem mil euros por ano em bootcamps, se no fim do dia estes génios que recrutamos não têm poder de decisão nem autonomia? De que vale criar academias de milhões de euros, se os programas e objetivos são os mesmos que eram ministrados em salas de reunião há dez anos? De que vale termos os CEO a “abrir” os cursos de welcome com discursos aspiracionais, a partilharem experiências ao pequeno almoço, ou mesmo a inaugurarem labs, se em momento nenhum o tempo é para realmente ouvir estas novas pessoas. Ouvir no sentido sério e concentrado, ouvir para melhorar, ouvir para pensar, ouvir para evoluir, ouvir para mudar de opinião.

Contratamos os melhores alunos das melhores universidades, com mais mundo, para os ouvirmos? Ou para termos o prazer de garantir que eles nos ouvem e nos enchem o ego com o seu entusiasmo?


Por: 
Paula Oliveira, senior partner da SDO Consulting 

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