Em 1965, Gordon Moore fez uma profecia que se tornou o teorema central da era da transformação digital – a capacidade de computação duplica, pelo mesmo custo, a cada 18 meses. Hoje, quem compra um equipamento eletrónico sente-o na pele: passado um ano vale metade do que custou; em dois anos está obsoleto. Na última década, o desempenho dos componentes eletrónicos aumentou radicalmente, enquanto o seu custo diminuiu de forma abrupta. Paralelamente, a tecnologia está a evoluir a um ritmo tão acelerado que trazemos no bolso um computador mais potente do que o que colocou o Homem na Lua.
Estamos a viver uma mudança sem precedentes, onde o crescimento exponencial das tecnologias digitais leva-nos para uma nova era. Tecnologias que outrora inspiravam ficção científica estão a entrar progressivamente no nosso dia-a-dia.
Em casa, temos assistentes virtuais. Nos hospitais, há robôs que realizam cirurgias. Os veículos autónomos ganham espaço no transporte de pessoas e bens. A produção de alimentos está a evoluir para modelos mais sustentáveis. A manufatura aditiva está a transformar a indústria. As fontes de energia limpas são cada vez mais acessíveis. O sistema financeiro está a ser transformado por tecnologias descentralizadas como a blockchain, enquanto assistimos a uma nova corrida espacial, suportada por grandes investimentos privados. E o mais espantoso é que estamos apenas no início desta transformação, onde os avanços na área da nanotecnologia e biotecnologia vão revolucionar a interação homem-máquina com um impacto extraordinário na nossa espécie.
Apesar de sermos confrontados, diariamente, com notícias sobre crises e tragédias, temos inúmeras evidências de que vivemos num período único da História. A vida das gerações que nos antecederam foi tipicamente mais curta, com mais doenças, mais perigosa e num regime mais autoritário. Nos últimos 50 anos, verificaram-se melhorias muito significativas nos índices de pobreza, literacia, saúde, violência e liberdade. Trabalhamos menos tempo, temos mais riqueza, somos mais cultos e inclusivos.
Apesar de não haver qualquer garantia que a sociedade se vá manter nesta curva ascendente, há motivos para sermos otimistas e acreditarmos que podemos criar um futuro ainda melhor. Não duvido que será através dos avanços tecnológicos que conseguiremos dar resposta aos desafios atuais. O facto de sermos uma sociedade cada vez mais digital (e global) permite que encontremos soluções através de uma enorme comunidade de empreendedores e investidores. No entanto, neste cenário de otimismo e abundância, é importante ter consciência que cada solução representa novos desafios.
Olhemos para a inovação na área da saúde. Estaremos preparados para viver numa sociedade com uma estrutura demográfica radicalmente diferente? Encontraremos na tecnologia os cuidadores de uma população muito mais envelhecida? Seremos capazes de encontrar ao mesmo ritmo as respostas para os desafios da saúde mental? E saberemos gerir os dilemas éticos inerentes?
Em relação ao impacto que a automatização terá no futuro do trabalho, conseguiremos adaptar-nos como sociedade a um contexto onde o rendimento não estará associado à produtividade? Ou a um novo modelo de ordenamento territorial fruto de novos paradigmas de mobilidade e trabalho? Estaremos preparados para uma sociedade muito mais individualizada, fisicamente desligada embora virtualmente conectada?
Douglas Adams disse que tudo o que existe quando nascemos é natural e vulgar; tudo o que surge entre os 15 e 35 anos é excitante e revolucionário; e tudo o que surge depois dos 35 vai contra a ordem natural das coisas. Qual é a solução? Impedir o desenvolvimento tecnológico para não perturbar a ordem atual? Ou preparar a sociedade para a inevitável transformação digital? A última, claro! Manter a curiosidade que temos entre os 15 e os 35 anos ao longo de toda a vida. Como? Reformulando o paradigma atual e percebendo que um sistema baseado em 15 anos de formação e 40 anos de atividade profissional não se enquadra neste século. Vamos ter de reaprender a aprender. Aprender a conviver com a imprevisibilidade e mudança. Ajustar a escolaridade de forma a reforçar as competências sociais, o pensamento crítico e a criatividade. Teremos de nos transformar, como indivíduos e organizações, em agentes de mudança.
Paradoxalmente, temos na tecnologia um poderoso aliado. Através da digitalização, desmaterialização e democratização de conteúdos, e de um acesso quase universal à Internet, vamos poder disponibilizar a mesma informação numa sala de aula de Harvard ou numa aldeia remota em África. O acesso generalizado à informação será a grande arma contra o autoritarismo, extremismo e a exclusão social existente. E, já dizia Charles Darwin, o segredo para a sobrevivência e evolução está na nossa capacidade de adaptação.

Por: João Mil-Homens, diretor-geral da SingularityU Portugal
