Sejamos sérios: não há uma solução global para o problema global do Ambiente. É fácil colocar a questão em termos de palavras de ordem, de propaganda, de apelos mais ou menos sérios. Mas é difícil, senão impossível, resolver um problema pela regressão dos nossos hábitos e das nossas comodidades.
Claro que como Greta Thunberg, rapariga de 16 anos que pretende despertar a consciência mundial para o mundo que vamos deixar à sua geração, podemos ir a Nova Iorque num barco que é ecologicamente correto, salvo o facto de custar milhões de euros (e de não sabermos qual a pegada ecológica que o seu fabrico provocou); claro que podemos não comer carne, nem peixe, nem usar plástico, nem combustíveis fósseis. Mas temos de entender que, para conseguirmos esse feito temos de deixar de andar de avião, de mudar hábitos alimentares que nos deixarão, pelo menos inicialmente, cheios de fome; de carregar coisas de um lado para o outro em sacos e passar a usar roupas de fibras naturais, o que é fantástico para a classe média alta mas ruinoso para os pobres.
Não, a solução é tudo menos fácil. Posso dar o meu exemplo: tenho um carro elétrico. Deixo Lisboa, Oeiras, Cascais, Amadora e até Mafra, Torres Vedras, Almada e Sesimbra num brinco. Nas minhas deslocações não emito um grama de CO2. Porém, quando o meu carro foi comprado tinha uma pegada ecológica três a quatro vezes superior à de um carro a gasolina. Porquê? Por causa da exploração de terras raras para obtenção da matéria prima necessária às pilhas, por causa dos combustíveis fósseis usados nos diversos plásticos do meu carro e nos seus pneus, porque isso tudo somado tem um custo ecológico superior à construção de um motor. Ou seja, não poluo aqui, mas contribuo para a poluição na China, na Índia, de onde quer que a marca do meu carro vai buscar essas matérias.
Com o meu telemóvel, a mesma coisa. E com a televisão e o computador e com tudo, ou quase, que consumo. Das caixas onde transporto a fruta biológica, às garrafas em que bebo a puríssima água de nascente. E já falei dos Organismos Geneticamente Modificados (OGM)? Ainda não! Pois é. Quase tudo o que comemos, mesmo vegetais são OGM; ou devido à moderna investigação genética, ou por via das experiências e cruzamentos que ao longo de milhares de anos o homem experimentou, modificando a natureza, as plantas e os animais. O cavalo que conhecemos hoje é quase duas vezes maior do que os primeiros cavalos. Obrigámo-los a ser maiores para as nossas guerras e os nossos trabalhos pesados. Ao contrário, nos cães, fomos modificando os seus organismos a gosto. Uns ficaram mais magros e esguios e correm; outros mais pequenos e felpudos e temo-los em casa. Enfim, uma desgraça.
Depois, este depois é desesperante, somos mais de 7,5 mil milhões de pessoas. E todas têm de comer, embora nem todas tenham o que comer. No entanto, há hoje menos fome do que havia há cem ou há duzentos ou há mil anos. Intrigante… Se não fossem os OGM, e as formas artificiais de produzir alimentos (de estufas a uvas sem grainha) e de criar animais, Malthus teria tido razão: o mundo estaria esgotado há anos.
E, no entanto, no passado dia 29 de julho ultrapassámos em consumo, neste ano, o que o mundo pode produzir num ano. Não sei ao certo como são feitas estas contas, mas o próprio Papa Francisco as deu como boas. Nas últimas décadas temos visto este dia a recuar cada vez mais. Isto significa que se nada for feito chegaremos ao ponto de nada haver para consumir.
A Igreja, sobre este assunto, tem ideias corretas, piedosas mas inexequíveis (que me perdoe o novo Cardeal Tolentino Mendonça que sobre o assunto escreveu há semanas, com a sua fé e otimismo, na revista do Expresso). Francisco defende que a emergência do assunto nos coloca perante a necessidade de não desperdiçar, de atuar de acordo com a consciência ecológica das “pequenas ações diárias” coerentes com a gravidade do problema. Eu concordo, mas insisto que me parece inexequível.
Quer isto dizer que estamos condenados? Talvez! Na verdade nunca vi nem li sobre qualquer sociedade que se dispusesse a contrariar o progresso no bem estar das pessoas, sobretudo dos que mais têm (e mais gastam e mais desperdiçam). Não conheço histórias de sociedades abnegadas em nome de um bem tão coletivo e impessoal como o planeta. Vivemos sempre o nosso espaço, não como cidadãos do mundo, mas de um lugar concreto que, para ser limpo, não se coíbe de sujar o espaço do vizinho (recorde-se o exemplo dos carros elétricos). Não creio que se acabe com a exploração intensiva dos campos, ou com os viveiros e aviários, com os adubos, com os fosfatos, com os aviões – numa palavra, com tudo o que caracteriza esta sociedade global. Nesse sentido, toda a globalização, com o seu acréscimo de bem estar, constitui uma ameaça ao planeta.
Há quem, por agenda ideológica, pegue nesta contradição entre mundo global e sustentabilidade ecológica para tentar combater o capitalismo. Porém, que respostas dão? As mesmas do que o Papa? Nem isso, porque se sabemos que o Papa pode ser um exemplo de frugalidade, não é esse exemplo que nos chega de quem tem propostas assim. Há também quem pretenda um retrocesso civilizacional, como se os tempos antigos não fossem precisamente aqueles que nos trouxeram até hoje.
Que fazer, então? Recordo que na questão nascida sobretudo nos anos 90, do buraco de ozono, houve quem quisesse proibir os sprays, o ar condicionado e até os frigoríficos, uma vez que estes eram responsáveis pela emissão de CFC (Clorofluorcarbonetos), que são o composto químico sintético que afeta essa camada de ozono. Porém, o estudo e o progresso científico levou-nos a construir sprays, ar condicionado e frigoríficos que não emitem CFC. Daí que pense que, além dos bons conselhos contra o desperdício (é, na verdade, estranho, como uma sociedade em carência desperdiça), para a qual as igrejas e todas pessoas devem sensibilizar e ser sensibilizadas, é necessário investir sobretudo na ciência, na investigação, nas formas de continuarmos a ter uma sociedade global sem destruirmos a casa comum.
É difícil? Sem dúvida! Mas há 150 anos, os especialistas de Nova Iorque afirmavam que a cidade não poderia ter mais de três milhões de habitantes. Sabem porquê? Porque os detritos de cavalo (ainda não havia automóveis) tornariam a permanência na cidade insuportável. Eis um bom ponto para refletirmos. A ciência e a vida não progridem de forma previsível. Muitas vezes, algo surpreendente muda os nossos planos, para melhor ou para pior. Esperemos que seja para melhor. Não gostaria de voltar à dieta paleolítica, por muito na moda que esteja ou tenha estado, ou a ficar confinado à terra onde nasci e apenas poder falar com quem se cruza comigo…

Por: Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso
