2019, primeira editora do “Financial Times”

Pela primeira vez desde a sua fundação em 1888, o Financial Times vai ser liderado por uma mulher. O jornal, um dos mais influentes do mundo e o mais importante do mundo no que à cobertura dos mercados internacionais diz respeito, anunciou, no início de novembro que a, desde há quatro anos, número dois do extraordinário Lionel Barber, editor do jornal desde há 14, assumirá o lugar principal em janeiro de 2020. Se há coisa que FT noticia recorrentemente é a falta de mulheres e a sua pouca influência no mundo financeiro, económico, empresarial e político, promovendo a nossa importância e a injustiça absurda, pelo que a subida de Roula Khalaf a editora é significativa. “The Times, they are a-changin” canta o Bob Dylan, nas pequenas e nas grandes coisas. Lionel Barber diz que a nomeação de uma mulher não se trata de um “alerta” ao mercado da publicação, que Roula é uma das melhores jornalistas do FT, que foi testada em todas as áreas e é razoável, sensata e dura. Mas o facto de uma mulher ter sido escolhida, ter tido a oportunidade de exercer os cargos que exerceu e tenha sido promovida de acordo com isso é, em primeiro lugar, aquilo que a igualdade de oportunidades pressupõe. A Nikkei, proprietária do jornal, teceu iguais elogios à sua nova aposta, acrescentando que ela personifica o mote lendário do FT: “Sem medo e sem favor”. Talvez o faça por ter nascido numa cidade destruída pela guerra, Beirute. Começou a sua carreira de 24 anos no jornalismo na revista Forbes, onde ganhou notoriedade por ter escrito um artigo sobre Jordan Belfort, imortalizado pelo Martin Scorcese no filme O Lobo de Wall Street, em que aparece uma personagem baseada na jornalista. Na altura, Roula descreveu Belfort como uma versão retorcida do Robin Hood que tira dos ricos para dar aos brokers. Foi depois para o FT onde liderou os correspondentes estrangeiros e a cobertura do Médio Oriente durante a guerra do Iraque e a Primavera Árabe em 2011, até chegar a número dois do jornal. Dois dos seus trabalhos mais marcantes foram as entrevistas ao presidente iraniano Hassan Rouhani, em 2013, e ao então príncipe herdeiro da Arábia Saudita Mohammed bin Salman, em 2015. O jornal, que em 2017 foi pioneiro entre as publicações de referência internacional ao instituir uma paywall total, foi alvo de uma reestruturação interna determinante para enfrentar a crise dos media e concorrer com as startups digitais, tendo já ultrapassado a marca de um milhão de subscrições pagas. O papel da nova editora passa por aumentar as subscrições no mercado internacional (fora do Reino Unido), que já concentra a maior parte delas, e manter o FT como uma referência no meio da revolução digital. Sendo o primeiro jornal que leio todos os fins de tarde, vai ser reconfortante olhar para um jornal salmão, influente no mundo inteiro, sabendo-o chefiado por uma mulher.

Por: Sandra Clemente, jurista

Scroll to Top