“Stay hungry, stay foolish”

CEO do Grupo Egor há cerca de um ano, Afonso Carvalho confessa estar entusiasmado com a desafiante fase profissional que está a viver, agradando-lhe bastante “a ideia de potenciar um grupo de pessoas sólido e altamente competente num mercado extremamente competitivo, mas que tem espaço e apetite para empresas que inovam, que criam valor e que entregam o que prometem”.
Para o, também, presidente da APESPE-RH, “promover o melhor de cada cidadão começa, desde logo, pelo processo formativo inicial e pelos processos de lifelong learning, pelo que o foco deve estar nestes processos e na capacidade de tratar cada pessoa como única, fomentando assim o melhor de cada um”.

Por: Ricardo Vieira, coordenador editorial


Com que missão assumiu a liderança do Grupo Egor em outubro do ano passado?

Afonso Carvalho (AC): O Grupo Egor existe há mais de 30 anos, tem provas dadas em todos os setores de atividade e destacou-se durante todos estes anos por um posicionamento qualitativo irrepreensível e pelo valor que acrescenta tanto a candidatos como a clientes. A par disto, o Grupo Egor tem uma reputação inabalável e um potencial de crescimento espetacular, pelo que a missão é, por um lado, de continuidade e, por outro, de aceleração, de inovação, de criação de valor e de garantir que, por exemplo, continuamos a ser o parceiro de eleição quando as empresas pretendem recrutar, selecionar, avaliar e formar os seus candidatos ou colaboradores.

Nesta nova fase do seu percurso profissional, o que ambiciona atingir, tanto a nível empresarial, como a título individual?

AC: Simplicidade. Algo que passará por conseguir continuar a criar valor inspirando pessoas e deixando-me ser inspirado por elas para fazer mais e melhor, mas sempre com o lema “stay hungry, stay foolish” bem presente. A experiência profissional e a formação obtida nos últimos anos são ingredientes que quero colocar à disposição deste novo desafio. Gosto de projetos desafiantes e o Grupo Egor encontra-se nessa fase. Agrada-me bastante a ideia de potenciar um grupo de pessoas sólido e altamente competente num mercado extremamente competitivo, mas que tem espaço e apetite para empresas que inovam, que criam valor e que entregam o que prometem.

Como diria que se encontra, atualmente, o mercado de trabalho em Portugal?

AC: O mercado de trabalho em Portugal faz lembrar uma banca de fruta que aparentemente parece só ter frutos a reluzir, mas que depois de os provarmos ou de tirarmos os que estão por baixo comprovamos que estão muito verdes, que não têm sabor ou que têm alguns podres escondidos. É verdade que estamos muito melhor que há uns anos, sobretudo no que diz respeito à criação de emprego e, consequentemente, à população empregada, mas continuamos com taxas absurdas de desemprego jovem e de desempregados de longa duração. A par disto, continuamos sem estratégias sólidas e consequentes para a falta de recursos humanos que as empresas tanto precisam, continuamos a insistir em modelos de ensino que não acompanham ou formam para as necessidades de hoje e do amanhã, não conseguimos encontrar um modelo célere para legalizar estrangeiros, as empresas pouco ou nada investem na formação dos seus colaboradores e continuamos a apostar em salários baixos que aceleram a fuga de profissionais para outras geografias. Tudo somado faz com que o mercado de trabalho esteja a viver momentos muito curiosos e que estão a tirar o sono a muitos gestores.

Que espaço ocupa o trabalho temporário nesta conjuntura?

AC: Exatamente o mesmo que ocupa em todas as economias mundiais, sobretudo nos países mais desenvolvidos e economicamente mais sólidos. Estamos perfeitamente na média dos restantes países europeus ou mesmo do resto do mundo, no que diz respeito à utilização desta tipologia contratual comparativamente aos restantes contratos de trabalho (1,7%). A recente alteração à legislação laboral vem comprovar isto mesmo, ou seja, esta tipologia contratual serve os propósitos de flexibilidade que as empresas necessitam em determinado período do seu ciclo produtivo e são mais uma modalidade, definida e enquadrada na lei, que facilita a contratação rápida de recursos qualificados. A redução do limite máximo dos contratos a termo, assim como as restantes alterações que foram introduzidas, são mais uma constatação de que a solução indicada para gerir a flexibilidade necessária passa pelo trabalho temporário.

Nesta aceleração digital sem precedentes que estamos a viver, quem está a ficar trás? O que é que pode e deve ser feito?

AC: A aceleração digital é provocada por pessoas que dentro das suas empresas inovam e criam soluções todos os dias, pelo que mais do que “quem está a ficar para trás”, a questão crítica é “quem poderá ficar para trás, quem serão essas pessoas e como antecipamos esse problema”. Esses são todos aqueles que não investirem em formação, em requalificação profissional, em assumir comportamentos e atitudes fora da sua zona de conforto e de conhecimento, pois o ritmo a que são introduzidas novas tecnologias, ferramentas e produtos é avassalador e rapidamente ficamos com um recurso desqualificado entre mãos. Cabe aos líderes empresariais estimularem culturas que promovam esta dinamização de competências e de aprendizagem garantindo assim que serão poucos os que ficam para trás.

De que forma deve o Governo intervir? É urgente uma reforma no sistema educativo português?

AC: Um só governo, com um ou dois mandatos, não é suficiente porque uma reforma implica um plano de ação a longo prazo e isso é algo que um partido apenas não consegue desenhar. Porém, um plano, uma ideia e um consenso poderão ser um bom começo. Em Portugal há escolas públicas e privadas que estão a testar, com sucesso, novos modelos de ensino, permitindo às crianças e aos jovens trabalharem novas competências e métodos de trabalho que serão preponderantes a nível pessoal e profissional, sobretudo quando entrarem no mercado de trabalho. Verdade seja dita que muito se progrediu em termos educativos em Portugal, mas a educação é uma “Never Ending Story” e esta história é reescrita todos os dias. Sendo assim, as intervenções necessárias têm de estar à altura do ritmo da mudança e das perspetivas a longo prazo. Copiemos e adotemos modelos que estão a ter sucesso em outras geografias e assim posicionamo-nos competitivamente face a países mais atrasados. Precisamos é de concretizar, já estamos a perder tempo precioso nesta corrida.

Que papel desempenharão as soft skills na economia e no mercado de trabalho do futuro?

AC: A preponderância das soft skills será tanto maior quanto a introdução da inteligência artificial, da automação e da digitalização no mercado de trabalho. Assim, o desafio a médio prazo passa pela capacidade com que iremos preparar os estudantes e os trabalhadores de hoje e de amanhã para esta revolução de competências. Antes falava-se do coeficiente de inteligência e posteriormente do coeficiente emocional, hoje já se discute o coeficiente de curiosidade – uma das soft skills mais desejadas no mercado de trabalho do futuro.

Acreditando que a nossa esperança média de vida irá aumentar exponencialmente, estarão as empresas preparadas para integrar colaboradores que, no futuro, poderão trabalhar mais 10, 15 ou 20 anos do que trabalhamos atualmente?

AC: Acho que as empresas estão longe de ter esta ideia bem presente e, consequentemente, ainda mais longe de terem um plano ou uma ideia sequer do que irão fazer daqui a 20 anos com uma força de trabalho tão diversificada, tanto em termos de idade, como de experiência e ambições. Mais do que acreditar, é preciso ter consciência que, financeiramente enquanto nação, não temos alternativa a este prolongamento da idade da reforma. Por outro lado, será claramente uma vantagem competitiva para as empresas que se anteciparem e conseguirem equilibrar e desenvolver modelos de negócio assentes numa força de trabalho diversificada, que integre colaboradores mais e menos experientes, com necessidade de trabalharem em part ou full-time, potenciando formação contínua e promovendo valores sociais e empresariais que estimulem todo este ecossistema a ser mais rico e recompensador para todos os envolvidos.

De acordo com o último relatório do Fórum Económico Mundial, cada nação deve desenvolver e potenciar o talento de cada pessoa, permitindo assim que cada indivíduo atinja todo o seu potencial. Como se alcança uma sociedade e, consequentemente, uma economia mais prósperas?

AC: O relatório do Fórum Económico Mundial é muito claro relativamente às mudanças que estão a ocorrer, que continuarão a ocorrer e ao que cada nação deve fazer para conseguir estar à altura dos acontecimentos. As sociedades e as economias convergem num ponto de equilíbrio fundamental: os cidadãos. As sociedades e as economias de amanhã querem-se mais sustentáveis, mais ecológicas, justas e inclusivas. Nesse sentido, os governos e os parceiros da sociedade civil devem criar estratégias que permitam garantir, desde cedo, modelos de ensino e de trabalho que estimulem as competências essenciais, de forma a que cada individuo fique minimamente preparado para um ambiente pessoal e profissional em constante mutação. Promover o melhor de cada cidadão começa, desde logo, pelo processo formativo inicial e pelos processos de lifelong learning, pelo que o foco deve estar nestes processos e na capacidade de tratar cada pessoa como única, fomentando assim o melhor de cada um.

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